JARDIM INFANTIL

Contos Iniciáticos

As Aventuras de Pinóquio

O fascínio das crianças pelas histórias garante a presença da literatura no ambiente educativo escolar. O importante é que os educadores – pais e professores – descubram a riqueza do conteúdo formador das boas histórias tradicionais.

A estrutura desses contos tem particular influência no desenvolvimento intelectual, emocional e imaginativo da criança. Vivendo temporariamente as angústias, conflitos, e alegrias dos personagens da história, a criança multiplica as suas próprias alternativas de experiências no mundo sem ter que se sujeitar a qualquer risco.

Vamos analisar o conteúdo de uma das mais conhecidas histórias infantis: Pinóquio.

Os conhecimentos esotéricos de Carlos Collodi, pseudónimo de Carlos Lorenzini (1826-1890), revelam-se imediatamente no primeiro capítulo, pela maneira como nos conta a reacção de mestre Cereja, o velho carpinteiro, quando ouviu uma voz ao cortar um pedaço de madeira para reparação de uma mesa. Dizia ela:

– Não me batas com muita força.

Cereja estava sozinho. E também não era imaginação!

– Está quieto! – Era o pedaço de madeira que falava.

Claro que mestre Cereja desmaiou.

Este episódio fala-nos dos preparativos para o renascimento e lembra-nos o átomo-semente e a pré-existência do espírito. Não é fácil para quem está habituado a associar a vida à forma física, pensar nestas coisas. Mas a verdade é que a vida já existe no além; ela só está à espera de uma oportunidade para se manifestar no mundo físico. O pedaço de madeira é o átomo-semente, que vai atrair o material para a formação do corpo físico.

É a vez, agora, de Gepeto se apresentar: Os rapazes chamavam-no Tio Papinhas por causa da peruca da cor das papas de milho. Ouve-se novamente a voz misteriosa que cada um dos dois amigos atribui ao outro. Travam-se de razões e agridem-se mutuamente. É a lei de causa e efeito – o carma dos orientais – em acção. É Gepeto quem virá a dar forma ao famoso boneco falante.

O seu primeiro cuidado é dar-lhe um nome. "Que nome lhe vou pôr"? – interroga-se. O som, o Verbo, antecede a manifestação. É o poder criador, o segundo aspecto do Ser Supremo, do qual procedem todas as formas. É o que vemos no terceiro capítulo.

Este aspecto, a palavra criadora, o Verbo, trouxe à existência tudo o que existe1 . E assim vemos Gepeto a fazer, pacientemente, os cabelos, a testa, os olhos. Quando acabou de construir os pés, teve a primeira surpresa: Pinóquio dá-lhe um pontapé na ponta do nariz. E depois de algumas atitudes insolentes, ensaia vários passos pela casa fora e acaba por fugir para a rua.

De regresso a casa, Pinóquio viu a porta meio aberta. Entrou e ouviu um som que lhe pareceu estranho:

– Cri-cri, cri-cri.

Era o Grilo Falante que, disse ele, vivia naquela casa há mais de cem anos!

Indignado, Pinóquio tenta expulsar o grilo, que só admite sair "depois de lhe dizer uma grande verdade".

Indiferente às palavras da sua própria consciência, simbolizada na figura do grilo, Pinóquio entendia que a profissão ideal era a de "comer, beber, dormir, divertir, etc".

Porque reagia assim? Estas palavras reflectiam a influência poderosa do seu corpo físico e emocional, capaz de subjugar e limitar a mente, embotar a lucidez, e levar o desejo a procurar unicamente satisfação da carne2. Neste capítulo, Collodi, o autor da história, lembra-nos a passagem do estádio de consciência vegetal para outro superior, mas do tipo animal, em que a mente ainda não exerce plenamente a sua função. A consciência do homem (mesmo a do adulto) ainda não foi inteiramente despertada. E, por isso, Pinóquio tem de aprender, por meio da dor, a tornar-se senhor dos seus desejos e não escravo deles.

Entretanto fez-se noite e Pinóquio sentiu fome. Uma fome de-voradora que o levou a procurar uma côdea seca, um osso, um caroço de cereja. Nada. Começou a pensar e deu razão ao Grilo Falante. De repente, viu o que lhe parecia um ovo de galinha, branco e formoso.

Partiu a casca e... surpresa! Do ovo saiu um pintainho que abriu as asas e voou para a liberdade da rua.

Pinóquio, com as cascas do ovo na mão, só lamentava a ausência do pai.

Temos agora um novo símbolo, o ovo, que revela como Pinóquio se enganava no seu raciocínio, ao julgar unicamente as aparências, interessando-se apenas pelos aspectos visíveis aos sentidos físicos.

Espantado com esta experiência, Pinóquio saiu de casa. Pensava encontrar, na aldeia vizinha, uma pessoa caridosa que lhe desse algum pão. Em vez disso, atiraram-lhe com um balde de água. Ficou molhado da cabeça aos pés.

A noite infernal, cheia de trovões, relâmpagos, com um vento gelado que fazia baloiçar as árvores, é a região inferior do Mundo do Desejo, a da paixão e desejo sensual, comparável à dos sólidos onde a força da repulsão "agita, com violência, e dissolve as formas ali existentes".

Pinóquio voltou a casa e adormece. Pela manhã ouviu bater à porta.

– Quem é? Perguntou.

Reconheceu a voz de Gepeto.

– Abre!

– Não posso... comeram-me os pés. De facto, os pés, que eram de madeira, arderam enquanto dormia.

– Pobre de mim. Terei de caminhar o resto da vida com os joelhos!

Completa-se, neste capítulo, o primeiro ciclo ou a primeira morte de Pinóquio, assinalando-se o início do autoconhecimento.

Gepeto encheu-se de compaixão pelo boneco. Compreendeu que ele tinha fome e oferece-lhes três pêras. Estas três peças de fruta simbolizam aos três corpos do ser humano: o físico, o de desejos e o mental (neste caso, o mental inferior) e as sementes que Gepeto insistia em guardar são os respectivos átomos-sementes.

A última frase de Pinóquio neste capítulo, que é o sétimo, foi:

– Agora sim, estou mesmo bem!

O oitava capítulo assinala o renascimento e o despertar da ânsia de caminhar pelo mundo fora.

Gepeto parecia não ter vontade nenhuma de lhe fazer uns pés novos. Perante a insistência consentiu:

– Fecha os olhos e dorme.

É uma referência à perda da consciência das experiências anteriores, das quais subsistem apenas as tendências. Com um pouco de cola, reconstrui-lhe os pés. Parecia um boneco novo.

Lançado no mundo, dispôs-se a frequentar a escola. Revela a sua vontade em aprender e conduzir o seu próprio destino. Mas como era fraca a sua vontade!:

– Hoje vou ouvir os pífaros, e amanhã é que vou à escola.

Pinóquio hesitava, mexia-se, sofria. Por fim cedeu. Aproximou-se de um teatro de fantoches. Viu que a entrada custava quatro tostões (o quaternário inferior, que formam a "personalidade": o corpo físico, corpo vital, a energia vital e o corpo de desejos).

Morre pela segunda vez. Entra no teatro, onde Arlequim reconhece o seu irmão Pinóquio. Nasce a confusão e o público reclama. O dono dos bonecos (o espírito-de-grupo) decide sacrificá-lo na fogueira para assar um carneiro. Pinóquio está aflito:

– Meu pai, salva-me!

Mas o sr. Come-Fogo (era este o nome do dono dos bonecos) queria o carneiro assado.

– Piedade, sr. Come-Fogo.

– Aqui não há senhores.

– Piedade, sr. Cavaleiro...

– Aqui não há cavaleiros.

De facto, a lei de causa e efeito é igual para todos...

– Piedade para o pobre arlequim.

– Aqui não há piedade que chegue. Se poupo um, tenho de por outro no fogo.

– Nesse caso, gritou Pinóquio, sei qual é o meu dever. Ninguém deve sacrificar-se por mim...

Este gesto de Pinóquio despertou o coração do sr. Come-Fogo. Nos mundos subtis, as boas acções também são premiadas.

Liberto do pesadelo, Pinóquio regressa a casa do pai, com cinco moedas no bolso. Louco de alegria encontra dois personagens interessantes : a raposa coxa e o gato cego, símbolos da dualidade da mente, o bem e o mal, o espírito e as trevas.

Estamos agora no décimo-quarto capítulo. Pinóquio sente-se infeliz porque todos os repreendem. Até os grilos ralhavam com ele. Apanhado por dois encapuçados resiste algum tempo mas acaba enforcado. Fechou os olhos, abriu a boca, esticou as pernas e ficou inteiriçado. E aqui termina o essencial da mensagem da história infantil, que os críticos insistem em considerar a melhor obra da literatura infantil italiana e uma das melhores do mundo.

F. C.

 

1. Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 3Ş ed., F.R.P., LxŞ, 1998, pág.295 e seg. (substância-raiz-cósmica).
2. Id., ob. cit, pág. 309-310.
3. id., ob. cit., pág. 3.




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