JARDIM INFANTIL

A Futura Educação da Criança

(continuação)

É frequente ouvir-se entre a juventude: "Afinal, os meus pais fartaram-se de me intrujar!" Esta confissão, sendo verdadeira, devemos confessá-lo com tristeza, revela, além de irreverência, a falta de amor e confiança. Este estado de ânimo da nossa mocidade é o fruto da atitude dos pais que, reservados em certos aspectos, noutros se mostraram faltos de lhaneza e de sinceridade para com seus filhos. A excessiva familiaridade e a permissão para que os seus filhos os tratem por "tu", leva-os a considerarem-se "companheiros", e são a causa da irreverência e pouco respeito que a juventude tem pelos seus progenitores, e contribui para a má formação moral que se nota.

A ansiedade é uma manifestação depressiva muito característica da nossa época, motivada pela pressa, pelo movimento, pela vida célere e febricitante e pela ambição da conquista dos bens enganosos da Terra. Mas, o organismo não resiste a esse andamento que o homem se impôs a si mesmo e que o domina. Não admira, pois, que as estatísticas nos informem de que são as doenças cardíacas a primeira causa da mortalidade humana. Por essa e outras razões, a criança e nós mesmos devemos cultivar e manter a perfeita serenidade em todas as circunstâncias da vida. A ansiedade provoca um constante desgaste de energias físicas, psíquicas e mentais, roubando-nos a resistência vital necessária para trabalhos persistentes e elevados. As lições que a criança receberá visarão o seu desapego pelas coisas terrenas, a confiança tranquila no dia de amanhã e a compreensão de que tudo quanto sucede traz o cunho da evolução. Far-lhe-emos ver que tudo acabará bem, e que, por isso, o Homem sairá sempre beneficiado mesmo dos acontecimentos aparentemente mais adversos. Importa, para reflectir essa atitude mental, que ela se apercebe, ainda que vagamente, de que Deus reside em nós e em toda a parte.

Da ansiedade nasce o medo, que por sua vez é a causa de todo o cortejo de sentimentos negativos.

O medo e a ansiedade constituem a principal ruína do Homem. Inibe-nos de adquirir experiências e obter conhecimento.

Uma criança que tenha medo de tudo (da trovoada, da escuridão, etc.) torna-se fraca, debilita os seus corpos subtis, poluindo-os com impurezas e miasmas elementais, e expõe-se ao assédio de entidades maléficas do mundo invisível. Além disso, foge de contemplar o fenómeno grandioso da faísca eléctrica na atmosfera, de aperfeiçoar a visão no escuro, etc.

É inútil e desarrazoado o medo do trovão ou seja de que for, porque não atenua ou afasta o longínquo perigo que possa conter. Provoca antes o retraimento, rouba-lhe a audácia e a afoiteza, e sobretudo a segurança de si mesma. Deixa de ser uma Vontade Forte para conquistar a sua natureza inferior e transforma-se num verdadeiro caído à mercê dos acontecimentos que actuam de fora.

Condenável é, portanto, a atitude dos pais e familiares que, para se fazerem obedecer pelas crianças, procuram incutir-lhes o sentimento do medo e do temor, ameaçando-as com o quarto escuro, ou com a intervenção de seres horríveis ou maus, castigadores ou até mesmo invocando a intercessão de Deus como severíssimo juiz. Porque se há-de temer Deus? Acaso ele nos castigará pelas faltas cometidas?

Em certo estado da evolução humana, o Espírito Santo viu a necessidade de estabelecer as religiões de raça, baseadas na lei, cuja desobediência implicava o castigo, a reparação. Estas religiões passaram por várias fases, mas em todas elas o Homem viveu dominado pelo medo do castigo do Deus justiceiro.

A natureza da reparação variava de harmonia com o desenvolvimento mental e espiritual do Homem. Cristo e outros Instrutores vieram ensinar-nos a grande Lei da Consequência (ou da Causa e Efeito), libertando-nos do primitivo conceito de um deus julgador da Humanidade. Se a bondade de um Adepto pertencente à Grande Hierarquia Oculta o interdita de julgar, recriminar, até mesmo de censurar o mais ínfimo e pecaminoso dos homens, a Suprema Bondade de Deus, que é infinitamente mais elevada, não pode sentenciar-nos à maneira de um juiz terreno. A Sua justiça, que tem sempre o sentido do aperfeiçoamento, é expressa através da Lei da Consequência, e regulada pelos Senhores do Destino.

Por isso a alma humana se está elevando acima de toda a ideia de recompensa neste e noutro mundo, convertendo-se ela mesma numa lei. Porque amar a Deus e guardar a Lei, "para que nos livre do Inferno e nos dê o Céu, ou nos premeie com favores temporais", é amar egoisticamente. Não tem valor algum para o nosso crescimento anímico.

A nossa consciência, o conhecimento da lei, e o desejo sincero do aperfeiçoamento espiritual são, na realidade, os verdadeiros factores que orientam a nossa conduta. O único e supremo objectivo será o do Serviço, isto é, o de ajudar a Humanidade a progredir na Senda Evolutiva.

Por consequência, devemos ensinar às crianças e adultos a agir exclusivamente por amor a Deus e a todos os Seres que ele criou, sem qualquer ideia de recompensa pelo bem praticado, porque ela virá sem que a esperemos. Quanto menos nos apetecer o fruto do nosso trabalho, mais frutuoso se tornará o mundo espiritual. Na verdade, é o desejo o factor primário que nos prende aos planos inferiores e nos faz viver no Mundo Físico.

Os mandamentos da Lei de Moisés ainda hoje constituem o substractum do código moral das nossas sociedades ditas civilizadas, mas devem ser levados mais longe do que ordinariamente se pratica.

Consideremos, para exemplo, o preceito não matarás.

A generalidade das pessoas entende que obedece a esta prescrição evitando derramar sangue humano. Porém, a prescrição tem um sentido muito mais amplo, que se pretende ignorar.

Se os animais são expressões de ondas de vida que nos precedem, e aos quais temos o dever de auxiliar na sua evolução, naturalmente que não é "matando-os", interrompendo-lhes o curso da vida, que os ajudaremos a progredir, a individualizarem-se.

Ainda assim mesmo, estes preceitos são hoje considerados insuficientes para o progresso espiritual que se exigirá da criança e de todo o homem do novo ciclo que se avizinha. Há que procurar já despertar nela outras qualidades capitais.

O preceito cristão "amar a Deus sobre todas as criaturas, e ao próximo como a nós mesmos", suscita-nos profundas reflexões.

Quem é o nosso próximo? São apenas os seres humanos? O preceito há-de interpretar-se esotericamente, em sentido geral.

(Continua)

A. S. G.




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