JARDIM INFANTIL
Educar para a Cidadania
Recordam-se de Sherazade? É a intrigante personagem de "As Mil e Uma Noites". Conta histórias sem fim para escapar à sentença de morte. Em cada momento crucial interrompe a narrativa e, assim, garante mais um dia de vida. O que se vê nestes contos é o poder da narrativa sobre o leitor ou ouvinte, em especial crianças, capaz de lhes dominar ou apaziguar os ímpetos. Tem, ainda, o poder de desencadear na criança o envolvimento emocional, levando-a a viver o jogo ficcional que se desenvolve no enredo da história. A sua narrativa tem uma estrutura que, de algum modo, alimenta as expectativas infantis ou, por outras palavras, dizem "alguma coisa", mostrando um sentido que a vida pode ter.
É o que acontece com a maior parte das personagens das nossas histórias tradicionais. Elas podem, de facto, emprestar ao ouvinte a sua grandeza e os seus limites, os seus conceitos morais e espirituais, ao vislumbrar formas de ver e viver o mundo que a criança, na sua idade, nunca daria conta sozinha.
Vem isto a propósito de uma série televisiva de desenhos animados de origem japonesa que se transformou numa das maiores atracções da criançada: Pokémon.
A História do "Pokémon"
O nome "Pokémon" deriva de Pocket Monster – Monstros de Bolso! São pequenos monstros que povoam o jogo e que surgem quando menos se espera. São procurados com várias finalidades: para os capturar coleccionar ou fazer lutar entre si.
O "Pokémon" tem origem num simples jogo de vídeo, o que explica a incrível monotonia desta série de desenhos animados que se limita a reproduzir as cenas de luta que caracterizam o antigo jogo electrónico.
A descaracterização das personagens é uma das notas dominantes. Todos têm olhos grandes e feições idênticas, sendo difícil diferenciá-los entre si. Mas, pior do que isso, são as frequentes explosões emocionais que induzem nas crianças um comportamento impróprio. Além disso, todas as reacções das personagens do "Pokémon" são pautadas nas regras de conduta da religião xintoísta. O xinto popular é a forma de religiosidade que constitui o estrato mais profundo da espiritualidade japonesa. Nela se enxertam outras formas religiosas, como o budismo e outras tradições. Entre os seus ideais mais elevados podemos citar o autodomínio, o desprezo pela morte e a fidelidade à nação.
O xinto insiste mais na prática do rito do que na afirmação de pertencer à comunidade. É certo que o xinto apela para uma fé pessoal – mas são os ritos que formam o estilo mais característico da vida japonesa. Tais ritos servem para comemorar qualquer coisa: a vida da pessoa, da comunidade, da nação e podem ser realizados em qualquer parte: em casa ou no templo.
Nos episódios da série há traços que se repetem e que são o reflexo da ética xintoista, como o repúdio pela vergonha e pela desonra – consideradas a origem da desarmonia social – e que levam os heróis da série a procurar vencer por vencer, através de actos rituais, mas sem que a vitória assinale, implícita ou explicitamente, qualquer objectivo de natureza elevada. Os seus actos não representam sequer um meio para alcançar um fim; não passam de acções inspiradas pelos antepassados ou condicionadas pela natureza. Nas histórias do "Pokémon", o que é preciso é vencer, ainda que isso represente um sacrifício pessoal destituído de qualquer sentido.
Ashi é um dos protagonistas. Faz lembrar o velho mito dos samurais, antigos guerreiros japoneses, onde remotamente se inspira. Misty, a sua companheira, salienta-se pela teimosia, obstinação e por retorquir constantemente a Ashi. Outra figura de relevo é Brock. A sua atracção incontrolada pelo sexo oposto é causa frequente de problemas, para si e para o grupo.
É este, em resumo, o retrato do temperamento das personagens de Pokémon: violentos, sexualmente incontrolados, irónicos, obstinados, etc.
Poderes Sobrenaturais
Os "Pokémons" têm poderes singulares. Usam-nos para agredir. Uns, como Haunter, são capazes de alimentar os sonhos das suas próprias vítimas, causando-lhes uma verdadeira obsessão pelo domínio mental. Outros projectam energias para dominar os adversários. E aqui os vemos com outra característica, e esta pérfida: a ânsia de domínio dos outros pelo uso de poderes "mágicos", prática incompatível com a tradição ocidental dos Cavaleiros Andantes, uma classe especial dos Cavaleiros, o terror dos dragões e dos gigantes, que percorriam a Europa chamando a si a defesa dos fracos e oprimidos. O que era comum a estes gentis cavaleiros, contrariamente ao que nos pintam os romances de aventuras, era a procura de um ideal comum, o da "cavalaria celestial" e por ele se consagravam ao "Santo Graal". A busca do Graal é uma experiência difícil, como nos diz Max Heindel no belíssimo estudo deste mito 1 Parsifal é o perfeito exemplo de que o poder, seja ele espiritual ou o que resulta de um cargo que se detém, não deve ser usado para ferir. Por isso, a lança da história de Parsifal, em que a luta se faz no plano interno, no íntimo de cada um, simboliza os poderes do espírito e da mente que nunca devem ser usados para ferir. Parsifal só conseguiu vencer o temível Cavaleiro Vermelho. depois de o Rei Artur o sagrar cavaleiro, por se revestir da pureza que caracteriza a alma nobre 2 .
Valor das Histórias Infantis
A consciência cristã típica tem sido treinada por histórias como a de Parsifal ao longo dos séculos para almejar nada menos que a perfeição, para levar uma vida sem manchas, uma vida perfeita. Foi com a ajuda de histórias como esta que a antiga lei de Talião, "olho por olho, dente por dente" 3 , aplicada como princípio de justa compensação pelo prejuízo causado, dá lugar a outra, bem mais difícil: amarás o teu próximo..." 4 .
Para ajuizar o carácter único desta mensagem, estudemos primeiro o preceito "não resistais ao mal, mas se qualquer te bater na face direita, oferece também a outra" 5 , contrário à ânsia de Ashi pelas vitórias sucessivas.
Este passo bíblico é de tradução difícil, já que se pode referir a "um malvado" ou ao "mal". Ora, como se pode entender este texto sabendo que Jesus resistiu sempre "ao demónio", denunciou os fariseus 6 e reagiu quando foi agredido? 7
Esta norma aponta numa direcção que nos faz ultrapassar a lei de Talião e marca o progresso sobre a reacção emocional, impensada e expontânea ao mal sofrido, que é sempre exagerado. Faz-nos romper a cadeia fatal de acções e reacções, a lei de causa e efeito, de que a humanidade oferece tantos exemplos, desde as querelas domésticas aos conflito entre nações. A direcção apontada por este versículo faz com que nos empenhemos em "vencer o mal com o bem", como diz Paulo 8 , já que "ninguém pode viver só para si" 9 explicitando o princípio deste progresso.
Educar para a Cidadania
Distantes parecem os tempos em que as histórias tradicionais transmitiam valores que não têm preço, tão importantes no mundo actual em que a ausência de referências interiores se relacionam com muitas patologias sociais que testemunhamos – como o aliciamento de jovens para a droga e os índices alarmante de violência crescente em todo o país.
Os contos infantis da tradição ocidental têm uma função pedagógica importante: ajudam a construir a cidadania, já que promovem o cultivo dos valores que são o sustentáculo do comprometimento com princípios como o respeito ao próximo, a não-violência, a justiça, etc. Educar para a cidadania significa enfrentar o mal pela raiz, exige o aprofundamento das causa que geram a violação dos direitos humanos, que tem tido nos jovens, nas mulheres e nos idosos, as suas maiores vítimas. E tudo isto não se consegue unicamente do ponto de vista académico, mas deve ser compreendido como um processo integral de transformação de valores ético e de atitudes. E para conseguir este objectivo, de sensibilizar e motivar para a importância do ensino da ética e dos valores universais, e promover questões éticas básicas relativas à condição humana, que possibilitem a construção de uma sociedade baseada em princípios de convivência e de aprendizado constante, é preciso que a programação televisiva dedicada às crianças, ou a disciplina doméstica, seja rapidamente tida em conta.
F. C.
Notas
1 Max Heindel, Mistérios das Grandes Óperas, Fraternidade Rosacruz de Portugal, Lxª, 1997, p. 56-72.
2 A história de Parsifal e da busca do Santo Graal, o cálice usado na Última Ceia, nasce na Idade Média c relaciona-se com o lendário Rei Artur e a sua Távola Redonda. A narrativa mais antiga é a francesa, de Chrétien de Troyes. Há outras versões que surgiram quase simultaneamente na Alemanha, Inglaterra e noutros países europeus. Ricardo Wagner usou a versão alemã de Wolfram de Eschembach para o libreto da ópera Parsifal.
3 Êx. 21, 24; Deut 19, 21; Lv 24, 20. Mesmo na sua formulação brutal, há um princípio de justiça neste preceito nem sempre avaliado correctamente: o olho de um pobre vale tanto como o de um rico. Esta lei já era referida no Código de Hamurábi (196, 55) e na Lei das doze Tábuas (tábua VII).
4 Mat 5, 43. O Talmude ignora o preceito de amar os inimigos, ainda que não preceitue a agressão dos mesmos. Em Rom 12, 20, Paulo refere Prov 25, 22 para mostrar como devíamos agir bondosamente. Jesus também ensinou a orar pelos inimigos. O nosso "próximo" é, em geral, o que está perto de nós e, quase sempre, representa uma fonte de atrito. Os judeus consideravam os membros da sua tribo e respectivas família como os "seus próximos", mas agastavam-se com os samaritanos. Ora, na parábola do Bom Samaritano, fomos ensinados a agir para com o próximo independentemente dos laços de familiaridade e simpatia.
5 Mat 5, 39
6 Mt 23
7 Jo 18, 22-23
8 Rom 12, 21
9 Rom 14, 7, citado por Max Heindel, Ensinamentos de um Iniciado, Fraternidade Rosacruz de Portugal, Lxª 2001, p. 64.
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