Editorial
A Secularização do Mundo
A sociedade moderna caracteriza-se pelo desenvolvimento de meios materiais e proliferação de objectos económicos. É inegável que a sua dinâmica, que se baseia em valores quantitativistas, permitiu o acesso a privilégios que ainda há pouco tempo pertenciam apenas a alguns poucos.
Este processo de mundialização, impulsionado por forças económicas e tecnológicas poderosas, aumenta grandemente a facilidade de comunicação entre um número cada vez maior de pessoas em todo o mundo. Há uma clara relação entre a globalização e a cultura emergente de índole ocidental.
Os povos aproximam-se cada vez mais entre si. Deste progresso não advêm só vantagens. Se, por um lado, parece desejável a aproximação, pela possibilidade dum mais fácil intercâmbio espiritual e comercial, por outro as dissensões tomam agudeza maior.
As comunidades religiosas estão igualmente a globalizar-se ou, pelo menos, a expandir-se para além dos seus territórios tradicionais. No fundo de todas as aspirações das múltiplas religiões, em confronto no mesmo espaço social, está a ambição de engrandecimento pela sustentação ou alargamento do bem estar e intervenção na ordem social. Por vezes segundo modelos fundamentalistas.
A diáspora hindu é essencialmente étnica; a muçulmana assume um papel estratégico na oposição à cultura global de índole ocidental. No Ocidente, a sociedade moderna, impregnada de cultura científica e técnica, caracteriza-se por um acentuado processo de secularização. Mas os processos locais de secularização associam-se, paradoxalmente, ao revivismo de várias confissões religiosas. Nesta mobilização religiosa revelam-se cristalizações doutrinais e sociológicas com dificuldade para se relacionarem com a modernidade: falta-lhes a abertura da razão.
É difícil prever se nas próximas décadas vamos assistir a uma mestiçagem convulsiva das religiões. O que parece claro é que a actual diversificação religiosa remete para a ideia de mercado religioso – que depende das leis mercantis da oferta e da procura. O esforço de adaptação às novas situações conduz inexoravelmente à desqualificação cultural e social das grandes visões religiosas perante as sociedades modernas, cada vez mais desencantadas com a irracionalidade das crenças.
Cada povo guarda as características que o definem, no campo das aspirações do espírito e no das materiais. Não se deve pois encarar a pluralidade das religiões como uma realidade a superar a qualquer preço, através do proselitismo ou do esforço de missionação1. São tão profundas as diferenças entre os povos, cada qual com a sua sensibilidade, a sua religião, os seus costumes e tradições e o seu destino histórico, que nunca se lhes poderá fazer beber a felicidade pela mesma taça: a felicidade teria sempre um sabor diferente para cada um deles.
O cristão não é sectário e as suas convicções não o dividem nem separam dos outros homens. Do ponto de vista cristão, acoimar as religiões de falsas e não ver a verdade transcendente que procura emergir de cada uma delas é pura cegueira. Mas isto não impede, de maneira nenhuma, que o espírito analítico, vendo as coisas num outro contexto, porventura superior, não possa descobrir doutrinas erróneas ou práticas condenáveis noutras religiões.
Rigorosamente falando, Cristo não fundou uma nova religião para substituir as antigas – e cair, como elas, nos maneirismos de que foram vítimas.
O cristianismo actual é um conjunto de religiões mediterrânicas que encontraram, por osmose, na doutrina de Cristo, a sua plenitude. Aquilo a que hoje damos, e com razão, o nome de cristianismo, não é mais do que religião judaico-helénico-romano-céltico-gótica convertida a Cristo2. A riqueza da celebração da Páscoa cristã encerra todos os mistérios da Páscoa judaica, mas também os dos sacrifícios védicos, do ascetismo budista, das imolações das religiões africanas, do culto chinês, da oblação pessoal muçulmana e dos ritos de todas as Américas.
O facto de o cristianismo não ter vindo para destruir mas completar, não para abolir mas para aperfeiçoar, é que o torna o fim natural e a plenitude de todas as religiões.
A relação do cristianismo com as outras religiões não é de substituição ou de negação, mas uma relação de assunção, integração e sublimação. Pode dizer-se, então, que o cristianismo é o protótipo da religião universal por ser a única que não faz depender a salvação dos valores particulares de uma raça, nação ou tribo3.
Todavia, o que para muitos se identifica com o cristianismo como religião única e como fé cristã não é mais do que uma forma possível de cristianismo4.
O estudo histórico dos impérios e civilizações convence-nos de que, nos círculos confessionais, o homem despertou aquela altura espiritual que hoje parece já insuficiente para justificar, redimir ou absolver a nossa velha humanidade. Verificamos agora que o esforço da humanidade, desenvolvido dentro das coordenadas religiosas tradicionais, corre o risco altamente provável de se ter revelado pouco enriquecedor do ponto de vista do progresso moral e espiritual. Faltou a incorporação recíproca da religião e da ciência para construir um sistema em que a humanidade pudesse evoluir espiritualmente como um todo, em direcção a estádios de vida superiores e à eficiente regeneração dos valores humanos. Utilizando como instrumento explicitador as novas concepções e linguagem das ciências, os problemas do espírito são mais bem compreendidos e ficam profundamente enriquecidos. É preciso também denunciar os perigos do fundamentalismo, que mata o conhecimento pretendendo encerrá-lo no estaticismo da letra. A perspectiva dinâmica da filosofia rosacruz conduz para uma visão da realidade que não é a revelação encadernada e estática. Supera a questão fixista e a linguagem recheada de condicionamentos socio-culturais diversos através dos quais a revelação foi mediatizada. É na releitura das fontes originais que podemos compreender a dinâmica da evolução do homem e do universo.
O cristianismo quimicamente puro, livre das influências mitológicas subjacentes à maior parte das formas da vida cristã, só o podemos encontrar no rosacrucianismo.
Firmada nas suas próprias tradições espirituais, mas actualizada com as exigências do conhecimento e a pressão dos factos, a filosofia rosacruz desempenha uma função “autoconsciencializadora” do espírito, assumindo-se como responsável pelo conhecimento da natureza, composição e especificidade do espírito como ser e como entidade axiológica.
À filosofia rosacruz compete, hoje, ajudar a saber o que é o espírito e para que tende o espírito, extraindo desse conhecimento os elementos que permitirão compreender o ser-do-espírito e o lugar que ele ocupa no mundo.
F.M.C.
Notas
1 M. Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 4ª ed., p. 131;
2 Id., ob. cit.; p. 131;
3 Id., ob. cit. p. 289. C f. Moisés E. Santo, Lição - Introdução Sociológica ao Islão, Ed. Estratégias Criativas, p. 8.;
4 M. Heindel, Conceito R. do Cosmo, 4ª ed., p. 282.
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