Editorial
Violência Juvenil
“O homem pode converter-se no mais divino dos seres se for educado correctamente; converte-se na criatura mais selvagem se for mal educado”.
Platão, Leis, 766 a.
Sócrates (470-399 a.C.) ensinou durante a guerra do Peloponeso nas praças públicas1. Exortou os jovens à virtude. O autoconhecimento do ser humano é um dos elementos fundamentais preconizados pela educação do conhecido filósofo: Conhece-te a ti mesmo! Desta frase Sócrates faz o programa da sua vida e a recomendação básica aos discípulos. Platão (427-347 a.C.) seguiu a doutrina de Sócrates e colheu muitas ideias de Pitágoras, especialmente as que se relacionam com imortalidade, a reencarnação, o respeito pela matemática e a maneira de entrelaçar o intelecto com o misticismo. Em 387 a.C. Platão funda em Atenas a sua Academia. Foi a primeira Escola de carácter permanente virada para uma consistente formação humana e intelectual.
No sentido platónico, o bem está associado à inteligência, e a educação é a arte de desejar o bem. O homem bom é virtuoso e, porque é virtuoso, é bom. Mas, contrariamente à ideia platónica, a inteligência e o saber são insuficientes para tornar alguém virtuoso. Os crimes de que os últimos séculos são testemunhas, que associam instrumentos construídos pela ciência e pela técnica, bastam para o demonstrar. Como diz Max Heindel a propósito do uso da pólvora e da dinamite, o conhecimento e a inteligência são neutros ou a-morais. Tudo depende da vontade ou da liberdade suas utilizadoras2.
Mas, o que é a educação? Todos sabemos o que é, embora de modo um tanto vago. Na sua origem latina, a palavra significa “adquirir hábitos” ou “costumes” de alguma coisa; “formar”, “edificar”. Para os gregos, que foram os inventores da educação moderna, educação e cultura são termos que mutuamente se implicam. No grego antigo a palavra paideia, que tem na raiz a palavra pais (criança), significa, ao mesmo tempo, educação e cultura. Nesta perspectiva podemos considerar a educação como uma espécie de acção capaz de transmitir e instaurar valores, ideias, sentimentos, conteúdos e estruturas. Por outras palavras: educar é ensinar a pensar, a comunicar o pensamento, a fazer juízos relevantes e a distinguir valores.
A importância da criança no desenvolvimento da civilização não reside na actividade geradora de riqueza económica, nem na sua vida psicológica. O seu valor está essencialmente na futura capacidade realizadora de valores de ordem superior, socialmente dominantes, e de qualidades superiormente apreciadas, transmitidas pela educação.
A criança é um ser humano em formação. Está em fase de desenvolvimento e aprendizagem. Requer toda a protecção humana e social que o apoie nessa fase de crescimento e de recolha de valores. Os afagos carinhosos, as prendas de Natal, tudo isso é louvável. Mas é preciso não esquecer que a criança de hoje é o adolescente de amanhã. E que no dia seguinte vai entrar na áspera esfera do adultos. Ficará exposta às inclemências da sociedade; será captada por qualquer ideologia; explorada em qualquer emprego.
Pode, por isso, parecer estranho que se verifique o enaltecimento obsessivo em relação às crianças quando toda a dinâmica social mostra ignorar a escala de valores em que elas devem assentar o comportamento futuro.
A violência escolar e juvenil, objectiva ou sub-reptícia, que se exerce no vandalismo habitual, na agressão iminente e no assassínio provável, que parece estar a dominar a civilização Ocidental3, impõe-nos a pergunta: porquê?
Sem dúvida que muitos jovens têm comportamentos violentos devido ao desenvolvimento emocional desequilibrado. São alvo da violência parental; provêm de famílias desestruturadas e vítimas da miséria, do alcoolismo, da toxicodependência, etc. Mas uma boa parte destas reacções desmedidas têm, como pano de fundo, a violência armazenada desde os primórdios sociais pelas “almas jovens” que, de algum modo, se esquivaram à estrutura orgânica do sistema educativo-cultural4.
Sem a luz da educação e das grandes vias de libertação espiritual, capazes de esclarecer as relações que se estabelecem dentro deles e que eles estabelecem com os outros e com o mundo, foram incapazes de separar-se dos níveis elementares do desenvolvimento.
O embrião para o crescimento consciente foi dado muito antes de o homem se assumir como ser autoconsciente e interveniente no curso natural das coisas. Aconteceu em determinado momento ecologicamente favorável. Os Filhos da Luz enxertaram-lhe o impulso para um novo tipo de liberdade: a espiritual. Este impulso germinou durante a fase pré-histórica em que havia de surgir o sistema socio-cultural. O homem deixa de ser um simples autómato e de estar subordinado ao ritmo animal e a outros ritmos. Passa a agir de acordo com uma lógica autónoma e decisão independente; actua orientadamente em ordem a fins; evolui e faz evoluir a espécie mais rapidamente5. Fala-se então de uma rebelião para assinalar a mudança da realidade socionatural, em que o homem estava destinado a evolucionar, para a realidade sociocultural, que veio a constituir-se no sistema que pretende alcançar, por outra via e mais depressa, os mesmos objectivos: a evolução da espécie no sentido da sua progressiva espiritualização.
Todos os grandes mitos do passado, em todas as religiões, assinalam esse corte entre a evolução natural ou biológica e a evolução cultural quando nos falam dos “anjos caídos”.
Mas verifica-se agora o aparente fracasso desse esforço orientado para o desenvolvido dentro do novo sistema sociocultural. Em vez do exercício de uma liberdade espiritual capaz de intervir activamente sobre o eu e o mundo numa perspectiva de harmonia e liberdade e não de conflito, criou-se uma espécie de domesticação. Domesticação ética algumas vezes, imposta pelas religiões universais; domesticação técnica noutros casos, através da automatização do pensamento e dos gestos. O vício resultante é a deficiente regeneração dos valores humanos e a má participação na transformação evolutiva do mundo e na evolução cósmica.
Sem a acção formadora da educação e da cultura, sem a prévia e constante reflexão por parte dos pais e educadores, o homem de amanhã não deixará de ser, bem vistas as coisas, o cavernícola egoísta e propenso à luta; passará, somente, a revelar a sua natureza original de uma forma torcida, comprometida, sucedânea pobre das suas experiências ancestrais, uma caricatura sociabilizada, civilizada, estereotipada, do homem primitivo. Será um homem civilizado, organizado segundo padrões superiores de existência, mas suspenso pelas suas próprias limitações, com impulsos incompatíveis com as leis da vida e da sociedade.
Parece assim estar em causa a experiência de a humanidade continuar a evolucionar espiritualmente através da educação e da cultura.
Devido à referida domesticação, a compreensão da maioria da humanidade processa-se ainda ao nível elementar, em que se separa a sociedade entre “bons” e “maus”, segundo o vulgar conceito maniqueísta. É a este nível que se situa aquela violência mais visível, devido à superioridade quantitativa de uma humanidade elementar6.
A um nível intermédio da evolução situa-se aquela parte da sociedade contemporânea, repositório de algumas inteligências especulativas, de muitos teorizadores a puxar ao psicológico, dos políticos e dos seus correligionários. Embora se agridam mutuamente, não deixam de garantir que o problema não se deve à existência de bons e maus mas a sistemas políticos certos ou errados. Também aqui o progresso esbarra, mas agora com o subjectivismo, o fanatismo e o partidarismo, com as suas constantes desarmonias, permanentes dissidências e trágicas consequências.
Mais longe e em nível superior procura descortinar-se as leis da evolução universal, a origem e destino do mundo, encontrar uma explicação para o desenvolvimento do processo cultural e da acção prática do espírito no mundo-como-um-todo. É aqui, ao intervir decisivamente no autoconhecimento, que a filosofia rosacruz acaba por constituir-se num baluarte do autoconhecimento e autocompreensão do progresso e fonte reflexiva dos seus sucessivos ajustamentos.
Indo mais longe na busca das raízes naturais do comportamento humano, a filosofia rosacruz estimula o progresso legitimando um tipo de homem espiritualizado. E, ao mesmo tempo, remedeia os prejuízos e reencaminha o homem num sentido naturalmente correcto.
A primeira intenção da filosofia rosacruz é converter-se na consciência da cultura ocidental, despindo-a das circunstancialidades, para que seja apreendida no que tem de essencial e nos valores que encerra.
A responsabilidade é grande mas não pode ser enjeitada. É preciso auxiliar a maioria menos preparada a adquirir e consolidar hábitos sãos e conhecimentos profundos. A via a seguir será a da verdade e da pública defesa dos valores do espírito, de molde a criar no homem mediano uma sensibilidade adequada aos valores superiores do espírito.
Na conhecida “alegoria da caverna” Platão lembra que a educação é uma espécie de “conversão”. No sentido original da palavra, “conversão” quer dizer “mudança radical de vida e de mentalidade”. O processo é longo e resulta de esforços e perseverança constantes.
Talvez o maior mérito de Platão seja o de pôr em evidência o facto de a educação ser uma tarefa para a vida inteira e para todas as vidas.
F.M.C.
Notas
1 Conflito armado entre Atenas, a potência marítima da antiguidade clássica, e Esparta, a potência continental. Ocorreu em 431 a.C. na península com o mesmo nome, situada no sul da Grécia. O Peloponeso tornou-se uma ilha depois da construção do canal de Corinto em 1893.
2 M. Heindel, Iniciação Antiga e Moderna, F.R.P., 1999, Cap. X, pp 97-98.
3 Tiroteio nunca Escola na Finlândia; in “Jornal de Notícias”, 7/11/2007; 2007; Mário A. Rocha e outros, Jovens Vítimas de Crime em Contexto Escolar; Universidade Fernando Pessoa, 2007; Isabel Leiria, Violência Escolar, in “Público”, pp 4-5, 4/12/2007.
4 M. Heindel, Gleanings of a Mystic; The Rosicrucian Fellowship, Oceanside, 1977, Cap. XXII, pp 177-178; The Rosicrucian Philosophy in Questions and Answers; id., 1947; p 481 e seg.
5 M. Heindel, Maçonaria e Catolicismo, F.R.P., 1997, Cap. II, pp. 18-19.
6 Thérèse Delpech, O Regresso da Barbárie; Quidnovi, Lisboa, 2007.
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