História

Um Precursor Medieval

do Brasão de Armas de João Valentim Andreae

João Valentim Andreae

O brasão da família de J. V. Andreae tem como elementos a cruz de Santo André e quatro rosas. Muitos pensam que o seu simbolismo está na origem do nome da figura de Christian Rosencreutz no Fama Fraternitatis Roseae Crucis (1614), um texto a que hoje se atribui normalmente a autoria de Andreae. O brasão de família foi concebido pelo avô de Johannes Valentin, de seu nome Jacob Andreae, ideólogo da Reforma e defensor da tradição evangélica de Lutero. Também há quem considere que o desenho das rosas e da cruz foi inspirado pelo brasão pessoal de Lutero, que consistia numa rosa branca com um coração vermelho e uma cruz ao centro. A ideia da cruz de Santo André terá ocorrido a Jacob Andreae devido ao seu apelido familiar.

Brasão de Armas de João Valentim Andreae

É, no entanto, bastante interessante depararmo-nos exactamente com o mesmo brasão num sugestivo contexto que precedeu este em muitos séculos. Num medalhão intitulado «lvx ii» que encontramos no início do Tomo V da Histoire de Lorraine de Dom Augustin Calmet (Nancy, 1752) deparamos com o brasão de Henrique do Luxemburgo. Encontra-se descrito na página cxlvii como «une croix de St. Andrée accompagnée de quatre roses» (uma cruz de Santo André acompanhada de quatro rosas). Como é fácil de observar, o brasão é idêntico ao de J. V. Andreae. Henrique do Luxemburgo foi eleito Rei dos Germanos e dos Romanos em 1308, e em 1312 deslocou-se a Itália para ser investido em Milão com a coroa de ferro de Sacro Imperador Romano.

Investidura de Henrique do Luxemburgo, em Milão, com a coroa de Sacro Imperador Romano

Após o sucesso inicial que foi a unificação da Itália contra a influência do Papa Clemente V, plano este elaborado com a ajuda do seu primo Thiebaud de Bar, Henrique morreu subitamente, em 1313. É de assinalar o facto de Dante o ter colocado no reino supremo alcançado no final da Divina Comédia. No canto XXX do Paraíso, escrito por volta de 1316, Dante vê-o (de acordo com a tradução de José Pedro Xavier Pinheiro) «ao centro áureo da rosa sempiterna [...] nos brancos véus da imensa hierarquia»:

«Nessa grande cadeira assinalada
Já de coroa que te move espanto,
Antes de teres nesta boda entrada

Será de Henrique excelso que há-de o manto
Vestir de Augusto, para a Itália vindo
Antes de afeita ao regimento santo.»

Em cantos anteriores Henrique é apresentado como o Grifo que, actuando como um imperador messiânico, salva em Itália o partido Gibelino. Ainda mais enigmático se torna o facto, de acordo com a investigação recente de Jean Hein, de Dante prever também que o filho ainda vivo de Henrique, João, Rei da Boémia, viria a ser um futuro salvador, denominado no texto como Galgo.

Será mera coincidência que o julgamento dos Templários em França tenha decorrido nestas mesmas datas (1307-1314)? O pormenor é porventura significativo, se tivermos em consideração que, quando Henrique recebeu a ordem do papa, em 1307, dissolveu a organização templária no Luxemburgo e distribuiu os seus bens pela Ordem de S. João em Jerusalém, embora sem prender os seus membros.

(...)

(Resumo do texto publicado)

Susanna Akerman
Tradução Mª B. Fernandes

 

Bibliografia

Peter Armour, Dante’s Griffin and the history of the world: a study of the earthly paradise: (Purgatorio cantos xxix-xxxiii). Clarendon Press, Oxford, 1989.

Dom Augustin Calmet, Histoire de Lorraine... depuis l’entrée de Jules Cesar dans les Gaules jusqu’à la cession de la Lorraine, arrivée en 1737, inclusivement. 7 vols. Nancy, 1745-1757

René Guénon, L’esoterisme de Dante. Gallimard, Paris, 1957.

Jean Hein, Enigmacité et messianisme dans la “Divine Comédie”. Leo S. Olschki, Firenze, 1992.

Jules Mersch, “Les Templiers au Luxembourg”, Biographie National du pays de Luxembourg Vol. 11, Fasc. XXI. Luxembourg, 1975

John Warwick Montgomery, Cross and Crucible. João Valentin Andreae




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