História
Francisco Marques Rodrigues1
O Místico1. Objectivo
Este livro é a expressão sincera, ainda que claramente imperfeita, de um sentimento do qual muitos comungam: admiração, respeito e gratidão para com a pessoa que, de formas diversas mas sempre de maneira incomparável, soube ser mestre, confidente e amigo – Francisco Marques Rodrigues, Presidente da Fraternidade Rosacruz de Portugal.
Esta homenagem quer ser menos formal e mais directa: uma tomada de posição e uma afirmação decidida da importância e da significação da importância incontestável da pessoa e do pensamento de Francisco Marques Rodrigues no panorama rosacruciano e social português.
2. Introdução
A "iniciação" rosacruciana é um processo de transição para um estado de espírito regenerado e super-natural que torna possível a consciência cósmica, ou superconsciência. Transcende definitivamente as limitações da consciência racional, inevitavelmente discriminativa e fragmentadora. É o culminar lógico de um processo de desenvolvimento e aplicação prática dos conhecimentos adquiridos – e não uma simples sujeição a um rito de admissão. Não trataremos este assunto neste trabalho – já foi estudada noutras obras já publicadas. Diremos apenas que esta dimensão da espiritualidade, que implica maior conhecimento de si próprio e a recuperação dos genuínos segredos do nosso ser e o alargamento das faculdades de percepção, transcende muito a norma formal da comunidade.
A palavra "místico", etimologicamente de origem grega, relaciona-se com o acto de cerrar os lábios, ou os olhos, e equivale, portanto, a alguma coisa sobre a qual se mantém silêncio. A vida mística é, pois, na terminologia rosacruciana, sinónimo de uma vida discreta, que não se vangloria dos seus actos à luz do dia e se resguarda – como o fermento que fermenta a massa de que se forma o pão – para se tornar o agente transformador da massa humana.
Francisco Marques Rodrigues, como verdadeiro místico, era um homem de pensamento e de palavra, mas também homem de acção. Nunca foi um isolacionista. Não era um contemplativo. Usava preferencialmente a "linguagem da acção" que é sempre marcante, mesmo para aqueles cujo individualismo emergente do neo-liberalismo não admite a possibilidade de uma relação teoantropocósmica consciente e operativa. Entendia ele que só o exemplo podia revelar virtudes sem palavras. Sabia distinguir o isolacionismo do silêncio e da solidão necessários à união progressiva com o Absoluto – onde o amor próprio não tem lugar. E, porque se identificava como membro de um Corpo, agia de modo a contribuir para o alívio desse mesmo Corpo.
O aspecto mais saliente na obra de Francisco Marques Rodrigues foi o modo prático como concretizou o plano de acção da Fraternidade Rosacruz de Portugal, promovendo a intervenção activa desta na vida social mediante a remoção de carências, o suprimento de disfunções e o estímulo ao exercício ordenado das faculdades morais e espirituais. Deu uma nota clara de serviço – onde se evidencia a renovação de objectivos e até de concepções e práticas de trabalho – que procurava justamente exercer os seus fins numa óptica claramente enriquecedora para a comunidade. Nesta actuação evidenciou-se o princípio basilar do seu carácter: O esforço individual tinha que exercer-se no sentido de servir grupos humanos cada vez mais extensos, família, localidade, região, humanidade. O serviço, como modo de remediar os inconvenientes e males duma defeituosa estrutura espiritual; a assistência social, como método de corrigir em definitivo estas imperfeições; e o respeito sagrado pela individualidade humana, como homenagem a render à obra da Criação, constituem para ele um complexo de princípios imutáveis – como o deviam ser também para todos as almas bem formadas. Mas a grande virtude desta estratégia assenta no cuidado que tinha de nunca despertar nos espíritos inquietos que o procuravam, e cuja angústia e inquietação facilmente descortinava e sentia, esperanças fagueiras e simpáticas, para que a inevitável desilusão não provocasse, depois, desalentos maiores ainda do que os actuais, que bem grandes podiam ser já.
Conjugando estes dois factores – a capacidade de vivenciar os dramas alheios e o superior conhecimento da sua génese – Francisco Marques Rodrigues falava sempre com conhecimento de causa, muito pragmaticamente, e não apenas com fundamento no progresso teórico. Ensinava com a maior força e persuasão, elevação e segurança, testemunhadas por inúmeras testemunhas de peso. Por se identificar como membro de um só Corpo, agia de modo a contribuir para o alívio desse mesmo Corpo. A sua actuação continha sempre um factor de praxis e de aplicação directa à situação humana actual. Considerava ele, e com justa razão, que a mera repetição doutrinal, desencarnada da situação real dos homens, não tinha valor, não era, sequer, uma theoreia, porque não visava a realidade. A sua palavra era, por isso, sempre "encarnada" na praxis, sendo por essa via que o seu logos proferia o discurso esclarecedor e, ao mesmo tempo, libertador.
Por vezes, o seu conselho era carregado de profundo silêncio – não de um silêncio vazio, mas de um silêncio silencioso que resulta do conhecimento dos problemas alheios, vivência que lhe era relativamente fácil, devido, por um lado, à facilidade com que restabelecia as conexões constitutivas de tudo o que é, e, por outro, ou por saber como a palavra falada diz sempre mais e menos do que aquilo que quem fala e ouve podem compreender, ou ainda por se tratar de assuntos sobre os quais "não é lícito ao homem falar", para usar as palavras de Paulo.
3. Capacidades Perceptuais Incomuns
De facto, Francisco Marques Rodrigues tinha a capacidade de percepcionar, de modo extra-sensóreo-motor, pessoas e acontecimentos, distantes no tempo e no espaço, conscientemente, sem esforço visível. Vivenciava-os com uma facilidade que ultrapassava os limites da explicabilidade. Ao aceder a essas realidades, que a linguagem comum não pode explicar, como se nele convergissem informações de acontecimentos externos e internos, combinados para promover o encontro de uma cadeia de dados, numa sincronia total, podia, com inteiro àvontade, no estado de vigília, ver cenas concretas e físicas e descrevê-las, com pormenores que eram facilmente comprovadas no próprio instante.
Esta capacidade, que lhe permitia vivenciar histórias de vida de outras pessoas através de um estado de hiperconsciência, aceder ao registo das suas personalidades e analisar as suas memórias, actuais ou pretéritas, pormenores do seu comportamento, etc., era-lhe incrivelmente esclarecedora de toda a complexidade existencial dos seus interlocutores. Dava-lhe a possibilidade de aceder a uma boa parte de informações capazes de serem usadas numa racionalização esclarecedora e sanadora, evidente e fácil de observar, no decorrer dos diálogos, demonstrado inequivocamente uma excepcional capacidade para apreender o complexo psíquico de pessoas distantes, cenas concretas e nítidas, e não observáveis pelas estreitas visões do mundo da consciência egoica usual. E, como sabemos, a missão mais autêntica que pesa, como imperativo categórico, nos ombros de um rosacruciano e uma das principais formas de auxílio altruísta aos conterrâneos e coetâneos, é o esclarecimento.
Usámos intencionalmente a palavra "sanar, do latim "sanare", no sentido que lhe dava Cícero: "recuperar o juízo, a sensatez", ideia que se associa ao restabelecimento do equilíbrio original da psique e erradica a desarmonia por um movimento de dentro para fora, num processo em que o doente é o próprio agente. Na cura, do latim "cura", esse processo origina-se de fora para dentro e é ordenado, ou conduzido, por terceiros, o médico ou terapeuta, e terá, necessariamente, de se completar com o anterior, para o reequilibro total da saúde física ou psíquica.
As informações colhidas por aquela via, por Francisco Marques Rodrigues, podiam relacionar-se com acontecimentos situados no espaço de tempo actual, compreendido entre a situação presente e a vida intra-uterina, ou extrapolar este período, numa visão retrospectiva ou prospectiva, extremamente distante no tempo e jamais perceptível pela visão do mundo por meio da consciência comum, adormecida para as realidades maiores. Por outras palavras, Francisco Marques Rodrigues podia estabelecer contacto, voluntariamente, com acontecimentos ainda não sucedidos nem remotamente cogitados.
A tendência vulgar e materialista para dar à palavra "matéria" o significado que a cinge às propriedades cognoscíveis pela visão e pelo tacto, e não o significado de elemento subtil emanado pelo Absoluto, é que leva a atribuir tais casos ao acaso, tais incidências a coincidências, tais intuições a superstições, negando-se a integrar o facto no quadro racional da copresença do natural e do sobrenatural, do presente, do passado e, em grande parte, do futuro. Deve-se tal hábito ao facto de se distinguirem cientificamente as duas categorias, o espaço e o tempo, e de a linguagem corrente impor, nas nossas ideias, as mesmas distinções, a mesma descontinuidade que existe entre os objectos naturais, em vez de encarar simplesmente o fenómeno em termos de simultaneidade no tempo e de separação na distância, ou de proximidade no espaço e de sucessão no tempo.
Se a realidade é susceptível de graus, planos ou mundos, e zonas ou regiões, como o dinamismo da palavra Universo parece indicar, esta capacidade permite comprovar a unicidade da criação, apenas diferenciada por graus sucessivos de densidade. A Física moderna fornece algum apoio a esta faculdade ao afirmar que o mundo e as suas formas são variações dos mesmos elementos. Quer dizer, existe apenas uma diferença de grau, e não de realidade, percebida conscientemente por meio de uma extensão da faculdade de perceber, obtida por objectivação das faculdades latentes do espírito, designadamente a da visão espiritual.
Estas capacidades de atingir o que se passa além das nossas percepções imediatas no tempo e no espaço assumia em Francisco Marques Rodrigues modalidades diversas, como a clarividência ou a premonição, apresentando o aspecto de um processo cognitivo vulgar.
Ficou célebre um dos passeios de estudo que regularmente se faziam, por uma ocorrência que ainda hoje é contada às novas gerações. Ocorreu no fim da década de 50.
Iniciada a viagem, cerca de uma hora mais tarde, Francisco Marques Rodrigues inicia inesperadamente uma palestra sobre o suicídio, usando o equipamento sonoro do autocarro. Explica a origem da palavra e o seu significado, de morte intencional auto-inflingida, isto é, quando a pessoa, por desejo de fugir de uma situação de sofrimento intenso, decide tirar a sua própria vida, mais numa forma violenta de comunicação, numa publicidade do desespero do que um acto privado. Falou dos factores relacionados com maior probabilidade de cometer o suicídio: a idade, as doenças físicas – como o cancro ou a epilepsia – as doenças mentais – como o alcoolismo ou esquizofrenia, etc. Referiu-se aos motivos mais correntemente associados a tão tresloucado acto: a tensão nervosa, os transtornos afectivos, a história familiar, e até à susceptibilidade genética para o suicídio entre gémeos monozigóticos e dizigóticos, os factores históricos nas antigas civilizações. Desenvolveu depois a relação entre as convicções sobre a imortalidade e a autodestruição do corpo como desfecho para os problemas da vida. Explicou ainda como a falta de convicção na imortalidade da alma enfraquece o vínculo do homem com a existência física e conduz à perda do sentido supremo da vida. E referiu, finalmente, alguns factores que, numa civilização desenvolvida, gera tensões implosivas e movimentos de autodestruição.
Demorou-se intencionalmente citando exemplos de casos em que o potencial suicida, já alquebrado pelo desânimo, sem paciência, com falta de resignação e de força de vontade, teve a felicidade de evitar a tempo esse acto malsão e estulto, ao verificar a inexistência de uma doença que reputava incurável, de desgostos que supunha sem consolação para lembrar depois as condições de vida post-mortem do suicida e das suas relações com o processo que escolheu para se eximir às dificuldades da existência física.
Já de regresso, cumprido o programa da visita, aproveitando uma das paragens, o motorista, sem poder conter mais a emoção, identifica-se como suicida tendencial. Um impulso de irresistível curiosidade todos se acercaram da criatura. A ideia corroía-lhe o espírito há tempos como suposta solução para problemas novos e antigos e, com uma inflexão de voz, que bem deixava transparecer a emoção que sentia, revelou o que lhe fervilhava na alma. Toda a gente, por assim dizer, quis interrogar, acto contínuo, o desamparado condutor. O seu relato e o fenómeno a que assistiram, convenceram-nos profundamente da transcendência do acontecimento que ainda hoje não se recorda sem a mais viva emoção. Relido o registo que nos chegou, devidamente redigido pelo interveniente e entregue ao organizador daqueles passeios, A. de L. Villaverde Campos, começa logo o escrito por exarar a mais profunda demonstração de desânimo e indiferença pelo valor da vida, que o fazia vergar sob a dor, e às imensas dúvidas que lhe pesavam no espírito.
Desiludido, martirizado, tinha deixado de lutar nem esperar mais. Tinha preparado tudo para o fim em vista. Dizia-se esgotado, aniquilado. Sentia que qualquer novo esforço seria superior às suas forças. Seria a sua última viagem! Mas as eloquentíssimas e oportunas palavras de Francisco Marques Rodrigues atingiram-no com violência inaudita, inesperada. Despertaram-lhe alguns rebates de medo ou, pelo menos, de dúvida. Fizeram-lhe estremecer a consciência. Foram uma resposta, carinhosa, paternal, confortante, para as suas dúvidas. Antes desolado, sentiu como que o renascer da esperança, uma força desconhecida, tal era a energia, o poder de convicção, a força moral e o entusiasmo sincero com que falava Francisco Marques Rodrigues. Valeria a pena adiar a sua decisão? As palavras que ouviu e os pormenores descritos convenceram-no profundamente dessa possibilidade. Não custava nada tentar. Afinal, Francisco Marques Rodrigues tinha referido, um por um, todos os casos que lhe desvairavam o espírito e dos quais se queria libertar, transido de sofrimento e de desespero, ocultando sempre de todos o seu desígnio como o avarento esconde o seu tesouro. Talvez conseguisse resolver todos os problemas. Conseguiu.
Tempos depois procura A. de L. Villaverde Campos, organizador destas viagens, e pede-lhe para entregar uma carta a Francisco Marques Rodrigues, de quem se tornou depois visita assídua, onde revela que a vida, antes entenebrecida pela dor e sofrimento, se desanuviava e já lhe sorria.
4. Agradecimentos
As fontes utilizadas são em primeira mão. Em primeiro lugar utilizaram-se os documentos arquivados na Fraternidade Rosacruz de Portugal, cujos exemplares mais antigos relacionados com o rosacrucianismo datam do início do século XIX. Neles incluímos o vasto manancial de cartas, relatórios, apontamentos e outros manuscritos. Procurei depois os signatários dessa correspondência, ainda vivos, que esclareceram e confirmaram os relatos constantes daquela documentação epistolar – e aqui expresso a minha gratidão às pessoas que, por autorizarem a reprodução desses documentos ou a simples citação dos mesmos, deram, ainda assim, testemunhos esclarecedores que muito contribuíram para o enriquecimento desta obra, ajudando-me na tarefa que me propus realizar e à qual, por esta via, se associam gratamente. Todas elas foram unânimes em afirmar ter sido uma felicidade contactarem, pessoalmente ou não, Francisco Marques Rodrigues.
O autor agradece igualmente, penhorado, a valiosa assistência de Adelaide de Brito, sua mulher, que o ajudou a reunir, durante longos serões, valiosa documentação e cuja crítica construtiva ajudou a tornar esta obra um relatório fundamentado da actividade rosacruciana em Portugal.
Francisco M. Coelho
1 Fragmento de um capítulo da obra Francisco Marques Rodriges, O Homem – O Místico – O Mestre, a publicar.
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