Editorial

A Opinião Pública,

A Evolução e o Progresso

Uma reflexão sobre os malefícios e as funestas consequências da inércia que parece dominar os sentimentos e a vontade do homem contemporâneo – as guerras, os sofrimentos, a tortura ou a insídia, sempre associadas à injustiça social, à sumptuosidade contrastante com a miséria – leva, inevitavelmente, a que nos interroguemos como é possível o homem social ter vindo a aceitar tudo isto regressando sempre às mesmas servidões. As multidões, indo atrás de teorizadores dotados de invertebrada plasticidade e capazes de representar figurinos aceitáveis, satisfazem-se com o facto quase transcendente de lhes ser permitido sobreviver, conformando-se com o destino traçado pelos condutores da opinião pública.

Este aparente absurdo oculta uma insofismável realidade: a de que, à semelhança da matéria, também a evolução tem as suas próprias leis. É evidente que o homem, na sua condição de ser espiritual, não é uma realidade passiva neste processo: reage ao impulso evolutivo participando na evolução e, em certa medida, orientando-a. É nesta reacção que se assume como ser auto-consciente e interveniente no curso natural das coisas, das quais não pode ele próprio desligar-se.

Mas, à força do uso abusivo da ideia filosófica de “evolução”, há quem se afaste muitas vezes da realidade. Os que o fazem acabam por confundir “evolução” com progresso. Por influência das Ciências Naturais, em cujo âmbito uma dessas ideias implica a outra, a vida é encarada como uma série de fenómenos que ascendem do simples e rudimentar ao complexo e desenvolvido, do imperfeito ao perfeito, etc., acabando por se confundir estes dois conceitos em domínios em que eles não são, de forma alguma, equivalentes1. Aceitável quando se refere às conquistas materiais e, mesmo, nas relações sociais, a ideia de evolução é, todavia, de arriscado uso quando aplicada às coisas do espírito.

Se nos fosse pedida uma definição de “evolução” e de “progresso” poderíamos dizer, sem grave prejuízo da essência, que a evolução é o “processo transformador, contínuo, em espiral, que rege os diversos planos em que a vida se manifesta, do inorgânico ao humano”2. Quanto ao progresso, é apenas “um segmento da espiral da evolução”; concretamente, o troço da espiral em que o espírito humano manifesta a acção crítica e criadora da razão numa busca da verdade, incessante, insatisfeita, atenta, lançada para todos os pontos cardeais da existência, da vida e do pensamento.

Ora, no “progresso” há duas fases ou naturezas distintas: uma de harmonização à evolução, outra de oposição com esta. O carácter contraditório do progresso reside, precisamente, neste duplo aspecto que se relaciona com as duas formas de conhecimento: a de razão e a de opinião. O progresso será ainda, por outras palavras, uma fase da evolução em que a pessoa se torna auto-orientadora da sua própria evolução, tanto num sentido positivo como negativo.

O conhecimento racional, que é cultivado por uma minoria, tornou-se um bem assaz escasso quando comparado com a opinião. É ele que permite criar formas, ideias e valores, criticar a realidade e tornar o homem protagonista da sua existência3. Dele resulta tudo o que de original se deve ao ser humano e lhe permite dizer “eu sei”.

O conhecimento opinioso – se de conhecimento se pode falar – advém, pelo contrário, de sugestões, inclinações, simpatias, crenças, constituindo uma ilusão sobre o mundo interior ou exterior do homem.

O conhecimento dominante ou generalizado é de natureza opiniosa e tem o nome corrente de “opinião pública”. É por meio da opinião pública que se criam modas e se aceitam ou rejeitam demagogos, caudilhos e todos os teóricos que dela fazem depender o seu estatuto pessoal a fim de exercer a sua acção e colher benefícios, reais ou aparentes, da sua ascendência social.

Os meios de comunicação social, tanto os antigos (rádio, imprensa escrita, televisão) como os novos (internet e outras tecnologias de informação), são em larga medida veículos do conhecimento opinioso em que se mistura o autor com o anónimo ou pseudónimo, a comunicação com a informação, a informação com informática e se subverte a notícia, a reportagem, o documentário, etc. Tudo isto numa liberdade incontrolável que se admite poder desencadear o enfraquecimento, senão mesmo o desaparecimento, do discernimento intelectual e moral.

Deste modo nos viemos aproximando de uma tentativa de resposta à pergunta inicial. Parece-nos, pela sequência dos raciocínios expostos, que é pela carência de sentido crítico que o destino do cidadão comum – homem mediano da nossa civilização técnica, que prolifera nas urbes e anda sempre de nariz no ar em busca de sugestão, que vive a vida dos outros e anda ao sabor das circunstâncias – pode estar cada vez mais entregue a perigosos leviatãs. O cidadão comum torna-se um imitador, emula valores, finge qualidades, desempenha comportamentos alheios. Não sabe nem compreende: acredita em qualquer coisa sem dispor de elementos de conhecimento suficientes, apenas porque quer ou porque a considera reconfortante e agradável.

Estamos agora também em condições de compreender por que motivo a crise hodierna é, no fundo, uma crise de equilíbrio entre o ser humano e o progresso. Enquanto este avança, o homem não só não melhora nem se aperfeiçoa como até pelo contrário, sob certos aspectos, recua. Parece evidente que esta evolução contraditória se manifesta no progresso da ciência à medida que decai a cultura moral4.

Mas a cultura moral não pode conseguir-se sem a indispensável formação de um carácter forte, homogéneo e coeso, para não se cair no conformismo resignado e sem nada compreender, imposto pela aptidão retórica que “fica no ouvido” com a mesma facilidade de algumas obras dos criadores musicais da moda. Para consolidar essa cultura moral, forçoso é que nos disciplinemos a nós mesmos nos três planos que a vida nos oferece: o físico, o moral e o espiritual. O ser humano forma um todo e a negligência de um destes componentes traz prejuízo ao conjunto.

E é neste ponto que devemos intervir. Compete-nos promover o esclarecimento dos objectivos da vida e ajudar cada um a libertar-se de todas as sujeições, sofismas e ardilosas filosofias. Eis o que é preciso conseguir para evitar o enfraquecimento, senão mesmo a perda, do discernimento intelectual e moral.

A este respeito, merece ser recordada a palavra elucidativa de Goethe, citada por Max Heindel no Conceito Rosacruz do Cosmo: “O homem liberta-se de todos os poderes que encadeiam o mundo, quando adquire o domínio de si próprio”.

F. M. C.

 

1 Max Heindel; Conceito Rosacruz do Cosmo, 4ª ed. F.R.P., pp 48-149, 218.
2 A famosa concha do náutilo, um molusco que vive a várias centenas de metros de profundidade e suporta muito bem as pressões, dá-nos uma ideia da construção geométrica da espiral. Os tornados, o ADN e as próprias galáxias têm “braços” que se estendem em gigantescas espirais deste género.
3 Id., Ob. Cit. p. 119.
4 Já G. Le Bon o referia na sua Psychologie Politique, Paris, 1912.




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