Editorial

Valores Sociais e Dependências Individuais

A personalidade colectiva do aglomerado português resulta de uma gigantesca fervura étnica e cultural com longa história. A própria formação do país deriva deste processo. A situação geográfica, com o litoral aberto em larga extensão, torna o nosso espaço geográfico uma natural ponte de passagem entre o norte europeu e as regiões mediterrânicas. Facilita o convívio, às vezes forçado, entre diferentes culturas. Algumas seguiram as rotas marítimas dos Cruzados das Cristandades Nórdicas, ou chegaram por terra atravessando a cordilheira pirenaica. Outras foram trazidas pelo vento “suão”, a brisa do levante que sopra no Mediterrâneo. Todas se espalharam à procura das terras férteis deste lado da península.

A experiência foi enriquecedora pela troca de saberes entre mundos diferentes. Houve, porém, acima de tudo, como fermento invencível e dinamizador, a tenacidade lusitana. Nunca perdeu a sua forte individualidade, mesmo quando a civilização peninsular se tornou romana “da cabeça aos pés”. Os novos senhores encontraram um núcleo irredutível de crenças, costumes e instituições que são enquadrados, mas nunca suprimidos. E esta persistência de caracteres firmes resiste às sucessivas idades e metamorfoses.

A sociedade actual caracteriza-se igualmente por intensos fluxos migratórios externos. No actual ciclo de crise económico-social, com parêntesis colocados em torno de alguns valores que argamassavam as morais sociais, afigura-se conveniente reunir energias reorganizativas capazes de subtrair os migrantes às vicissitudes sociais. Ou seja, importa que se evite a formação de grupos fechados sobre si mesmos e avessos às tradições e costumes, colocando-se abaixo do nível desejável de assimilação civilizacional.

É verosímil admitir que os derivativos da falta de esperança que resulta da dificuldade em assimilar-se aos modelos culturais predominantes – a droga, imoralidade e insegurança – podem ocultar um fenómeno grave e de consequências imprevisíveis. Se por um lado estas pessoas se revertem a uma acomodação inerte, por outro podem despertar motivações que inspiram a delinquência e violência. É, afinal, o ser humano que vive nessas condições que se converte mais facilmente em marginal, criminoso do delito comum, doente psíquico ou tarado. Poderíamos ir desfiando imensas considerações deste género. Mas o importante aqui é pôr a claro que indivíduos assim instalados na dependência tornam-se facilmente vulneráveis às estratégias de influências estranhas, ou à acção das militâncias religiosas que actuam mais no plano das relações sociais do que das relações com a divindade.

Uma reflexão sobre os riscos de tal modo de vida põe a questão de saber como se podem levar a cabo os objectivos cardeais do nosso tempo, inscritos em todas as agendas políticas, desde a abolição das tensões sociais ao acréscimo da instrução – e onde podemos incluir uma reflexão que possa esclarecer os contornos do progresso espiritual.

É fácil reconhecer que as raízes do problema não se situam unicamente no aspecto material e das carências, mas também em factores de ordem cultural que permitam a coexistência de diversas tradições culturais e espirituais.

Quer isto dizer que no mundo técnico-económico não podem estar ausentes as ideias e os valores. O progresso está ligado à permanente humanização do mundo natural e ao sucessivo aprofundamento do próprio mundo humano. Há, portanto, uma ordem de alterações que tem de ser cumprida, orientando as pessoas e as coisas no sentido transformador do progresso.

Enquanto uns preferem avaliar o êxito dos projectos em curso com estatísticas de trabalhos e estudos, caracterizados por enorme acuidade de consciência mas acompanhados de uma notória incapacidade para alterar a marcha implacável dos acontecimentos, entendemos que se devem procurar os verdadeiros resultados longe desses faladores, nos factos e sintomas quotidianos.

A este nível encontram-se revelações quase alarmantes que podem ajudar a acordar a espécie humana para realidades trans-políticas. Põem em evidência uma fenomenologia determinativa que liga entre si complexos de causas só dificilmente visíveis a olho nu. E ao revelar as dependências em que se encontra a vida em sociedade, a ideologia e a ética, ajudam a prever, em boa parte, os caminhos que se oferecem à humanidade e as respectivas alternativas. Propostas assim fundamentadas ultrapassam os bons e os maus, as ideologias certas e erradas e até as razões meramente técnicas e exteriores ao homem. Situam-se no cerne do problema humano: o sujeito natural e social que é o próprio homem, as leis da evolução universal, a origem e o destino do mundo.

Dito isto, compreende-se que não há inserção na sociedade e no progresso global que se pretende alcançar, no seu amplo sentido mais geral, sem uma iniciação nos valores estruturantes da sociedade que se tenha imposto socialmente e venha agindo junto de todos – incluindo as minorias sociais.

F.M.C.




[ Índice ]