Editorial

Educar para a Vida

A educação é um desafio de primeira grandeza. Neste processo, a família e a sociedade não podem agir ignorando-se mutuamente. A família não pode assumir por si só a educação da criança. E a sociedade não pode responsabilizar-se pela educação dos valores e educação afectiva, que são partes integrantes do desenvolvimento infantil. Uma boa parte dos deveres de uns e outros é, muitas vezes, mínima em comparação com a influência dos meios audiovisuais: televisão, computador e telemóvel. Sãos estes meios que de algum modo dominam a esfera da educação.

Um inquérito recente mostra que as crianças portuguesas dos 3 aos 15 anos passam, por dia, umas 5 horas na companhia daqueles meios de comunicação. Em contrapartida, o tempo destinado à participação nas actividades do núcleo familiar é inferior a duas horas; e nas actividades físicas ou trabalhos de casa, menos de uma hora!1

Este assunto é, por consequência, um problema fundamental para a vida infantil se pensarmos que a informação obtida em tais meios, embora de qualidade, por muito discreta e clara que seja, expõe os assuntos de maneira genérica. Não desce, não pode descer, aos casos particulares e necessidades individuais que são conhecidos apenas das pessoas que tratam de perto com as crianças. Podem alimentar desvios produzidos pela má educação. Principalmente no que respeita à sexualidade. Neste campo, a inocência ou indiferença infantil pode ser enganadora. A criança esconde frequentemente a sua profunda curiosidade. É permanente o risco de a satisfazer com exibições de imagens “clandestinas”, a leitura de livros inadequados, a conversa torpe de colegas perversos, etc.

Sem cairmos nos exageros de psicanalistas que concentram a vida do adulto, e até da criança, à volta das suas pulsões sexuais, é verdade que ela não é, do ponto de vista sexual, uma entidade morta. Essas forças já existem, embora adormecidas. Seria imprudente esquecer esta realidade. Para educar para a vida é forçoso conhecer este problema com muita atenção e sem o facilitar.

Vêm estas reflexões a propósito da educação sexual no primeiro ano escolar, de que hoje tanto se fala2.

É que este assunto não pode ser visto apenas do ponto de vista da anatomia e da fisiologia. E também não permite que a moral seja posta ao largo das lições que apenas se destinam a acautelar contra males e incidentes que podem atingir a saúde física.

Não há dúvida que a solução muito em voga entre os pais e educadores, por escrúpulo ou por desconhecimento, cómoda e simplista, da não educação em matéria sexual, pode constituir um erro crasso e conduzir ao ensino “clandestino”.

Mas se a aprendizagem “clandestina” pode ser profundamente corrosiva e imoral, o ensino colectivo tem igualmente os seus perigos. O que é colectivo é sentido mais vivamente pela criança, à semelhança de um ruído numa caixa de ressonância. O ensino aberto e directo pode servir, se mal orientado, para incentivar uma actividade sexual prematura – embora normal do ponto de vista amoral. E não evita sequer práticas anómalas, incluindo as perversões, se houver no aluno pendor para elas, pois nada impedirá à sua aprendizagem marginal.

Deste modo, vai-se cair nos males que se pretendem evitar, com a agravante de que o próprio tom sério da referida instrução confere, empresta licitude e dignidade, à experiência sensual.

Então, como proceder? Como agir?

Tal resposta pertence aos domínios da pedagogia. Mas não deixa de ser oportuno referir duas espécies de meios, assinalados por Max Heindel.

Há meios indirectos: hábitos sociais e de disciplina em convívio activo com pais e educadores, para defender a criança da malícia de companheiros e ocupar o melhor possível o tempo. As histórias ilustradas, com estruturação adequada, vocabulário e linguagem acessíveis à compreensão da criança, síntese harmoniosa e ensinamentos honestos –, são elementos formativos da personalidade infantil. É preciso ter em conta, ainda, que uma história narrada por uma pessoa com forte poder dramatizador é preferível à história lida, em livros, pela própria criança.

E há também meios directos, com ensino individual, de modo progressivo e casto, da moral sexual. Discreto. Sem cruezas de cortador. E sumário. E que a maneira como se ensina é, muitas vezes, mais persuasiva que o próprio ensino. É esta a via mais delicada, porque há que lutar contra factores adversos, como seja a própria dificuldade de expor o problema.

E como ensinar é também ajudar a disciplinar, pode dizer-se que na base do ensino deve estar a estruturação de uma sólida disciplina. Há que desenvolver, portanto, desde cedo, uma disciplina definida e firme, constante, compreensível, amorável, que permita uma educação progressiva do autodomínio da vontade, dos sentimentos e das emoções, sempre com a preocupação constante com a consciência da criança. É indispensável que essa consciência desperte e fale, sempre, no seu íntimo e a tempo, de modo preventivo e avisador, nos seus momentos de dúvida, de fraqueza, de crise.

F.M.C.

 

1 Realizado em 2009 pela empresa “Zero a Oito” junto de 936 crianças e 803 pais, com recurso a inquéritos, conversas, redacções e desenhos.
2 Lei nº 60/2009, de 6 de Agosto, e Portaria nº 196-A/2010, de 9 de Abril.




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