História

Manual de Disciplina dos Essénios

“... Mas Aquele que faz germinar um ramo santo
Para uma plantação de verdade
Esconde o seu segredo para que ninguém o suponha sequer;
Sem ninguém o conhecer, Ele o sela com o mistério...”

In
Hinos de Acção de Graças – Hino XIII – (VIII. 4-12)

 

1. Um olhar sobre a Seita de Qumrân*

Tentar explicar a natureza de uma seita através das suas regras de conduta em comunidade, poderá fornecer-nos pistas relevantes sobre o seu modo de pensar e agir, contudo não deixa de ser apenas uma parcela de uma história maior. Os documentos encontrados mostram, por exemplo, que esta comunidade interpretava as Escrituras de uma forma própria; utilizava uma linguagem de cariz simbólico, recorrendo-se das alegorias, metáforas e usando epítetos particulares para se referirem a si próprios ou aos outros (exemplo: os Kittîm como referência aos Romanos); recorria também a um estilo literário de cariz escatológico com preocupações moralizantes, onde abundam as metáforas e os epítetos de conteúdo antagónico (Filhos da Luz versus Filhos das Trevas) que podem apontar para uma determinada predestinação. Todos estes elementos são relevantes quando queremos comentar acerca das suas regras em comunidade, até porque o Manual não parece ser um códice homogéneo. Os escribas da seita reuniram neste Manual, não só as regras de iniciação à seita, punições por infracções, estrutura hierárquica da comunidade, rituais como também surge de permeio um texto sobre a dualidade da natureza humana e hinos de acções de graças.

(...)

Burrows afirma mesmo que “... a forma de organização, bem como as regras da seita, encontram-se no Documento de Damasco e no Manual de Disciplina (...) estes dois documentos têm muitos elementos comuns, muito embora as diferenças que os separam bastem para demonstrar que não provêm exactamente do mesmo grupo. Sem dúvida, representam ramos distintos de um mesmo movimento ou etapas diferentes da sua história, se não uma coisa e outra, simultaneamente.1

Porquê redigir um Manual de Disciplina? Quais seriam os objectivos visados pela seita ao transcrever este Manual? Provavelmente as regras da comunidade teriam sido transmitidas oralmente durante alguma parcela de tempo, não tendo surgido a necessidade de as transcrever – ou por não se verificarem grandes infracções ao estipulado, ou pelo facto de a comunidade ter começado por ser muito pequena. Quase sempre a necessidade de legislar provém da prevaricação à regra estabelecida. O que parece não deixar espaço para dúvidas – nomeadamente a nível de estudo arqueológico – é que a comunidade seria bem anterior à redacção dos códices. M. Burrows afirma que “...a seita se encontrava já organizada na altura em que foi redigido o Manual de Disciplilna (...) as regras da comunidade, tais como se encontram reunidas neste documento, demonstram já que uma tradição importante se desenvolvera2”.

(...)

Finalmente, a natureza das penalizações expressas na Regra não deixa de ser curiosa pela sua rigidez como também pelas situações contempladas. As penas são variadas e vão desde a redução alimentar até à suspensão e mesmo à expulsão da comunidade. Há sanções para quem cuspir no chão, para quem for dormir (ou adormecer?) durante uma reunião, para quem exibir a mão esquerda em gestos pouco abonatórios e elegantes.

 

2. A entrada na comunidade

Quem podia entrar nesta comunidade?

Aparentemente estaria aberta a qualquer indivíduo oriundo de Israel que aderisse à Lei de Moisés, (mesmo sendo prosélito) não obstante uma avaliação e exame à sua aptidão para a disciplina. A cerimónia de admissão estava sujeita a um juramento solene e obrigatório, na presença de todos, comprometendo-se a seguir todos os preceitos e revelações e a separarem-se dos caminhos perversos e iníquos. Ou seja, desde que fosse judeu entrava na categoria de “escolhido” porque estava estigmatizado com a marca da Aliança. Iavé parece ter sido um deus que gostava particularmente de estabelecer alianças com aqueles a que chamava de “seu povo”. Tinha-lhes dado o arco-íris no seguimento do dilúvio como uma marca distintiva da sua intenção de não mais lançar destruição na terra, exigindo-lhes a abstenção do sangue; a Abraão exigiu a marca corporal como traço distintivo do seu povo – a circuncisão dos descendentes masculinos. Claro que, ao longo dos tempos, os homens (os filhos de Israel) foram prevaricando e esquecendo os preceitos exigidos pelo seu deus e pondo em causa a Aliança – ou a sua renovação. Este ressuscitar dos preceitos divinos parece ter estado na base religiosa da comunidade de Qumrân, levando-os a demarcarem-se dos restantes judeus que consideravam ímpios.

(...)

Sabe-se que existia o cargo de Tesoureiro na comunidade de Qumrân; inclusive se conhece o nome de um dos tesoureiros através da sua menção num óstraco descoberto no local3. Tal regra coloca, à partida, uma questão que parece pertinente considerando que todos os membros se despojavam dos seus bens. Se assim acontecia, como poderia restituir por inteiro os bens perdidos que tinham estado à sua responsabilidade? Onde iria buscá-los se não quisesse cumprir com a penitência dos sessenta dias?

Depois da cerimónia, o indivíduo não se tornava membro de imediato. Tinha um período de noviciado de dois anos em que era avaliado duas vezes (anualmente); não podia tomar refeições em conjunto com a comunidade; deveria observar uma estrita disciplina e respeito pelos outros membros – nomeadamente os que lhe eram hierarquicamente superiores. Só ao fim dos dois anos de noviciado seria admitido na comunidade – se fosse avaliado nesse sentido.

 

3. As regras

As regras são elucidativas acerca das práticas comportamentais dos homens. Conforme já anteriormente referi, as infracções e respectivas sanções só fazem sentido quando as situações de prevaricação se verificam. Aqui deixo algumas das referidas no documento 1Qs para se poder avaliar da imputabilidade dos actos em si e do critério subjacente à punição e ao tempo de penitência.

(...)


Infracção
Sanção
Tempo
Mentir deliberadam/ em matéria de bens
Desobedecer a irmão inscrito
Proferir o mais venerável nome (Deus)
Mentir deliberadamente
Insultar deliberadamente
Falar disparatadamente
Interromper s/companheiro
Dormir durante uma Assembleia
Desnudar à frente companheiro
Cuspir durante uma Assembleia
Rir alto disparatadamente
Usar mão esquerda para gesticular
Caluniar e difamar a Congregação
Caluniar o companheiro
Trair Congregação depois de 10 anos
Excluído da Refeição
Penitência e exclusão
Exclusão definitiva
Penitência
Penitência e exclusão
Penitência
Penitência
Penitência
Penitência
Penitência
Penitência
Penitência
Exclusão definitiva
Penitência
Exclusão definitiva
1 ano -¼ comida
1 ano penitência
--------
6 meses
1 ano penitência
3 meses
10 dias
30 dias
6 meses
30 dias
30 dias
10 dias
--------
1 ano
--------


Segundo Geza Vermes, os limites temporais da história da seita parecem ser, num extremo, o início do século II A. C. e no outro extremo, uma data posterior a 27 D.C., sendo que esta última é determinada pela arqueologia de Qumrân e coincidente com a chegada dos exércitos romanos de Vespasiano e Tito às imediações do Mar Morto, assim como com a primeira guerra judaica.

Até ao momento tenho evitado referir-me à seita de Qumrân usando a designação de Essénios. Com efeito, Vermes defende a teoria de ambas terem a mesma identidade apoiando-se nas fontes históricas – Flávio Josefo, Fílon de Alexandria e Plínio, o Velho – e nas semelhanças entre as descrições dos documentos e as narradas pelas referidas fontes (incluindo a organização, costumes comuns).

(...)

O que sabemos, basicamente, sobre os Essénios?

– Adoptaram o calendário solar;

– Devotavam-se à oração, à cura do corpo e da alma, distinguindo-se também na profecia;

– A sua iniciação comportava um ano de estágio probatório e em mais dois de formação;

– A desobediência causava expulsão da ordem;

– A posse comum dos bens era uma das principais características da seita;

– A agricultura a principal ocupação;

– Faziam banhos rituais antes das refeições que eram cozinhadas e abençoadas pelos sacerdotes;

– Usavam roupa branca e rejeitavam sacrifícios animais;

– Demonstravam uma reverência extrema pela Lei, com rigorosa observância ao sábado;

– Os seus ensinamentos esotéricos eram registados em livros secretos;

– Concebiam uma vida depois da morte puramente espiritual.

Face ao que sabemos dos Essénios através das fontes anteriormente referidas, não se torna particularmente difícil associar a seita de Qumrân a esta comunidade. J. Allegro refere-se sempre a esta comunidade como “a seita”, afirmando, contudo que “... havia uma terceira seita judaica, os Essénios, sucessores espirituais(...) dos Hasidim dos tempos dos Macabeus. Podemos obter em várias fontes muitas informações acerca deles e das suas ideias; porém, como algumas coisas parecem ser contraditórias, há que não confiar muito nas questões do pormenor. No entanto, parece ser certo que possuíam um estabelecimento monástico junto do mar Morto, nos arredores de En Geddi, num ponto que corresponde exactamente no mosteiro de Qumrân.4

(...)

É bem verdade que os primeiros versículos do Génesis são detentores de um certo hermetismo e que podem bem ser interpretados como “as idades do mundo”, uma criação faseada, com propósitos evolutivos e que culmina com o descanso do Criador. (...)

Interpretar as Escrituras, concebê-las em hebraico antigo, estando as palavras ligadas umas às outras, sem vogais e disponíveis para quaisquer pequenas alterações conforme a conveniência do intérprete, não teria ajudado à busca da veracidade do texto original. Uma das provas disto é a própria designação de deus no Génesis como “elohin” – o que parece remeter para uma pluralidade criadora.

A importância da biblioteca de Qumrân é por demais evidente: não só traz à luz novos articulados, como proporciona estudos comparativos com os apostos nos Evangelhos. Também propicia algum conhecimento sobre esta comunidade de ordem religiosa e espiritual e nos ajuda a (re)colocarmo-nos perante os outros e a vislumbrar a sua maneira de ver Deus. A religião é o que nos liga ao sagrado (re-ligare). Somos, naturalmente seres espirituais.

(Resumo do texto publicado)

Anabela Leandro

 

Notas

* Seita: do latim secta: linha de conduta, maneira de viver. Não tem, neste contexto, qualquer conotação pejorativa (N. da R.).


1 in Os Documentos do Mar Morto, Millar Burrows, pág. 244
2 ibidem, pág. 243
3 Tesoureiro ou Guardião de nome Eleazar, filho de Nahmani (Vermes, pág. 78, vide Notas)
4 in Os Manuscritos do Mar Morto, John Marco Allegro, pp. 222/223

 

Bibliografia

Manuscritos do Mar Morto, Geza Vermes, Edt. Ésquilo, 1ª. Ed., Julho de 2006, Lisboa; Os Documentos do Mar Morto, Millar Burrows, Porto Editora, Porto: Os Manuscritos do Mar Morto, John Marco Allegro, Publ. Europa-América, Lisboa, 1958; Os Manuscritos do Mar Morto, E. Laperrousaz, Rés-Editora, Ltda., Porto, 2ª. Ed., 2004; Wisdom Texts from Qumran – The Dead Sea Scrolls, Daniel J. Harrington, Routledge Publisher, 1996, London




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