Editorial

A Crise da Palavra

Multiplicam-se por todo o lado os sinais de um clima de agitação cada vez mais generalizado.

Nesta agitação é elemento capital ou, ao menos, muito importante, a palavra. Fala-se interminavelmente. Falam os políticos, falam os professores, falam os trabalhadores, falam os estudantes. Falam até as paredes. Falam as paredes através das inúmeras colagens e grafitos que nelas se põem e que são do mais significativo dessa “agitação da palavra”.

Toda a gente se sente na obrigação de falar, de escrever, comunicar as suas ideias, dizer o que sente e o que pensa. Esquece, na maioria das vezes, que há uma obrigação anterior a esta: inquirir se “vale a pena fazê-lo”, se “merece fazê-lo”, ou se tem condições para o fazer com segurança. Perguntas que raramente são feitas e que evitariam, talvez, tantos e tão importunos e inúteis aparecimentos.

Porquê contar o que se pensa, o que se vê e não se vê, o que se sabe ou julga saber, e ir fazê-lo a anónimos, a quem não se viu e não se sabe quem é? Parece insólito que algumas pessoas sintam a necessidade de fazer tudo isto, falando de tudo e a propósito de tudo escrevendo, sem nada acrescentar de substancial ao que já se sabia. Se todas as suas palavras fossem expurgadas da mistura de citações e subjectividades ficariam extraordinariamente reduzidas no volume e ainda mais no conteúdo.

É verdadeiramente revelador escutar a palavra, estudar o perfil, perscrutar a vida interior dos autores destas palavras. Não interessa aqui, somente, atentar no que eles dizem, mas sobretudo no que eles fazem e no que procuram, As suas palavras podem ser enternecedoras, galvanizadoras, chegarem-nos repassadas de um elevado cunho de sinceridade. Usam o poder operativo da palavra, a sua capacidade hipnótica e até encantatória, capaz de encantar no bom e no mau sentido. Mas, em geral, vê-se que eles apenas querem aparecer, ser conhecidos, valorados. Aparecem eles em vez da obra ou em prejuízo desta: substituem o imortal pelo corruptível, o pessoal pelo individual, o transumano pelo humano. Antepõem-se sempre à sua obra, na medida em que é a sua individualidade circunstancial que a completa. Daqui, que estes “autores” tenham um certo pendor para o exibicionismo e a afirmação ostensiva da sua pessoa como entidade polar da actividade criadora.

Mas há quem possua aquelas ideias, conceitos e sentimentos que constituem o conteúdo estrutural da nossa vida. “Conteúdo estrutural” quer dizer “valores”. Para além da riqueza conceptual que encerram, colocam-se diante de nós, ou por cima de nós, ou através de nós, transcendendo-nos, como valores qualitativos e dinâmicos que têm o poder de nos mover e co-mover profundamente. São ideias, ou valores, que são, por assim dizer, eternos, apesar da sua inserção no tempo.

Quem é capaz de criar ou defender estes valores não se limita a aparecer. Ao dar satisfação à necessidade de servir, desprende-se do fruto criado e secundariza-se como pessoa frente à sua obra.

Todavia, neste mundo, cada vez mais impessoalizado e estandartizado, as trombetas da propaganda comercial e política que procuram confundir os contornos da realidade e da legitimidade, abalam estas ideias nos seus alicerces racionais. A sugestão e o domínio das técnicas psicológicas de acção subliminal criam incessantemente falsas verdades e falsos valores. Com tais “valores” esvaziados de conteúdo, numa sociedade como a nossa, que valoriza superlativamente o consumo, a hierarquia social decorre da realização de um “valor” chamado êxito. E o que é o êxito? Talvez a sua principal característica seja a possibilidade de aparecer, tornar-se conhecido, ter celebridade. A celebridade é o principal argumento da preferência, seja do voto político ou do sabonete que se usa. Liga-se aos mecanismos de consumo através da preferência dos consumidores suscitada com pressupostos geralmente fabricados a partir de dados viciados.

Com tal desenvolvimento da exploração das fraquezas humanas, nunca até agora atingido, revela-se um novo tipo de “herói”; o que se apresta a seguir, contra as aparentes conveniências mundanas, o caminho mais duro e doloroso, onde se defende a aceitação e coerente manutenção de valores, mesmo contra os imperativos pessoais.

Não admira que a marca dos corajosos seja a objectividade e a aspiração da verdade. Max Heindel, Francisco Marques Rodrigues e outros, insistiram nela como condição fundamental do espírito e característica básica do rosacruciano, superior representante do espírito.

Ao intervir decisivamente na compreensão de o que é o homem, a filosofia rosacruz vai longe na busca das raízes naturais sobre que ele assenta e donde ele proveio. E em vez de se perder no labirinto das palavras, ignora as justificações ostensivas e os discursos sonoros e vai à procura da teia infindável das relações discretas entre causas remotas. Desce ao Hades, ao mundo oculto onde se forjam as reacções pessoais, individuais e colectivas. E desvenda, assim, as motivações, os aspectos mais significativos da natureza humana.

Ajuda, pois, a compreender por que os debitadores de lugares-comuns, que têm plasticidade invertebrada, conseguem representar figurinos aceitáveis e chegar, sem dificuldade, à superstrutura do sistema social. E explica também os motivos por que o indivíduo corajoso, que actua de acordo com a sabedoria, em nome e em realidade dos valores nobres que lhe estruturam o carácter, é colocado à margem e a sua voz de intérprete independente, ou a sua visão para além do imediato, é abafada por uma indiferença social que isola, segrega e silencia.

Mas a filosofia rosacruz não se limita a ajuizar, a destruir halos de aparência, esclarecer posições de valor ou analisar a obra criada para lhe desvender a oculta essência. Experimenta, diariamente, os seus ensinamentos e doutrinas, pois que em tal experiência vai encontrar a energia cinética que lhe permitirá desenvolver-se e reproduzir novos e mais profundos ensinamentos e doutrinas.

Se tomarmos um pouco de atenção veremos que a filosofia rosacruz ajuda a criar uma nova Sociedade assente na defesa de valores e interesses “intransmissíveis”, insuceptíveis de transferir-se, como a riqueza ou os títulos nobiliárquicos o são. É uma Sociedade que não pode constituir-se por simples adesão ou pública afirmação, por inscrição ou transmissão, pois é feita de vivências espirituais constantes. Constitui-se por afirmação natural e não por decisão pessoal, social ou política. Pressupõe a educação, a instante superação pessoal e a participação criadora de todos e de cada um.

É irrevogável a decisão de todos os membros desta Sociedade construírem um mundo à sua medida, dando satisfação aos legítimos anseios humanos de aperfeiçoamento social, instituindo, ao mesmo tempo, as bases de uma convivência frutuosa e altamente repercutiva no aceleramento da evolução espiritual da humanidade.

F.M.C.




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