HISTÓRIA

O Terceiro Milénio

A Data do Nascimento de Jesus

Apenas os Evangelhos de São Mateus e São Lucas, entre os canónicos, se referem à infância de Jesus, pois Marcos e João silenciaram essa época da sua vida.

Pelo contrário, alguns dos evangelhos apócrifos referem-se, com algum desenvolvimento, à infância de Jesus, mas, pelos acontecimentos fantásticos que descrevem, não merecem grande credibilidade, embora representem tradições populares de algumas das comunidades cristãs, que foram surgindo ao longo do século II.

A primeira questão que pode colocar-se, em relação ao nascimento, é a de saber em que ano ocorreu.

De acordo com Evangelho de São Mateus1, "tendo nascido Jesus em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que vieram do oriente uns magos a Jerusalém, dizendo: onde está o rei dos judeus, que nasceu? Porque nós vimos no oriente a sua estrela e viemos a adorá-lo. E o rei Herodes, ouvindo isto, se turbou e toda a Jesuralém com ele" (Mar. 2, 1, 2 e 3).

Ora, tendo morrido o rei Herodes, no ano 4 a.C., tendo em conta o que nos dizem vários autores, sem esquecer o indispensável Flávio Josefo, impõe-se a conclusão de que nasceu antes desse ano.

Mas, se consultarmos o Evangelho de São Lucas, teremos de repensar as nossas contas, não sendo pacífica a conclusão de que o nascimento se deu nessa época, considerando o que vamos transcrever:

"Aconteceu naqueles dias que saiu um decreto emanado de César Augusto, para que fossem recenseados todos os que vivessem no império. Este primeiro recenseamento foi feito, quando Quirino era governador da Síria. Iam todos recensear-se, cada um na sua cidade natal. E subiu também José da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, que se chamava Belém, porque era da casa e da família de David, para se alistar com a sua esposa, Maria, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto e Maria deu à luz o seu filho primogénito o enfaixou e reclinou numa manjedoura, pois não havia lugar para eles na estalagem" (Luc. 2, 1-7).

Segundo este Evangelho, Jesus nasceu em Belém da Judeia, no ano em que Quirino, governador da Síria, mandou efectuar um recenseamento, por ordem do imperador Augusto.

Parece ter algum fundamento histórico este recenseamento, cuja data se deve determinar pela deposição de Arquelau, filho de Herodes, rei da Judeia, que foi exilado para "Vienne", cidade das Gálias, no vale do Ródano, já que ele foi ordenado, depois dessa deposição e como efeito dela, como explica Flávio Josefo, na obra Antiguidades Judaicas, livros XVII e XVIII.

Ainda de acordo com Josefo, na obra A Guerra dos Judeus, livro 11, capítulo IX, foi no nono ano do seu reinado, que Arquelau foi chamado a Roma por César, e foi deposto. Sendo certo que Herodes, o Grande, faleceu no ano 4 antes da nossa era, se acrescentarmos nove anos do reinado de seu filho Arquelau, teremos que este foi deposto no ano 5 ou 6. Então o recenseamento que nos é referido por Lucas teve lugar num desses anos, mas considerando outros factos referidos, designadamente a c, revolta do censo", encabeçada por Judas, o Galileu, que, como sabemos, teve lugar no ano 6, poderemos concluir que ele teve lugar neste ano.

Como se afirma no livro de David Hughes, "The Star of Bethlehem" Pocket Books, New York, 1979, em 1924 foi descoberta na Turquia, em Ankara, uma inscrição antiga, que referia as datas dos recenseamentos ordenados por Roma, e houve um no ano 8 a.C., mas tudo indica que então Quirino ainda não era governador da Síria, visto que de 9 a 6 a. C. esse posto foi ocupado por Caius Sentius Saturninus e, embora se possa admitir, como mera hipótese, não documentada, além de pouco provável, que aquele exerceu dois mandatos na província da Síria, como foi ponderado por alguns investigadores, o primeiro apenas poderia ter tido lugar entre 3 a 2 antes da nossa era, enquanto que o segundo deveria ter ocorrido entre os anos 6 e 7 d. C., sendo certo que esta data coincide praticamente com a que se indicou acima, trilhando o outro caminho que seguimos, apoiados em Flávio Josefo.

De qualquer modo, considerando o Evangelho de Lucas e os outros dados da investigação, ou o hipotético "primeiro recenseamento", "do tempo de Quirino", como governador da Síria, do que aliás não existe prova, teve lugar nos anos 3 ou 2 antes da nossa era, quando o rei Herodes já tinha falecido, ou então ocorreu no "segundo mandato" (embora tudo que se disse indique que Quirino só exerceu um mandato) desse cargo de governador da Síria, no ano 6 d.C. e, portanto, também depois da morte do mesmo rei e não antes dela, o que é mais provável.

É difícil optar por uma destas duas datas: ou Jesus já tinha sete anos no ano 1, ou então só nasceu cinco ou seis anos depois do início da nossa era.

De qualquer modo, o censo realizado por Quirino, que abrangia a Judeia, teve como motivo anexação dos territórios entregues por Augusto a Arquelau, filho de Herodes, que foi etnarca da Idumeia, da Judeia e da Samaria e que foi deposto pelo imperador, passando os romanos a assumir o controlo directo desses territórios, através de um governador da ordem equestre, denominado praefectus da região.

Copónio foi o primeiro prefeito dessa região e tomou posse no ano 6 d.C., quando Sulpício Quirino era o governador da Síria, isto é, era legatus Augusti pro praetore, da ordem senatorial. Foi esta mudança administrativa que exigiu um novo censo, como ficou implícito no que acima se disse sobre o recenseamento referido por Lucas.

Mas a verdade histórica, sobre os censos ordenados por Roma, é que as pessoas eram recenseadas, de acordo com o costume romano, no local do seu domicílio ou no local de trabalho, o que é uma boa solução à luz do senso comum, e não no lugar em que nasceram.

O objectivo que tinham os censos era lançar impostos sobre as pessoas recenseadas, não no lugar do nascimento, onde poderiam não ter quaisquer bens, ao contrário do que sucedia no local em que trabalhavam e viviam habitualmente. Tomar um procedimento diferente seria a manifestação de uma burocracia inútil e aterradora; sendo certo que de má administração dos territórios conquistados os romanos não poderão ser acusados.

No entanto, aceitando como certo que o censo do tempo de Quirino teve lugar, mas que tal só teria sucedido depois da morte do rei Herodes, outra contradição se pode descobrir em Lucas 1, 5-32: "No tempo de Herodes, rei da Judeia, havia um sacerdote chamado Zacarias. Era da classe Abias. Sua esposa chamava-se Isabel e era descendente de Aarão. Os dois eram justos diante de Deus: obedeciam fielmente a todos os seus mandamentos e às ordens do Senhor. Não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e os dois já eram de idade avançada."

Descreve-se depois a aparição do anjo2 Gabriel a Zacarias, a quem anuncia a gravidez de sua esposa Isabel e o nascimento de João Baptista.

Ora, no sexto mês da gravidez de Isabel, segundo o Evangelho de Lucas, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José, que era descendente de David, e o nome da virgem era Maria. "o anjo disse: não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que vais ficar grávida, terás um filho e dar-lhe-ás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo" (Luc. 1, 26-32).

Deste modo, segundo Lucas, mediaram seis meses, entre o início da gravidez de Isabel, e o início da gravidez de Maria, pelo que é de presumir que tal ocorreu ainda no tempo de Herodes, rei da Judeia, isto é, antes do trio 4 da nossa era. Fica, pois, prejudicada a afirmação de que o nascimento de Jesus teve lugar no tempo do recenseamento, ordenado por Quirino, mesmo que ele tivesse ordenado dois censos, o que, como acima vimos, não está provado historicamente, tendo em conta o que dissemos sobre o censo do ano 6, da nossa era, e que terá sido o único, que Quirino ordenou.

Do exposto, poderemos concluir que houve uma errada informação do autor do chamado Evangelho segundo São Lucas sobre a data do censo de Quirino, estando ele, porém, de acordo com Mateus, no que respeita ao facto de o nascimento de Jesus se ter dado ainda em vida do rei Herodes.

Não nos parece, porém, possível fixar com maior precisão o ano do nascimento de Jesus. Se a narrativa de Mateus sobre os magos (Mat. 2, 1 12) e sobre a fuga para o Egipto e regresso posterior à Palestina (Mat. 2, 13-23) tivessem algum apoio histórico, deveríamos então aceitar que Jesus nasceu poucos anos antes da morte de Herodes.

Na verdade, se o rei se informou junto dos magos, sobre a estrela que eles haviam visto, e que os guiara até ao "rei dos judeus", que nascera, e depois mandou matar todas as crianças do sexo masculino, de Belém e arredores, com dois anos de idade para baixo, então Herodes não queria deixar qualquer margem para erros nessa matança e esses dois anos representariam a idade máxima que o menino Jesus poderia ter nessa ocasião. Mateus não refere a idade do menino quando se deu a fuga para o Egipto e também não esclarece durante quanto tempo permaneceu nesse país, antes da morte de Herodes.

Mas, se existem incertezas, quanto ao ano em que Jesus nasceu, maiores ainda elas são relativamente ao dia do nascimento.

A tradição cristã ocidental fixou o Natal no dia 25 de Dezembro, que, actualmente, em quase todo o mundo, se festeja, mesmo pelos que não são cristãos, embora na segunda metade do século XX, esta festa cristã se tenha transformado numa actividade predominantemente consumista.

Numa obra denominada "De Pascha Compustus", do ano 243, cujo manuscrito se perdeu, mas de que se encontra cópia anexa aos apêndices de umas edições de São Cipriano, embora ele não seja o seu autor, defende-se que o primeiro dia da criação, segundo o Génesis, dia em que Deus criou a luz e a separou das trevas, foi o dia 25 de Março, "data do equinócio da primavera", segundo os cálculos daquela época, e quando "o dia e a noite são iguais". Para o autor desse texto, estando assente que Deus criou o sol, no quarto dia da criação, juntando-lhe três dias (!) cai-se no dia 28 de Março e considerando que o Cristo é chamado "Sol de justiça" só pode ter nascido nesse mesmo dia do sol cósmico, isto é, em 28 de Março (!).

Hipólito, no entanto, estabeleceu que o Cristo nasceu em 2 de Abril, ou ainda em 2 de janeiro, consoante se entenda genesis por nascimento ou por concepção.

Clemente de Alexandria censura os cristãos que procuram saber não só o ano, mas ainda o dia do nascimento de Jesus e interroga-se sobre o que valem os cálculos que levam uns a escolher o dia 19 de Abril e outros o dia 20 de Maio, sendo certo que ele optava convictamente pelo 19 de Abril, mas houve também partidários dos dias 29 de Maio e 28 de Março. No cristianismo do Oriente, ainda nos nossos dias, o dia escolhido para o Natal é o 6 de Janeiro.

No século IV, a Igreja fez coincidir o dia do nascimento de Jesus com o dia 25 de Dezembro. Era um dia muito festejado entre os pagãos, por ser o do sol invencível (natale solis invicti), estava ligado ao culto de Mitra, e festejava a vitória da luz sobre as trevas.

Sendo Jesus, nessa época remota, comparado a um novo Sol, foi, como dissemos, no século IV, aquele dia, 25 de Dezembro, o escolhido para se festejar o nascimento do Senhor.

É talvez possível que tenha influenciado essa escolha, a passagem do Evangelho de São João, em que João Baptista afirma, referindo-se a Jesus: "É preciso que Ele cresça e eu diminua." (Jo. 3, 30), considerando que no solstício de inverno, que se supunha coincidir com 25 de Dezembro, a duração da luz do dia começava a crescer e a noite a diminuir.

Alguns autores, baseados na passagem de Lucas, segundo a qual não havia lugar na hospedaria para abrigar o casal de José e de Maria, em Belém, pelo que o Menino Jesus nasceu numa manjedoura (Luc. 2, 7), afirmam que tal não podia ter sucedido em Dezembro, época em que não havia grande afluência de pessoas a Jerusalém ou às terras próximas, como era Belém. Só na Páscoa dos judeus, porque havia uma grande afluência de peregrinos à Cidade Santa, pelo que estes se abrigavam nessa cidade e nos seus arredores, se justificaria que não houvesse lugar na hospedaria, pelo que Jesus deverá ter nascido em 15 de Abril, ou em Março do ano 6 d.C.3

Segundo Joaquim Jeremias, na obra "Jerusalém no tempo de Jesus"4 na época da Páscoa, o número de peregrinos que afluía à Cidade Santa poderá ser fixado entre vinte e cinco e trinta mil. A este elevado número, para aquela época, haverá que acrescentar a população da cidade, o que dá cerca de cento e oitenta mil pessoas presentes para as festividades da Páscoa na cidade de Jerusalém.

Dionísio, o Mínimo ou o Pequeno (Dionysius Exiguus), monge que vivia em Roma, no século VI, que era considerado um dos homens mais eruditos do seu tempo, tendo sido encarregado de determinar o ano do nascimento de Jesus, pelo Papa João I, que se propunha substituir o calendário juliano por uma nova era, que tivesse por base a Incarnação de Deus em Jesus, fixou-o no ano 754 do calendário romano, que fez coincidir com o ano 1 da nossa era, mas não se encontra fundamento histórico para essa fixação, tratando-se de um engano ou de um erro daquele monge, que até hoje se mantém. Afirmamos ter havido um "erro ou engano" mas, na verdade, não são conhecidos os cálculos de Dionísio, que o levaram a essa conclusão, razão pela qual não se consegue entender como ele conseguiu ultrapassar as contradições existentes, sobre o nascimento de Jesus, nos evangelhos de Lucas e de Mateus. Provavelmente, terá tido sérias razões para tal, certamente teológicas e políticas, mas não são conhecidos documentos de que constem os seus cálculos.

Charles Perrot fez um comentário divertido sobre a escolha dessa data pois que, segundo ele, Dionísio, o Pequeno, enganou-se ao fazer os cálculos dos anos de Roma, visto que Jesus terá nascido em 4, em 5 ou em 6 "antes de Jesus Cristo".

É assim evidente, aceitando-se que o nascimento de Jesus ocorreu antes da morte do rei Herodes, ou "nos dias do rei Herodes", como afirma Lucas (Luc 1, 5), que o terceiro milénio da era crista já se iniciou há anos.

Por esta razão nos parece vã a preocupação, que têm muitos milhares de crentes, de várias igrejas e seitas cristãs, com a esperada aproximação do terceiro milénio, contado evidentemente do nascimento de Jesus, que ... já passou!

 

Octávio Castelo Paulo*

 

* – Autor de O Processo e a Morte de Jesus, Ed. Hugin, Lisboa, 1999.

 

1 Tradução de "A Bíblia Sagrada", contendo o Novo Testamento, traduzida em português, segundo a Vulgata Latina, pelo padre António Pereira de Figueiredo, aprovada em 1842, pela Rainha D. Maria II.
2 Os anjos, de acordo com as tradições persas (zoroastrismo), judaicas, cristãs e islâmicas, são seres espirituais benevolentes, que se encontravam ao serviço de Deus. A palavra deriva do grego e designava mensageiro mas os anjos também eram guardas das pessoas ou até das nações, de acordo com os teólogos ocidentais. Os judeus receberam dos persas esta tradição espiritual, que os cristãos receberam do judaísmo. O Primeiro Livro de Enoque refere-se a vários anjos, designadamente a Uriel, Rafael, Raguel, Miguel, Gabriel e Remiel, este também chamado Jeremiel, dos quais Rafael é referido no Antigo Testamento e nos livros não canónicos ou apócrifos. Na literatura rabínica os anjos eram classificados em dois grupos básicos, os superiores e os inferiores, incluindo-se nos primeiros os querubins, e os serafins. Quer em algumas cartas de S. Paulo, quer no Novo Testamento se referem os anjos e por vezes se indicam os seus nomes, como acontece no texto supra. Esta matéria foi estudada com tal desenvolvimento que ao conjunto desses estudos se chamou angeologia.
3 Cf. Gerald Messadié, "L’Homme que Devient Dieu", Vol. 2, Les Sources; Pags. 84 a 86. Mas, de acordo com Bárbara Thiering, Jesus the Man, pág. 240, Jesus pode ter nascido ou em Março do ano 7 a.C., ou então, quando teve lugar o recenseamento de Quirino, em Março do ano 6 d.C. No entanto, esta autora, a págs. 288, da mesma obra, inclina-se para que a data do nascimento se deva fixar em Março do ano 6.
4 Tradução portuguesa das Edições Paulinas, São Paulo, Brasil, Ed. 1986.




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