Editorial

Políticos e Políticas

Estamos a viver um momento difícil da nossa História. Fala-se da política actual, da crise económica e financeira, das eleições, de uma gama variada de temas.

Noutros tempos houve discussões semelhantes. Mas nunca antes se verificara um consenso tão pessimista sobre as condições de vida em Portugal.

Dir-se-á haver necessidade de uma alteração do “sistema” de modo a recuperar a credibilidade das instituições, pôr ordem na vida diária e terminar com erros sistemáticos.

Dirão outros que há uma liderança política incaracterística e permissiva, muito responsável pelo estado actual do país.

Alegar-se-á ainda, porventura, ser necessário encontrar o tipo de democracia que mais nos convém, pois o actual, nos quadros em que se movimenta, levará ao fim do próprio sistema democrático.

E não se ofenderá ninguém se falarmos do legítimo receio do cansaço das instituições. A completar este quadro, a crescente paralisia da já tradicional ineficácia burocrática e o ridículo de certas situações, desgasta claramente aquilo a que podemos chamar o prestígio do Poder.

Quando se fala do Poder, da política e dos políticos, pretende-se apontar a atitude fundamental destes perante a governação ou a acção das ditas políticas. E, quanto à ideia que se tem de governar, ela é a de mandar, orientar, estabelecer directrizes e comportamentos. Ou seja: é o exercício de um poder que passa por nós próprios, pela nossa família e chega à cidade e ao país em que vivemos.

Ora, a democracia é um sistema e ideias e de governação baseado na igualdade perante a lei, na livre iniciativa e representatividade.

Sendo assim, como devemos encarar a igualdade democrática, se tivermos em conta que, segundo o Conceito, cada pessoa tem as suas características, e é distinta de todas as outras 1?

É certo que todos os indivíduos têm todos o mesmo fundo substancial. Se tirarmos ao homem todos os aspectos acidentais ficamos com um fundo, um resíduo espiritual, que é, de facto, comum e igual.

Partindo deste ponto de vista, era normal supor uma igualdade e impor a todos princípios universais. Mas este conceito está longe de dizer a realidade humana. Para lá desse fundo espiritual e da sua guarnição genética, devido ao conjunto de experiências vividas com os outros e arquivadas nas estruturas do espírito, uns estão mais possibilitados; outros, mais condicionados. É assim, graças a esta dinâmica relacional de reciprocidade comunitária, que a humanidade se vai edificando e construindo segundo uma sequência de causas-efeitos.

A natureza humana não está acabada. Realiza-se constantemente, de modo original e único em cada pessoa, ao contrário do que afirma a teoria fixista da Teologia tradicional que concebe todas as espécies vivas criadas ab initio no seu estado actual.

Mercê deste desenvolvimento começou agora a adquirir mais visibilidade um estádio da evolução de seres humanos em que se procuram causas não somente exteriores ao género humano, mas também internas e relacionadas com a natureza, origem e actual composição da chamada espécie humana. Consegue já descortinar-se os diferentes níveis da vida e do espírito, que vão da reacção elementar das formas mais rudimentares até ao génio criador. Os mais conscientes de todos estão já naquele estádio de evolução em que se processa o espantoso drama da auto-identificação, autocompreensão e conhecimento dos desígnios da Providência a que chamamos “iniciação”.

Consoante o seu estádio de preparação cada pessoa sente e reage de maneira única, singular e incomunicável. Ninguém pode sentir, em condições correntes, o que o outro está a sentir. Não tem sentido supor nas pessoas a existência de um comportamento homogéneo sob pretexto duma natureza constituída com base num feixe inicial de iguais possibilidades que existe em todas elas.

Deste modo nos viemos aproximando de uma resposta à pergunta de como se deve encarar a igualdade democrática.

Admitida a permanente evolução da vida e do homem, parece coerente aceitar que a igualdade democrática não defende a possibilidade de que todas as pessoas sejam iguais, o que seria um disparate. Esta igualdade deve ser encarada, então, no seu aspecto “potencial” e não “real”.

Quer dizer: é uma igualdade de oportunidades e não de qualidades.

Neste sentido, a igualdade social assenta no pressuposto de que nenhum critério a priori, especialmente hereditário, deve ditar uma desigualdade de princípio. Ou, por outras palavras, que se recusam as desigualdades impostas pelo direito de sucessão, ou por horizontes sociais estreitos, que permitam eximir-se às leis gerais do país ou ditar, arbitrariamente, o que deve suceder aos outros.

Do que fica dito é lícito deduzir que é mero verbalismo perfunctório culpar a democracia de quaisquer delinquências e do seu agravamento, das variantes e bifurcações delas, porque, “culpa” propriamente dita, só a podem ter as pessoas físicas.

E se elas são culpadas, a culpa é de quem lhes permitiu agir assim, das falsas tolerâncias, das normas dissolventes, da permissividade omnímoda em todas as suas formas.

Para que se evite um sistema permissivo, à custa de modalidades diversas, é preciso vigiar com severidade as múltiplas formas de incapacidade ou debilidade ética.

Impõe-se que todos, designadamente os políticos, não sejam necessariamente amadores. meros simpatizantes ou jubilados desocupados, chamados pela graça da cooptação a exercer uma função para a qual não estão devidamente qualificados, e que essa nomeação não traga consigo a indiferença das supostas superioridades, o triunfo dos medíocres e a decadência dos princípios mais nobres ao abrir as portas a diversas incompetências.

No fundo, aquilo que todos desejam é verem-se dotados de “centros de decisão” presididos por quem quer que seja: mais que um técnico, um factor de consciência, mobilizador de energias, um animador de esforços convergentes, um especialista de especialistas.

Talvez nunca, como em nossos dias, seja tão grande a nossa responsabilidade, no auxílio à maioria menos bem preparada a adquirir e consolidar hábitos sociais mais sãos.

A nossa missão, neste campo, é a de ser um exemplo cívico e humano que se ofereça à consideração e respeito de todos. E a forma de realizar essa tarefa é ajudar a criação de hábitos reflexionadores e o recurso à compreensão e interiorização dos valores que defendemos.

A assimilação destes valores e princípios não é um processo fácil na evolução humana: encontra a cada passo a oposição da “opinião pública”. Servir o progresso ou servir a opinião pública podem ser dois caminhos divergentes cuja intersecção se verifica em momentos cruciais. Só a lucidez e a perspicácia nos possibilitará escolher o caminho que nos interessa seguir, compreender a sua importância e significado, e identificar esses raros momentos que permitem iniciar o coerente exercício da nossa missão.

F.M.C.

 

1 Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 4ª ed., p. 61, Lxª 2005.




[ Índice ]