História

Do Mitraísmo ao Cristianimo

Os Romanos tinham diversos deuses. O número das suas divindades deve ter sido imenso. Uma parte foi retirada do panteão grego e das regiões conquistadas. Os Lares e os Penates são dos mais conhecidos. Os Lares eram os espíritos dos antepassados1. A sua função era a de proteger a casa. O culto consistia em ter uma estátua ou imagem, colocada junto à lareira, numa aedes, nicho, ou num lararium, uma espécie de oratório ou capela particular. A estátua tinha, naturalmente, um significado simbólico. A sua finalidade consistia em manter viva a memória dos antepassados e pedir-lhes protecção. Neste contexto familiar e íntimo, cada um ia desenvolvendo lentamente o seu lado espiritual. Alumiavam-na com lâmpadas, símbolos de vigilância. O fogo simboliza a alma e nunca devia apagar-se. O pai, descendente directo dos antepassados, o paterfamílias, deveria responsabilizar-se por manter vivo o culto e seus rituais2. Os Lares Compitales, ou Lares que guardavam as encruzilhadas, possuíam um nicho em cada uma delas. E os Lares Praestites, os Lares Protectores, guardavam os caminhos e as muralhas. Uns e outros lembram-nos as nossas tradicionais “alminhas”.

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No primeiro século da nossa era, as religiões de mistérios do Oriente já haviam penetrado no mundo romano através a colonização romana. Exerceram profunda atracção sobre os Romanos. E as razões não são difíceis de compreender.

Todas as práticas religiosas romanas exigiam pouco do indivíduo, além dos actos do ritual. Porém, os cultos do Oriente — caso do mitraísmo — implicavam um relacionamento mais profundo entre as pessoas e o divino. Por meio de actos de autêntico altruísmo, de meditação, de iniciação e de conduta irrepreensível, o crente conseguia atingir o conhecimento da verdadeira natureza do universo e alcançar felicidade, nesta vida e nas futuras. O processo de iniciação secreta nos mundos superiores fez com que a religião ficasse cheia de novas possibilidades, trazendo o sentimento profundo de verdadeira relação entre o homem e a divindade, aspecto em falta nos rituais romanos e na religião oficial de Roma.

Mitra sacrificando um touro. Museu do Vaticano

Mitra sacrificando um touro. Museu do Vaticano

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A religião mitraica estava já impregnada de Astrologia pela influência dos Caldeus. A superioridade ontológica da região celeste face à região terrestre e, portanto, a dependência dos acontecimentos terrestres face aos corpos celestes, ou seja, de uma cosmologia fundada na astrologia, já estava definida nesta altura. Padre António Vieira recorreu frequentemente a este ponto de vista. Leia-se o Sermão da Segunda Dominga da Quaresma5. Além disso, a utilização do Sol, como metáfora de Cristo, é também uma constante em todo o sermonário de Vieira.

Como o oráculo délfico havia reconhecido, os deuses antigos já eram uma força extinta. O budismo havia fracassado em todas as tentativas para Ocidente. O druidismo não passou de uma forma exclusivamente nacional e sem alcance universal. As iniciativas gregas de reforma, o orfismo, os mistérios, não conseguiram fornecer ao espírito alimento sólido.

O culto de Mitra foi aglutinado pelo imperador Aureliano em 270 d. C. ao culto oficial imperial do Sol Invictus (o Supremo Deus do Sol) e equiparado à divindade solar babilónica Shamash e ao Hélios grego. Tornou-se o mediador entre os poderes celestes e a espécie humana. Mesmo assim, e apesar ser uma religião suficientemente bem estruturada e dogmática, o mitraísmo também não conseguiu convencer o mundo.

Entretanto, o cristianismo surgiu numa região geográfica estratégica. Espalhou-se rapidamente para Oeste ao longo das estradas comerciais. Depressa chegou à Europa. Dava aos convertidos uma força poderosa que fornecia um incentivo para viver a vida espiritual, com base supramundana. E por isso atraiu número considerável de convertidos. Mas neste percurso acumulou numerosos elementos doutrinários estranhos. A fé recentemente adoptada assimilou muitas das crenças e práticas das antigas devoções.

Era inevitável que, baseado no princípio unificador que se traduziu na redução do número dos deuses do politeísmo a um único princípio cósmico divino interpretado como Causa Primeira, o cristianismo suportasse sucessivos confrontos com a civilização pagã até se tornar uma religião lícita, depois dominante, depois religião de Estado, depois subordinando o Estado à Igreja. Precisou de quatro séculos até alcançar o penúltimo estádio, o que evidencia a forte implantação dos cultos pagãos6.

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Em 378, Damásio, o bispo de Roma, consegue que o Imperador Graciano coloque o poder profano ao serviço da Igreja.

Cerca de dois anos depois, em 28 de Fevereiro de 380, um édito do imperador Teodósio determina: “todos os nossos povos devem juntar-se à fé transmitida aos Romanos pelo apóstolo Pedro, professada por Damásio e pelo bispo Pedro de Alexandria”. Isto implica, na prática, que apenas a Igreja Católica tenha existência legal.

O cristianismo surge como o herdeiro da sabedoria espiritual dos séculos e de numerosos cultos e sistemas religiosos rivais ou convergentes, no sentido que satisfaz as mais profundas necessidades do espírito humano. Dá algo muito mais definido e definitivo do que as outras formas religiosas que cedem o lugar à emoção, à alegoria e a certas práticas mágicas7.

Não é possível descrever aqui em pormenor esse fenómeno de apropriação e adaptação. Veremos apenas dois exemplos.

Na arquitectura, a tipologia das basílicas cristãs identifica a influência de nada menos que duas fontes culturais, distintas mas complementares, além da própria Bíblia: o Templo de Mistérios Atlante e a simbologia egípcia.

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Ao proceder assim o cristianismo intensificou a assimilação e transformação dos aspectos essenciais das religiões populares de feição animista e de cariz céltico-germânico.

Esta síntese de crenças mostra que nenhuma religião se constitui do nada e que todas as suas formas são feitas a partir de uma base e conteúdos já existentes: “à medida que um povo se civiliza, a religião torna-se mais humana e harmoniza-se com ideais mais elevados”9. E revela também que mudanças contínuas vão conduzindo a Humanidade, lentamente mas com segurança, para a “religião cristã”.10

O Cristianismo defende práticas verdadeiramente conciliatórias e inclusivistas, tornando-se uma força dinâmica em rápida expansão, daí ter sido tão bem acolhido nos ambientes novos. Acrescente-se ainda o facto do Cristianismo sustentar a ideia da perfeição do ser humano ideia apoiada num sistema moral rigoroso e num humanismo amoroso.

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Embora de certo modo distorcido pela fusão do genuíno pensamento bíblico com a cultura helenística — que levou a consubstanciar a fé nos dogmas — e, apesar de se constituir societariamente nos moldes da teocracia israelita — que levou à formação de uma Sociedade religiosa à semelhança das antigas sociedades pagãs político-religiosas onde a autoridade é exclusivamente poder —, o cristianismo tornou-se um movimento autenticamente novo na história. Impôs uma civilização original. Fundou uma nova escala de valores com novas motivações.

(Resumo do texto publicado)

F. M. C.

Notas

1 O sentido primitivo de Lare é “senhor”, “superior”.
2 Paterfamilias: o homem que não tem ascendente masculino vivo (bisavô, avô, pai) ou que, embora o tenha, é emancipado. Na família é pessoa sui iuris, isto é, independente, pois não está sujeito ao poder de ninguém.
3 Equivalente a Héstia, dos gregos; e a Agni, dos indianos.
4 Penates provém de penus, -oris, “comestíveis, despensa”. Significava, a princípio, a parte interior da casa onde se guardavam as provisões.
5 António Vieira, Sermões, Vol 3, p. 74, Ed. Livraria Chardron, Porto, 1907.
6 Pagão é o habitante do pagus, aldeia. Tem um significado que, nos primeiros séculos da era cristã, expressava a distinção entre a cidade e o campo e também a diferença entre o cristão e o camponês politeísta.
7 Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 4ª ed., Lxª, 2005, p. 131
8 Max Heindel, Iniciação Antiga e Moderna, p. 17-18; Maçonaria e Catolicismo, Cap. IV; F.R.P., Lisboa, 1997; Cf. Cr. 4; 1 Rs 6,23-26.
9 Id., Conceito Rosacruz do Cosmo, 4ª ed., Lxª, 2005, p. 249.
10 Id., Ob. Cit., 4ª ed., Lxª, 2005, p. 131.
11 É a influência do núcleo esotérico duma religião que lhe garante o desenvolvimento e a longevidade. A ideia mais próxima e capaz de evocar o que seja esse núcleo, seria a de uma influência criadora, análoga à inspiração, tão consubstancial ao espírito como a hereditariedade a corpo.

 

 

Glossário

Agni – Deus indiano do tempo védico. Era o intermediário entre os deuses e os humanos.

Alminhas – Pequenos monumentos dedicados ao culto dos mortos, frequentes nos caminhos, encruzilhadas e em lugares considerados perigosos. São pequenos nichos incrustados em muros, com paineis de azulejos, cruzes ou imagens. Fruto da religiosidade cristã, têm origem nos Lares Viales (das estradas) e Lares Compitales (das encruzilhadas). Protegem os viajantes, as terras e os casais próximos. São vulgares em todo o país, embora mais frequentes no Norte e nas localidades rurais. Portugal é o único país onde se encontra este património religioso.

Héstia – Deusa grega familiar. Foi a protectora da casa. Participava em todos os sacrifícios oferecidos pelo pai de família.

Mitra – Na religião dos persas significa “deus da luz”. Também era conhecido no Avesta, escrituras do Zoroastrismo. Situa-se a data do nascimento Zoroastro por volta de 600 a.C. Mas para muitos investigadores poderá ter sido o primeiro dos grandes profetas das religiões do mundo, no início da Idade da Pedra.

Vesta – Deusa romana do lar e do fogo. O seu culto data dos tempos mais remotos de Roma. No templo de Vesta, as sacerdotisas, as vestais, mantinham o fogo perpétuo.

 

Bibliografia

Ferreira, Cónego J. Augusto – Archeologia Christã; Livraria Povoense Editora, 1916.

James, E. O. – Os Deuses Antigos; Editora Arcádia, Lisboa, 1966.

Ling, Trevor – História das Religiões; Editorial Presença, Lisboa, 1994.

Loisy, Alfred – Los Mistérios Paganos y el Mistério Cristiano; Paidos, Barcelona, 1990.

Matos, José Luís de – Igreja Católica, o Choque de Paradigmas; Caminho, Lisboa, 2007.

Négrier, Patrick – El Templo y su Simbolismo; Kompás, Madrid, 1998.

Paiva, Almeida – O Mitraísmo; Ed. José dos Santos, Lisboa, 1916.

Ragon, J. M. – La Messe et ses Mystères Comparés aux Mystères Anciens; Paris, 1882.

Rich, Annet C – Cristo ou Buda?; Fraternidade Rosacruz de Portugal, 2010.




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