JARDIM INFANTIL

A Futura Educação da Criança

(continuação)

É incontestável que um dos grandes males que afligem a humanidade é a ignorância e o falso conhecimento. E nenhum progresso espiritual é possível enquanto houver dúvida, a perplexidade, incerteza, a qual é filha da ignorância. Para antecipar, e, portanto, avançar no Caminho, é necessário combater a ignorância, isto é, esforçar-se por compreender, possuir uma visão clara. Dizer a uma criança que deve "crer", que não pode compreender, para evitar a dúvida, nem só não se resolve o problema, como ainda lhe cria entraves ao seu progresso espiritual e intelectual.

Quando o estudante se propõe a resolver um problema de matemática, sucede frequentemente chegar a um ponto em que não avança mais. Deixou de compreender a marcha da resolução. Fica perplexo. Pode muito convictamente afirmar que "crê" na solução, que isso não lhe resolver o problema. Para o conseguir, importa desfazer a dúvida. Como? Dissipando a ignorância.

No domínio espiritual, a criança ignorante e cega é tão desastrosa como a negação deliberada e cismática da existência da Verdade Divina. Não só a criança deve cultivar a liberdade de pensamento, como também a perfeita tolerância para com os mais diversos credos e opiniões alheias, por muito pouco lógicas ou judiciosas que lhe pareçam. E como a finalidade da evolução é a conquista da liberdade espiritual, toda a tentativa de domínio do pensamento que não seja empreendida pelo próprio, isto é, que seja exercida por uma vontade estranha, qualquer que seja a forma que se apresente, não faz mais que escravizar a mente, tornando mais pesada a já pesada carga que nos traz cativos a este mundo de misérias.

Fazem, pois, obra doentia os pais que querem ver os seus filhos comungar nas suas ideias, na sua maneira de compreender a vida, assumindo perante ela idêntico comportamento. Estes "mandamentos" paternais impedem que a criança raciocine por si mesma sobre os problemas fundamentais da vida; e criam-se-lhe preconceitos ou ressurgem superstições antigas que deviam permanecer subterradas para sempre.

Nestas condições, se a criança não tem natural inclinação para os ritos religiosos, não devemos forçá-la à sua prática. Ela não compreenderá o seu significado e importância. Pode mesmo muito bem acontecer que o seu ego haja atingido um estado de desenvolvimento tal, que já não necessite das cerimónias e práticas exotéricas das religiões. Acresce que a repetição de um acto sem a necessária compreensão predispõe a uma emoção instintiva que, pela frequência, origina os nódulos no corpo mental e no de desejos de que já falámos. Estão na mesma ordem de ideias as práticas devocionais. Porque ainda não tem discernimento para as entender, estas formas, em geral de sabor metafísico, são inúteis à sua vida espiritual, pois não pode verdadeiramente sentir uma coisa que não compreende. Mais tarde, quando já tomou posse da sua mente, ela indagará o seu conteúdo e procurará compreender o seu valor para a vida do espírito.

O educador deverá esforçar-se por conseguir, a todo o custo, mas sem imposição, pelo discernimento entre o real e o irreal, o permanente e o ilusório, o ser e o não-ser, que a criança resvale para o materialismo e a sensualidade, tentando contrariar as influências externas, muito poderosas. Será, portanto, muito mais benéfico que ela sinta à sua volta a sã religiosidade purificadora do ambiente criado pela espiritualidade, bondade e recta conduta dos familiares, e veja o Criador em todas as coisas do que siga por imitação ou vontade alheia as complicadas práticas litúrgicas. É essencial que desperte nela a devoção, ou respeito por tudo quanto a rodeia, para que o seu corpo de desejos se sensibilize e se vá revestindo de materiais, sempre com mais abundância, dos níveis superiores do Mundo do Desejo, sem permitir a formação de tais nódulos tão daninhos.

Por isso, o amor magnânimo, desinteressado, há-de impregnar toda a sua alma juvenil e cândida.

Combater-se-á por todas as formas a tendência para o egoísmo e o culto da personalidade, que tanto escravizam o Homem dos nossos dias e obstam ao ressoar da Voz da Verdade no Silêncio da nossa Consciência. Como? Cultivando nela a compaixão por todos os seres da Natureza.

É fertil a imaginação da criança, e exerce nela poderosa influência como elemento modelar do carácter. Não refreada pode tornar-se doentia; e entregue a si própria, ela revela, no geral, propensão para o fingimento e a falsidade. Procurar-se-á refrear a imaginação, chamando-a a reter constantemente a atenção das coisas exteriores. Em consequência, reprimir-se-á nela o sentimento das aparências, despertando-lhe a noção do respeito de si própria, e dos outros, tal como é realmente, sem tentar encobrir a sua ignorância, pobreza de inteligência e de meios, humildade e modéstia da sua personalidade. Que as suas acções e atitudes brotem expontâneas e impressas sob o cunho da sinceridade.

Lemos algures, que o adepto rosacruciano é o homem mais sincero do mundo, e nisto se revela a sua mui elevada espiritualidade.

A criança deve ser ensinada a cultivar o amor da verdade. Por isso os pais e os educadores hão-de ser bastante esclarecidos, e aturada a usa vigilância. Assim, ilustrando, não devem escutar as "histórias" ou "casos" tristes de outras pessoas, que os pequenos lhes vão contar com satisfação por não se encontrarem em situações análogas, ou de regozijo pela infelicidade alheia, o que indicia certa dose de maldade. Em vez da anuência complacente dos pais a esse contentamento, receberá a criança suave admoestação de que ninguém, sensatamente, poderá dizer "dessa água não beberei". Porque o futuro é desconhecido e por isso ignoramos as dores e os sofrimentos que nos estarão reservados.

Ouve-se frequentemente dizer: "é bei feito!", "que diabos o levem!". Uma pessoa moralmente sã não terá semelhantes reacções, denunciadoras de crueldade, ódio ou malquerença: pelo contrário, desejará de todo o coração a bem-aventurança a todos os seres! A Vida divina flui por todo o universo, mesmo através das coisas mais inanimadas na aparência. Por isso, a bondade deve estender-se a todos os reinos da natureza.

A confiança constituirá o fundo de todo o panorama de relações entre pais e filhos. A criança é naturalmente curiosa, e interroga por tudo e por nada. Os ensinamentos e ilustrações que lhe foram ministrados hão-de ser claros, inteligíveis à sua mentalidade e exactos, embora breves, para que mais tarde não possam ser desmentidos por informações recebidas de outras vias.

(continua)

A. S. G.




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