Educação Infantil
A Futura Educação da Criança
(Continuação)
Cristo afana-se ansiosamente por que alcancemos o estado espiritual que nos liberte das sórdidas condições terrestres. Quanto mais retardarmos a evolução, mais dificultamos o trabalho do Nosso Salvador, mais Ele sofrerá por nossa culpa! No número de causas que mais dificultam o processo da evolução, aparecem-nos em primeiro lugar a descrença, a falta de fé, o materialismo, e vício, a mentira. Quase sempre a descrença provém de uma longínqua imposição de fé em coisas ou ideais que o intelecto não compreende e a lógica reprova.
O Homem obteve o pensamento através de uma longa evolução cheia de sofrimentos de toda a ordem, ajudado pelos anjos e arcanjos de Jávé e pelos espíritos de Lúcifer, procedentes de Marte. Essa aquisição trouxe-lhe a perda da visão interna dos mundos espirituais – perda de que ainda hoje se ressente. Com a construção do cérebro e da laringe teve de renunciar a uma parte de si próprio, mas a elaboração do pensamento deu-lhe o inestimável dom da consciência, primeiramente do mundo exterior (do "não-eu"), para na última etapa da ascensão conquistar a perfeita consciência de si mesmo (do "Eu").
Uma das grandes leis que governa a ideia ou sucessão de ideias é o pensamento lógico, o raciocínio. É a lógica que deve orientar-se sempre na aceitação ou rejeição do conhecimento, teoria ou hipótese, especialmente quando não pode ser experimentalmente demonstrável. Estão neste caso as ideias religiosas e espirituais, que, por virtude da sua natureza subtil, não podem submeter-se aos tratos da verificação e experimentação vulgar. Por consequência, somente o pensamento lógico nos fornece os meios de nos orientarmos no vastíssimo e emaranhado campo de especulação dos mundos suprafísicos. Por isso, para que a criança, cuja inteligência ainda não despertou do sono que a acompanha ao entrar neste mundo, possa assimilar com proveito certos valores da vida, sobretudo os de carácter estético, moral e religioso, importa que se lhe faça compreender nitidamente a sua posição e papel na terra, explicando-lhe em conceitos muito simples as grandes leis da Consequência e do Renascimento, pois só estas enunciam razões satisfatórias das tremendas desigualdades sociais que nos cercam.
A fé sem o conhecimento não produz grandes frutos: a criança deverá inspirar-se em conceitos que se apresentem ao seu raciocínio embrionário como intuitivamente compreensíveis. Devemos, pois, esforçar-nos por que compreenda antes que lhe peçamos que acredite, porque só assim a fé constituirá nela um factor activo na sua vida de relação. O preceito cristão "a fé sem obras é estéril" é de todos conhecido, mas poucos o cumprem porque não "vive" no coração do Homem. Importa que a criança realize a fé, isto é, a transforme num factor normativo de vida.
Para que a criança seja pura, necessário é que a dotemos com certas qualidades que nos façam estimados de amigos e inimigos, de crentes e descrentes, de partidários e de contrários. Já vimos quais são essas virtudes, sobressaindo de entre elas a compreensão e a tolerância, que têm a coroá-las o verdadeiro amor do próximo.
Devemos deixar a criança entregue a si própria, em liberdade de crença; todavia há que respeitar-lhe as suas tendências, sempre que não se desvie do pensamento recto e da acção justa, pois elas constituem o substractum do Ego, adquirido por via de uma longa e laboriosa evolução.
Estas tendências, que a princípio revestem o carácter instintivo, vão-se tornando mais ou menos voluntárias à medida que ela toma posse do seu veículo mental. Na idade adulta tenta intelectualizar e espiritualizar essas tendências inatas, e outras adquiridas, e desta maneira se constrói a sua personalidade ou "eu inferior". Aquelas caracterizam o "indivíduo", e estas formam a "pessoa". De todas as tendências que maior influência exercem no indivíduo e mais concorrem para a formação da personalidade moral são a virtude, o amor, a amizade, a caridade e a fé. Estas tendências ideais parece que não são ainda sentidas pela criança. Todavia, se as observarmos atentamente, depressa descobriremos nelas, desde muito cedo, o seu despontar. E tanto mais cedo quanto mais adiantado se encontrar o ego. É nesta fase que importa usar do maior tacto ao despertar nela as mais elevadas tendências que traz em germe ao nascer, contidas no átomo-semente do seu futuro corpo de desejos, sobretudo no que se refere à vida espiritual, à crença.
Resumindo, diremos que para se cultivar a pureza da fé devemos assentá-la em conceitos lógicos para que possa ser firme e vivida. Mesmo assim, não convém impô-la cegamente à credulidade infantil como um estigma.
De outro modo, cortar-lhe-emos a liberdade de escolha. Na infância, as imagens, impressas no corpo vital, são difíceis de apagar ou neutralizar, pois vão constituir mais tarde o "fundo" do seu subconsciente. Não possuindo ainda o espírito crítico, o discernimento, nem a autodirecção, faculdades essenciais para bem se orientar na vida, não pode defender-se do que se lhe deseja impor, mesmo que a ideia ou imagem contrarie abertamente as suas tendências. Daqui se segue que o conhecimento das tendências na criança é de capital importância para a sua educação, além de facilitar a tarefa dos pais ou dos educadores. Só a astrologia nos dá esse conhecimento através do tema natal.
A pureza da fé implica ainda a assimilação da verdadeira Doutrina cristã, que, quando bem compreendida, é activa, orienta a nossa conduta e disciplina os sentidos. É, pois, normativa.
Aquele que caminha à luz muito pura do Espírito de Cristo não pode perder-se nem afastar-se da Senda: caminha de harmonia com a Lei e vence o Destino.
As tendências – Já abordámos a questão das tendências na criança e salientámos a importância que o seu conhecimento importava na orientação de uma conscienciosa e científica educação. Por isso, parece-nos útil que nos demoremos um pouco na análise do seu valor e reflexos no «comportamento» psíquico e moral da criança. Não falaremos da natureza e formação das tendências, porque o assunto é demasiado complexo, e afastar-nos-ia do nosso fim imediato, além de que a «nossa» doutrina estaria em oposição com a que é oficialmente aceite pelos psicólogos modernos.
A psicologia clássica, de preocupação ontológica e normativa, e até mesmo a psicologia "de laboratório", admitia apenas a existência de uma forma de pensamento, a do adulto normal e civilizado. Ignorava a influência do meio, da sociedade, dos factores psicossomáticos e mesmo patológicos dos indivíduos na "formação" da consciência. "O homem é um ser eminentemente social", diz-se hoje. Por outro lado, Charles Blondel considerou, e com ele a patologia mental, a consciência mórbida como uma realidade original que não pode ser reconstituída a partir da consciência normal. Nesta tese se apoia a noção de "mentalidade infantil" de Piaget.
Na verdade, a investigação contemporânea reconheceu a realidade de diversas formas de pensamento, ainda que as leis ou funções se conservem as mesmas, pois são o produto da manifestação material do Ego; e as psicologias de estrutura e do comportamento captaram e esclareceram a natureza das reacções do complexo humano com o meio nas diferentes fases da evolução individual e social. Abandonou-se o conceito abstracto e artificial que via na criança um "homúnculo". Com os trabalhos de Pleyer, Binet, Claparède, Ribot e, finalmente, de J. Piaget, estabeleceu-se um tipo de pensamento próprio da criança, que se situa entre o pensamento «autístico» e o pensamento socializado – do adulto normal.
Na consciência da criança há um lento despertar para a realidade exterior, a primeira que impressiona os seus sentidos, e a pouco e pouco os objectos, os seres e as coisas se lhe vão tornando sucessivamente mais nítidos, de contornos mais definidos, muito embora só mais tarde se aperceba de que todas essas coisas são exteriores a si mesma.
Mas, a par da imagem central, claramente iluminada pelo foco da mente, há uma parte dela que fica sempre mergulhada na penumbra, em estado pré-consciente, denunciada por um vago sentimento de duas relações com estados psíquicos próximos ou remotos, a que se costuma designar por "franja". Esta "franja" tem uma importância excepcional no desenvolvimento normal da mentalidade infantil. No fluxo incessante dos factos psíquicos, esta consciência marginal desce para as profundidades do «ego», e as imagens esbatem-se e vão associar-se ao material já armazenado no subconsciente, entram na elaboração e associação de ideias, e condicionam as estruturas mentais conscientes, manifestando-se como tendências adquiridas.
Há, pois, que prestar atenção constante às imagens que a criança vai formando de si e de tudo o que a cerca – imagens que resultam das sensações que recolhe do mundo através dos sentidos físicos e das percepções que consegue obter no seu cliché psíquico. Por uma educação racional, bem dirigida, levar-se-á a criança a iluminar cada vez mais intensamente o campo da consciência, por forma que a extensão da franja se vá reduzindo à medida que vai obtendo a orientação do pensamento. É preciso que a criança fique bem disperta para o mundo exterior, e focalize toda a sua atenção em tudo que fizer, vir ou observar, ouvir ou pensar. A maioria das pessoas consegue viver uma vida inteira semi-inconsciente da realidade exterior, porque a sua consciência ficou sempre «sonolenta», meio fosca. A existência terrestre é, como sabemos, uma escola de experiência da vida, e quanto mais frutuosa for essa experiência vivida, maiores serão depois os benefícios colhidos, o progresso espiritual conseguido. Para que tal suceda, necessário se torna que sejamos perfeitamente conscientes do mundo em que vivemos, dos nossos actos e da nossa natureza interior. E quando o Homem, por circunstâncias várias, perdeu a nítida consciência de si, os seus actos, as suas atitudes, o seu «comportamento» deixaram de estar sob o seu perfeito domínio.
(Continua)
A. S. G.
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