Educação Infantil

A Futura Educação da Criança

(Continuação)

Na criança, o começo da expansão faz-se de modo desordenado, sem persistência. Por isso, escapa facilmente aos educadores o atrito, a fricção que provocam as tendências e comportamentos opostos, isto é, a fricção entre a eclosão dos impulsos e o condicionamento da conduta, entre a satisfação de um desejo e a sua censura ou recusa (familiar ou social).

Daqui surgem os conflitos, e a personalidade vai-se definindo segundo a forma como a criança os resolve.

Todo o desejo, que é uma força motivante, exige uma satisfação imediata; a inibição, interna ou externa, causa uma tensão que se reflecte na personalidade por um certo desequilíbrio neuropsíquico. Se os conflitos tendem a canalizar a energia reprimida para níveis mais elevados, para aí se resolverem em formas sublimadas, suscitam uma reorganização das estruturas psíquicas, e obrigam a personalidade a desenvolver-se num plano superior. Se os conflitos continuam sem solução, produzem certa desagregação da personalidade, pela fixação ou regressão de alguns dos seus elementos constitutivos, e actuam como agentes patogénicos. Exercem, pois, uma acção deformadora, gerando o sofrimento. Ainda que recalcados continuam a subsistir, tendem a ser revividos, e encontram, por vezes, uma expressão disfarçada nas imagens dos sonhos, nas obsessões, nos lapsos da vida quotidiana, nas frustrações, etc. Ainda nestes casos, a personalidade procura restabelecer o equilíbrio, dando origem a "projecções", a "transferências", a "catarsis" que são a base da terapêutica psicanalítica. Na maioria dos casos, estes conflitos íntimos permanecem ignorados ou ocultos na consciência do indivíduo. Outras vezes é ele próprio que "quer" ignorá-los.

Daqui se infere a importância que representam para a formação da personalidade, como unidade integrativa, os desejos dominantes que foram reprimidos na infância e na adolescência: são fonte primeiramente de "neuroses", e, em fase mais adiantada, de "psicoses".

Perante o problema das tendências, impõe-se, portanto, uma ajustada atitude educativa por parte dos pais e educadores. Reconhece-se que na verdade é muito difícil dirigir para planos construtivos e nobres os impulsos instintivos, aparentemente caprichosos, e os desejos, por vezes bizarros, da criança, sem os reprimir, total ou parcialmente. Quer dizer, sem que permitamos que se torne voluntariosa, egoísta, caprichosa, irreverente, há que conceder-lhe "espaço" suficiente para que se manifeste e se desenvolva em toda a sua plenitude.

Consiste nisto o papel fundamental da futura educação da criança: criar indivíduos perfeitos, equilibrados, física e moralmente sãos, livres de complexos e de mentalidades estreitas, doentias ou perturbadas, dotados de capacidades de rendimento útil, e altamente preparados para a vida superior.

(continua)

A. S. G.




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