CARTAS A CRISTINA
S. Miguel e S. Bartolomeu
É muito interessante o assunto que me apresenta para dissertação de hoje.
Somos cristãos e procuramos sê-lo ao modo antigo, original; e como temos o conhecimento esotérico, vamos usá-lo sem rodeios.
S. Miguel anda associado às colheitas dos frutos, do que semeou o lavrador. Festeja-se a 29 de Setembro; e S. Bartolomeu, que se festeja a 24 de Agosto, marca o início dessas colheitas.
S. Miguel é um Arcanjo e S. Bartolomeu um apóstolo de Cristo. Ambos lutaram contra o Diabo.
Os Arcanjos, como seres divinos, ao descerem para a evolução, não passaram do mundo do desejo e, por isso, a matéria de desejos é inteiramente dominada por eles.
O desejo ou a emoção é a força que impulsiona toda a nossa acção. Sem o desejo, nós seríamos como candeia apagada mas cheia de combustível – o azeite. Faltava-lhe, porém, o fogo, a luz!
O que nos faz mover em todas as direcções é o desejo. É ele que nos faz evolucionar, marchar da imperfeição para a perfeição.
Temos desejos ou emoções da variadíssima ordem. Oscilam entre dois polos: o bem, o belo; e o mal, o feio.
Os desejos fazem vibrar a matéria que forma os nossos corpos. E nesta vibração se consomem energias, que comparámos ao azeite da candeia. Vivemos num mundo elemental, no qual há várias ordens de seres, uns ainda sub-humanos, mas que trabalham com os humanos.
Alguns desses seres, mais sensíveis a certos estados da matéria posta em vibração pelas nossas emoções, captam-na e incorporam-na em si mesmos. E assim tornam mais fortes os seus corpos. Desta maneira, os nossos desejos trazem para o nosso convívio íntimo os seres sub-humanos!
Se os nossos desejos são de natureza elevada, a matéria posta em vibração é captada por um elemental de boa índole. Se as nossas emoções são de natureza inferior, viciosa e má, toda a matéria posta em movimento vibratório nos nossos corpos é atraída por um elemental de má índole, que se vai fortalecendo com ela e nos dominará, obrigando-nos a repetir essas emoções, que nos fazem perder energia e nos encurtam a vida, complicando-nos a evolução.
No primeiro caso, o elemental chegará a ser um grande trunfo nosso, pois estimula-nos à prática de emoções elevadas. E, com o tempo, ele será o nosso "anjo da guarda". No segundo caso, o elemental acabará por se tornar um demónio, que nos forçará a ir pelos piores caminhos. E poderá mesmo levar-nos à perdição.
Os Arcanjos fizeram a sua evolução no Período Solar. O primeiro Arcanjo que completou a sua evolução tornou-se Senhor do Sol. Chama-se, na literatura Rosacruz, Cristo Cósmico, para o diferençar de Jesus Cristo, o primeiro ego da nossa humanidade que completou a sua evolução.
O Sol físico dá-nos luz e calor, a vida. Sem os seus raios fecundantes e criadores, a vida desapareceria da Terra.
"Em baixo é como em cima; em cima é como em baixo", quer dizer, tanto no plano terreno como no espiritual, tudo está ordenado, hierarquizado. Por este motivo, na Terra há representantes da hierarquia celeste, que são polarizadores dos desígnios divinos sobre nós. S. Miguel, o Arcanjo, é o representante do Cristo Cósmico, o Senhor do Sol, e de todo o nosso sistema solar. Dominando a matéria de desejos, ele esforça-se por cristificar os seres humanos, apurando-lhes o corpo de desejos. E assim dá ao espírito elemental de boa índole bastante energia, para que ele, também por si, nos estimule cada vez mais a uma vida harmoniosa. Esta harmonia está simbolizada na balança, que muitas vezes os pintores e escultores colocam na mão de Miguel, o Arcanjo.
Mas, como alimentando desejos sujos, grosseiros, maus, damos ao espírito elemental de má índole energias fortalecedoras, ele procurará impedir-nos de fomentar emoções elevadas, prendendo-nos à Terra com a cadeia dos nossos instintos.
Temos, portanto, dois anjos connosco: o Anjo da Guarda, luminoso, feito de luz; e o Demónio, Anjo Escuro, feito de maldade e de ignorância.
No Oriente, este demónio tem como símbolo o Dragão, e aparece logo à entrada e no interior dos templos, sempre em atitude ofensiva, ameaçadora, como se quisesse impedir a entrada dos crentes que ali buscam a salvação e a defesa – quando, na verdade, só na acção virtuosa a poderão encontrar.
Nas pinturas e estátuas de S. Miguel, o Demónio ora é posto em figura de dragão, em atitude agressiva, ora em figura humana, monstruosamente formada por todas as nossas emoções vis.
Os Rosacruzes chamam a este demónio Guardião do Umbral, porque nos impede a ascensão aos elevados planos espirituais e, quando morremos, é a primeira figura que nos aparece! Se é poderoso, ele dificulta a saída do corpo, para que lhe continue a alimentar os seus vícios. É por isso que existe uma fórmula, na Fraternidade Rosacruz, destinada a ajudar, no momento da morte, aqueles que lutam para o conseguir. E foi bom que a tivéssemos feito, pois o espírito liberta-se do corpo mais facilmente para seguir um rumo definido e cheio de esperança.
A morte assinala a época da colheita dos frutos do que semeámos durante a vida. Eis outra razão para a balança que aparece na mão de S. Miguel. Destina-se a "pesar" esses frutos, para se avaliar quais foram mais abundantes e melhores.
O Cristo Cósmico, o Senhor do Sol e, consequentemente, dos planetas que formam o seu sistema solar, inspirou Jesus durante os três anos que durou a sua missão evangelizadora e durante os quais concluiu a sua evolução como ser humano, tornando-se Cristo. Bartolomeu foi um apóstolo. Praticando os ensinamentos do Mestre, ele dominou em si mesmo o poder do seu demónio. Por isso, junto da sua imagem se vê uma figura que nem é de gente nem de animal conhecido, presa com uma corrente, que Bartolomeu segura.
Agora, minha querida Cristina, já poderás compreender as figuras que aparecem sob os pés do Arcanjo S. Miguel e de S. Bartolomeu. Em S. Miguel, o dragão fala-nos da alma animal que liga o ego às coisas terrenas, em prejuízo das celestes. Em S. Bartolomeu, sempre se apresenta uma figura imprecisa, misto de ser humano e de animal, envolvida em tonalidades características das paixões vis. Todavia, os elos da corrente que prende o Demónio simbolizam os instintos, indício de que o demónio de S. Bartolomeu ainda não foi sublimado, mas apenas dominado, preso. O demónio tem de ser transformado alquimicamente, quer dizer, que as forças da alma purificada têm de transformá-lo de escuro em branco, o que só se consegue ao longo de vidas.
Enquanto está preso, o demónio sempre poderá soltar-se e procurar a desforra! Mas, quando se transforma, já não volta atrás, marcha em frente, até ao estado luminoso do Anjo da Guarda. E, então, os dois são incorporados ao próprio ego, que terminou a sua cristificação.
A esta operação alquímica chamam os rosacruzes "Boda Mística" ou "Casamento Místico".
Teu, do coração,
Cristófilo
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