JARDIM INFANTIL
A Futura Educação da Criança
(continuação)
Achamos prejudicial que os pais permitam que seus filhos tenham demasiada familiaridade com os seus colegas, condiscípulos ou companheiros de folguedos, ainda que do mesmo sexo. Essa excessiva familiaridade traz quase sempre consequências funestas. Outro costume que deveria evitar-se tanto quanto possível: o uso de um mesmo quarto por dois ou mais irmãos; e se o parentesco for mais afastado e as idades mais distantes, o problema mais se agrava. Mas, mais lamentável é ainda quando dois rapazes ou raparigas se tornam colegas ou amigas forçadas por terem que habitar um mesmo quarto ou aposento por longo tempo.
De igual modo, serão desaconselháveis as camaratas em colégios, internatos, "lares", e quartéis, dormitórios ou quartos colectivos em pensões ou casas de hóspedes, etc., sem que as camas se achem perfeitamente isoladas e vedadas por forma que a rapariga ou rapaz, quando se deite, se sinta inteiramente à vontade, a coberto de olhares indiscretos de algum mais atrevido.
A promiscuidade, ainda que ligeiramente velada, dá quase sempre origem à licenciosidade e ao despertamento precoce ou desenvolvimento mórbido do sentido genésico.
Se se quer que os corpos das crianças se mantenham puros e limpos até onde seja possível, urge que os pais estejam vigilantes nos hábitos que elas vão adquirindo nas relações consigo própria e com o mundo exterior.
Também não podemos concordar com o costume de os pais levarem as seus filhos, enquanto pequenos, a cafés, clubes, discotecas, e outros centros de reunião da sociedade adulta. Para defesa da saúde moral dos jovens, cumpriria que se privassem desses prazeres mundanos, se acaso estes não possam ficar em casa sob a vigilância de algum familiar de inteira idoneidade e confiança.
São ainda de evitar as dádivas às crianças e adolescentes de brinquedos figurando instrumentos bélicos ou cortantes, como armas de pressão, tanques, carros de assalto, espadas, sabres, etc., pois que estes objectos despertam ou estimulam nelas o sentimento de agressividade e de crueldade. E a época actual é muito favorável ao desenvolvimento destes sentimentos negativos, activados pela ânsia de liberdade e independência que se está processando por todo o orbe.
"Não abras o teu coração a qualquer homem" – lê-se no Eclesiastes, 7, 22 – pois desde muito cedo deve uma pessoa habituar-se a tratar dos seus problemas a sós consigo, livre da intromissão de estranhos, que fariam, ainda que com intenção louvável, motivo de algum comentário ou crítica depreciativa. Somente se deveria pedir conselho a pessoa altamente qualificada pela sua grandeza moral e elevação espiritual comprovada, e para assuntos graves. Fora disso, é de todo o interesse que os nossos problemas íntimos fiquem ignorados nas profundezas do nosso ser, depois de lhe havermos dado a melhor solução possível. A criança deverá, pois, habituar-se a ser reservada com humildade, sem afectação nem teimosia.
Como se sabe, o corpo vital é o veículo dos costumes e hábitos automáticos, os quais se vão lentamente, desde a meninice, incrustando no éter reflector, sede da memória subconsciente. É muito difícil influenciá-lo ou operar nele qualquer modificação, pois que a sua tendência natural é o da repetição, obrigando, por isso, o corpo denso a seguir a linha de menor resistência. Facilmente se compreenderá daqui a importância que a primeira educação, chamada infantil, exerce nos destinos do futuro do homem, pois que, adquirindo um hábito, que pode transformar-se em "vício", quando profundamente impregnado no corpo vital, dificilmente se consegue libertar dele. Importa, pois, inculcar à criança bons costumes e normas de conduta, honestos e púdicos, esforçando-nos por despertar nela o amor da verdade, da naturalidade, da lealdade, da humildade, da compaixão e outras nobres qualidades morais.
Pureza de Atitude – Outro factor de capital importância a considerar na educação infantil e da juventude é a atitude nos gestos, nas relações com os nossos semelhantes, e, sobretudo, a atitude mental perante as circunstâncias da vida, conceitos, opiniões e credos alheios.
Se a criança vive em ambiente moralmente sadio e puro, segundo os verdadeiros princípios cristãos, é naturalmente obediente e submissa, e raramente assume atitudes de rebelião ou de enfado. Mas, infelizmente são mui poucos os lares em que se respira tão doce perfume de espiritualidade, mesmo naqueles onde seria de presumir uma educação elevada e perfeita, relativamente à condição humana. Raiz do mal reside nos próprios pais: geralmente revelam, mesmo entre os que possuem uma boa formação e cultura esmerada, conceitos errados e incompletos acerca da verdadeira educação da criança nos tempos em que de decorrem. Daí que poucos serão talvez os que nos compreendem, até porque muitas das nossas observações assentam em normas do cristianismo místico, tal como é exposto pela filosofia rosacruz, ainda pouco seguida, e muito menos vivida, entre nós. Temo-nos pois, limitado a ligeiras notas de índole geral, sem nos embrenharmos demasiado nos meandros profundos e sublimes do rosacrucianismo, com o único propósito de as tornarmos acessíveis às pessoas ainda pouco familiarizadas com esta filosofia. Temos apenas um fim em vista: chamar a atenção dos pais e educadores para o magno problema de educação infantil nas novas gerações. Outros, com mais saber, capacidade e experiência, lançarão as fundações crísticas para a codificação de uma nova pedagogia adaptável à era que se aproxima.
Feita esta advertência, sigamos o nosso rumo.
Os pais devem evitar que seus filhos se irritem por sofrer contrariedades e oposições, ensinando-lhes a dominar os seus temperamentos, quase sempre impulsivos irreflectidos, por forma que consigam evitar ou refrear os excessos de cólera ou indignação, ainda que se sintam prejudicados por outras crianças ou adultos.
Devem fazer-lhes compreender o mal que lhes pode advir ao tomarem atitudes despeitadoras ou maldosas, independentemente dos motivos que as provocam ou justificam. Para tanto, convirá esclarecê-los, desde muito cedo, da acção da Lei da Consequência, por meio de exemplos facilmente acessíveis à sua embrionária mentalidade, extraídos tanto quanto possível da vida corrente.
Não pretendemos que se formem caracteres amorfos ou indolentes, apáticos ou indiferentes. Não! Mas:
"Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a Terra"!. Esta qualidade, evidenciada por Cristo, a que geralmente se associa a doçura, a humildade e a tolerância, pressupõe energia e firmeza de carácter. A força que nos dá a serenidade perante uma injustiça, afronta ou injúria, que expulsa todas as violências, é o domínio próprio, que tem a sua sede no corpo de desejos. Os arrebatamentos, a cólera, os acessos de ira, a violência, longe de exprimirem a manifestação de força, são antes sintomas de fraqueza. Os "mansos" não são aqueles que, por cobardia, medo ou comodismo, transigem habitualmente com as opiniões ou vontades alheias para evitar complicações. Também não são aqueles que, baseados numa pseudo-tolerância ou falso respeito pelo próximo, concordam sempre com o último que têm na sua frente. Esta "mansidão" é um grave defeito de personalidade e, portanto, censurável. Os verdadeiramente mansos são os que se firmam, com doçura mas intransigentemente, nas suas convicções, sem desejar impô-las aos outros, e tolerando as alheias; são os que, com ternura e suavidade, desfazem tempestades, dominam a "ferocidade e enfrentam estoicamente os maiores perigos.
Esta virtude, tão mal compreendida nos nossos dias, requer um longo treinamento do ego sobre os seus veículos, pois implica o domínio, não só das reacções emocionais sobre o corpo denso, mas também do próprio pensamento. Por isso aconselhamos a manter a criança paulatina mas continuamente submetida, desde muito cedo, a esta disciplina de auto-domínio, que lhe dará, com o tempo, a plena consciência de si mesma. É evidente que esta disciplina tem de ser compreendida por ela mesma e nunca por acção externa. De contrário, quando adulta, ser-lhe-á extremamente difícil, ou quase impossível, adquirir a tão necessária mansidão evangélica. Na verdade manter-se-á imperturbável, sereno, completamente senhor. de si – e do seu pensamento – perante as mais adversas circunstâncias da vida, devemos convir que é uma qualidade muito rara e difícil de conseguir. Mas, sem ela, todo o esforço no aperfeiçoamento espiritual se dilui na desordenada emotividade que temos.
Num estádio intermediário da evolução espiritual, a indignação pode ser defensável, apenas quando surge em defesa legítima de interesses alheios, ou quando está em causa uma injustiça grave praticada contra algum semelhante nosso, amigo ou inimigo. É simplesmente condenável quando visa a defesa de interesses ou opiniões pessoais. Mas, quando se atingiu uma elevada espiritualidade, não existe motivo algum sobre a Terra que o justifique.
Assim, a criança nascida em semelhante ambiente, cedo compreenderá que a teimosia, as birras, os amuos e o "choro" que instintiva e tão frequentemente usa perante fraqueza moral dos pais, serão armas ineficazes para obter algo que lhe negam ou para recusar aquilo que lhe querem dar.
O mais ligeiro sintoma destas manifestações deve ser cortado cerce logo ao despontar, antes que lance raízes.
A. S. G.
(Continua)
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