Editorial
Do Espírito de Partido
Preocupação compreensível de todas as formações partidárias é a de acautelar a sobrevivência. Têm de encontrar remédio para as constantes ameaças à perda da capacidade de agir. A aproximação das eleições vai enervando os seus representantes-agentes. Mostra desígnios e fraquezas que permaneciam ocultos.
Cada “homo politicus”, ou artista da política, rivaliza com todos os outros na demonstração das suas capacidades. Todos querem demonstrar as estranhas subtilezas que os superiorizam aos comuns mortais. Forjam-se expectativas, adivinham-se intenções. Cenarizam-se os quadros políticos que hão-de formar-se. Neste vasto terreno, alguns preparam-se para semear mais erros e equívocos. Esquecidos de que a política é principalmente uma ciência, assumem o papel de actores dando a ilusão de serem autores.
O desempenho das suas técnicas de convencimento e organização põe algumas questões prévias. Uma delas é a do perfil que devem ter, ou seja, como eles deverão ser. Ora, uma escolha que dependa directamente do eleitorado tem de ter em conta a dinâmica dos grupos sociais e a psicologia das multidões. Desta sorte, o perfil dos candidatos tem de derivar-se da forma como pensam, como agem, e como podem ser controlados os grupos que assumem o carácter eleitoral.
A esta luz é de esperar que o nível da própria acção política tem a ver com a evolução cultural dos grupos em que ela se exerce. Reflecte, muitas vezes, o subconsciente daqueles que andam ao sabor das circunstâncias. De cara lavada à pressa, não passam de caricatura sociabilizadas, estandartizadas, entregues à confusão – quando não à inversão de valores.
Esta circularidade viciosa arrasta para a exacerbação do espírito de partido em vez de preparar o cidadão em termos de aquisição de conhecimentos sólidos. Ignoram-se valores em que se prognostiquem uma forma de espiritualização da realidade.
Desmantelada, desvitalizada ou desorientada a genuína acção cívica e pedagógica, o candidato encontra a sua reserva dinâmica nos instintos, sentimentos e tendências por vezes patológicos e contra-natura que parasitariamente minam o edifício social. Neste ambiente perdem-se de vista os largos horizontes e os objectivos maiores. E ao perder de vista esses horizontes o essencial confunde-se com o acidental. Abrem-se as portas do paraíso da infracultura e consente-se a progressiva insinuação de especialistas, habilidosos e artificiosos, em crescente estado de incompetência.
Por isso, o valor intelectual, espiritual e ético do candidato não pode ser ajuizado de modo absoluto e directo, mas em função das circunstâncias ou, como se diz, da situação.
Em todo este panorama dramático surgem, de vez em quando, elementos discordantes com vocação espiritual. Fazem perguntas - a que os chamados intelectuais não respondem claramente, objectivamente, descomprometidamente, oportunamente - e atrevem-se a dar imediatas respostas. Entendem que nada justifica o silêncio quando se assiste à exemplificação de defeitos e à exibição de vícios. São uns quantos “idealistas” que se erguem e dizem, redondamente, que a humanidade também deve progredir moralmente. Realizam os valores socialmente dominantes e manifestam as qualidades superiormente apreciadas. Neste aspecto, são inconformistas. Às vezes, a força da burocracia, os poderes centrais ou locais e cumplicidades diversas surgem então contra eles. Esperam, assim, neutralizá-los e garantir a conformidade, legítima ou ilegítima, aos seres apressadamente civilizados e passivamente conformados. Contudo, proliferam. Prosseguem. O que se passa é que, para eles, dizer a verdade é uma vocação que não se pode iludir – e que o poder dos Estados não consegue, apesar de todos os recursos, estancar.
Depois do que se disse, já se compreende melhor por que os rosacrucianos se aproximam da sociedade e das realidades práticas da vida. Surgem como o fermento de actos criadores exercitando-se no convívio humano alimentado pela simpatia e solidariedade.
Há momentos em que, sobre as grandes instituições e pensadores, pesa a obrigação de desafiar o verdadeiro senhor da nossa época: a pessoa mental e espiritualmente cristalizada, a que apenas se adapta a uma cultura assente no automatismo e em ideias expressas em liturgias consumíveis, em suma, à mecanização da vida social.
A missão do rosacruciano é, portanto, a de surgir como elemento reflexivo. Ele há-de impedir que as massas se entreguem cegamente ao apetite de ideólogos bisonhos, quer de forças económicas, quer de forças protegidas ou beneficiários de estatutos de privilégio, capazes de incapacitar os melhores elementos da sociedade – em sentido intelectual, espiritual e moral.
Onde reside a inultrapassável qualidade dos seus pontos de vista é na sua filosofia. Enquanto nas ciências naturais predomina a explicação da realidade de nível material, e as ciências do espírito se limitam a compreender, horizontalmente, as diversas manifestações, a filosofia rosacruz é vertical, no sentido em que se exerce sobre todos os níveis da realidade. Ela ajuda a compreender não apenas o mundo do que é, mas sim do que deve ser ou está sendo. Um mundo em que as coisas e o próprio homem se estruturam de molde a cumprir os valores essenciais do espírito.
F.M.C.
[ Índice ]