Editorial

Maré de Insegurança

Impetuosa, temível e perniciosa é a presente maré de insegurança. Estamos perante um facto que, a desenvolver-se ao ritmo dos últimos tempos, não tardaria muito em entregar o homem à selva originária.

As ruas nocturnas ficam entregues a bandos marginalizados, os assaltos são cada vez mais frequentes, os casos escabrosos multiplicam-se, a ameaça à circulação é crescente.

Ao lado de toda uma fenomenologia de crise, aliás agravando-a, temos agora esta autêntica insurreição contra a vida social organizada nos termos prescritos pela ética da civilização Ocidental. Ameaça subverter o tipo de vida correntemente chamado “civilizado”.

A procura das causas leva-nos um pouco longe, até à origem das condições culturais, económicas e técnicas que vieram definindo a sociedade em que vivemos. Este conjunto de factores não permitiu uma íntegra revisão das suas bases ideológicas de modo a garantir a defesa do conteúdo dos seus valores fundamentais.

Dizer que sempre ouve assaltos, crimes e desvios não explica a situação. É mostrar confusão, ou pretender confundir aqueles que, neste labirinto social, pretendem isolar e compreender a natureza da doença. É uma enfermidade que ataca a mente do corpo social e se reflecte no seu comportamento básico. Ou, então, revela ignorância da extensão dos perigos e ameaças definitivas que espreitam a vida social contemporânea.

Contudo, o esforço para fortalecer os meios repressivos e torná-los operacionalmente eficazes contra os perigos do marginalismo, do terrorismo, do banditismo, da imoralidade pública ou da mera expressão de sentimentos anti-sociais, vai-se consagrando nos países da civilização ocidental. Mostra que há, efectivamente, uma ameaça indistinta e vaga submetendo a sociedade a um clima de insegurança.

Surge então esse esforço como remédio tomado à pressa, consoante os casos e os meios que os poderes políticos têm ao seu alcance.

Sendo assim, de que doença se trata?

É inevitável que, frente à magnitude das causas identificadas, não existam só razões sociais, mas também a própria natureza humana. Não podemos separar a urbanização selvagem, a mobilidade social (migração e imigração), a carência recursos (energéticos e alimentares), a perda do sentido da família como instituição, etc., daquela outra faceta do ecossistema que é o sujeito humano. É, afinal, o ser humano que é o agente e a vítima dessa dinâmica que tende a subverter as condições de vida tradicionais, que é assaltante ou é assaltado, que é produtor ou é consumidor, que age e sofre, que clama por ordem ou provoca a desordem. São, em grande parte, os indivíduos desenraizados e inadaptados que denunciam o estado de evolução medíocre do homem dito civilizado.

Todas as épocas tiveram os seus medíocres à procura da sua parcela de poder por meio da violência. Mas as suas reacções eram contidas pelas atitudes dos cidadãos comuns, ou seja, por quem zela pelo cumprimento das regras sociais, defende o património moral do meio em que se vive.

O que é inédito, agora, não é propriamente a violência, mas a sua vulgarização. Pior ainda é o risco de se tornar um fenómeno irreversível devido ao facto de os cidadãos que defendem valores afectivos e intelectuais, éticos e estéticos, se verem subalternizados pelas sucessivas vagas de indivíduos incapazes de subir até esses valores. De facto, o medíocre, assim transformado em “pessoa comum”, mantém-se todavia afastado da possibilidade de ver-se assimilado, pelos trâmites educacionais, aos parâmetros da civilização e do progresso. E tenta mesmo impor a sua existência amorfa e tantas vezes negativa nos destinos da sociedade em que vive.

Daqui resulta, naturalmente, que o progresso social, em vez de sacrificar a qualidade a uma qualidade maior, tem de sacrificar a qualidade à quantidade.

No passado consideravam-se estes inadaptados como marginais, criminosos de delito comum ou até doentes mentais. Hoje, na era da Previdência Social, que lhes chega a garantir as condições materiais de subsistência, tornam-se um fenómeno que ameaça subverter a própria ordem social que os mantém.

Enquanto na vida quotidiana várias faixas etárias, as populações rurais e os tecidos menos infectados da sociedade pedem uma acção drástica contra a desordem e a violência, os medíocres inadaptados, que se colocam abaixo do nível de assimilação civilizacional, persistem em confundir idealismo com irrealismo, liberdade com anarquia, originalidade com marginalidade.

Chegados a este ponto põe-se agora a questão, pelo menos de princípio, de compreender que o motivo por que o homem medíocre se torna cada vez mais vulgar é o da incapacidade da educação para proceder à mútua adaptação entre a sua hereditariedade individual e a hierarquia de valores, afectivos, emocionais e intelectuais, da sociedade em que vive.

Apontámos o fulcro da questão que fere a tranquilidade e o progresso. Daqui podemos afirmar, como já o fizemos noutra ocasião, que a educação é uma necessidade pelo simples facto de ser a expressão, no homem, do determinismo universal. A humanidade de um ser humano pode perder-se: o homem pode regressar à ‘barbárie’, à selva, à animalidade. Em virtude do seu próprio estádio evolutivo, o homem, ao nascer, é um dos seres mais desarmados dos reinos que evolucionam na Terra. É em parte essa situação que lhe impõe a necessidade de se munir, de se educar, de se culturalizar. A sua natureza, que não é cultura, exige cultura; a ameaça constante do feroz, do incoerente, do irracional, exige a defesa, também constante, da educação, do autodomínio, da coerência, do carácter e da racionalidade.

A compreensão desta realidade através da filosofia rosacruz deve ajudar a vencer o mito de o homem ser uma espécie fixada evolutivamente e, em vez disso, manter uma elevada capacidade evolutiva. Assim vistas as coisas mais directamente, podemos agir a menor distância sobre as técnicas e comportamentos que irão enriquecer os ambientes e alterar as estruturas em que se relacionam as pessoas, quer entre si quer com as coisas.

Tal sendo a situação presente, e ante o proliferar de um comportamento em que só se espera, assim desacompanhado de alicerces de educação, ordem e disciplina, no futuro, o seu agravamento, importa que, naquele sector da educação mais directamente sujeito a um projecto e a uma programação lúcidos, se introduzam e apliquem rapidamente os princípios e os métodos que permitam remediar prejuízos e reencaminhar o homem num sentido naturalmente correcto.

F.M.C.




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