Educação Infantil
A Futura Educação da Criança
(Continuação)
Pureza da mente. Se as purificações anteriores se tornam por vezes difíceis de conseguir e manter, a pureza do corpo mental é quase impossível no âmbito da sociedade ocidental moderna, porquanto impõe necessariamente muito sacrifício social e individual.
Limitando o problema à infância, nem por isso fica simplificado. Os pais e educadores têm, no geral, opinião muito diversa daquela que deveriam ter para o interesse da criança.
Como neste período da existência não se pode falar propriamente de uma vivência interior, e ainda porque a criança não é capaz de pensamentos abstractos, a expressão exterior que melhor nos permite julgar do estado da mente infantil é a linguagem. É através dela que vamos observando o seu desabrochar e as formas de que se vai revestindo.
A primeira e a segunda infância caracterizam-se essencialmente pela imitação, que constitui para ela um factor de escolha na formação da sua personalidade. A criança imita tudo quanto observa à sua volta. Se o comportamento dos pais e familiares é exemplar, o da criança sê-lo-á também, certamente. E a linguagem surge como resultado da imitação dos sons que ouve, dos gestos, atitudes e outros sinais que observa nos «outros» e a que vai associando a significação que os adultos lhes atribuem. Por este motivo, o que desejamos que a criança venha a ser no futuro devemos sê-lo nós diante dela, para que o nosso exemplo seja fixado e possa constituir um modelo.
Entende-se, pois, por linguagem, em sentido lato, não apenas a língua falada ou escrita – embora seja esta a expressão mais rica e elevada do indivíduo –, mas também todos os sinais exteriores que contenham uma expressão dos pensamentos e modos de sentir que os animam. É a linguagem falada a que melhor exprime a nossa vida interior, e o seu desenvolvimento é progressivo, original, em perfeita adaptação com o nosso estádio mental. Daqui a excepcional importância que tem a linguagem na educação da criança, A compreensão exacta das palavras que procura assimilar aparece em fase posterior ao aprendizado da sua articulação, ainda que os primeiros vocábulos, designando objectos concretos e familiares, apareçam simultaneamente com a sua apreensão corrente.
(...)
É evidente que não podemos ter a veleidade de possuir mente verdadeiramente pura, até porque a vida social dos nossos dias o não consente, nem é muito desejável, pois viemos a este mundo para adquirir experiências, boas e más – os contrastes nos esclarecerão. Mas entre conhecer o vício e cair nele vai enorme distância. A virtude está em resistir ao vício vivendo à beira dele, e não é afastando-nos de todo o convívio humano que venceremos a prova, além de que a vida solitária ou misantrópica é contrária às leis da evolução.
(Continua)
(Resumo do texto publicado)
A. S. G.
[ Índice ]