A Vida e a Obra de J. A. Comenius

1. - A Época e as Tradições

A obra de Coménio ilustra o melhor possível a largueza e profundidade da sua erudição. Ao estudar a história da sua cultura europeia, inspirou-se nos princípios correntes da antiguidade e do cristianismo. Contudo, ele não notou somente as ideias dos filósofos gregos e romanos comuns, tal como Sócrates, Platão, Aristóteles e outros, que tinham desenvolvido o ideal da educação universal.

Coménio citava muitas vezes autores, acrescentando a base ética e o sentido da vida na respectiva época, a que não se atribuía grande importância. A acentuação dos aspectos éticos nestes autores (como por exemplo Cícero, Séneca e outros) tinha encontrado de facto terreno propício nas tendências moralizadoras da época da Reforma checa, por meio da qual recebia e desenvolvia os ideais do cristianismo. Não é nada de admirar que o seu autor cristão preferido tivesse sido S. Agostinho, que também era muito estimado pela reforma checa. Mas Coménio referia-se também ao nome de outros autores, particularmente àqueles que se tinham reconciliado com as tradições do cristianismo primitivo e com os seus valores, tal como a simplicidade, a fé activa e a justiça social às quais a Reforma checa estava muito ligada. Coménio, instruído e formado nas tradições da Reforma checa, que é designada como a primeira Reforma europeia. Coménio tinha também grande predilecção por outras correntes da Reforma: o luteranismo, o calvinismo e o zuinglianismo, sem, portanto, aceitar a doutrina luterana sobre a salvação pela simples fé (sola fide) ou o ensino calvinista sobre a predestinação. Ele não se fechava na sua confissão, mas bebia também nas obras dos autores católicos, onde se sentia impelido para a sua criação (por exemplo: os autores do Renascimento, Nicolau de Cusa. Tomás Campanela e outros).

Apreciava decididamente o humanismo e o Renascimento, que retomaram e desenvolveram os ideais da cultura antiga. Coménio é muitas vezes qualificado de reformador humanista, se bem que esta característica seja insuficiente para abranger toda a extensão da sua obra.

Na época, houve duas sociedades europeias avançadas no plano social, político e cultural - a neerlandesa e a inglesa - que tiveram impacto positivo em Coménio. Na luta social, política e religiosa dos Neerlandeses contra o poder espanhol dos Habsburgos, uma luta coroada de sucessos, ele via um exemplo encorajador para a luta do seu povo contra os Habsburgos austríacos. No princípio do séc. XVII, no decurso da revolução neerlandesa (1566-1609), mas, praticamente, até 1648, apareceu na carta geográfica uma república neerlandesa, burguesa e calvinista, onde estava sempre vivo o espírito de tolerância legado por Erasmo de Roterdão (1467-1536), autor humanista preferido por Coménio, graças às pesquisas científicas e ao desenvolvimento cultural global, os Países Baixos atingiram, de facto, um desenvolvimento notável, que Coménio seguia com admiração.

Coménio estava a par dos escorços que tinham em vista elevar o nível a instrução em Inglaterra. O conflito entre o Parlamento e o poder dos Stuartes, durante a revolução inglesa (1640-1660), dirigida por Oliver Cromwell (1599-1658), terminou com a proclamação da república. Novos horizontes se abriram então à realização de reformas no ensino, na qual Coménio igualmente participou durante a sua estadia na Inglaterra, no princípio dos anos quarenta. Era uma situação favorável à actividade de novos inventores que muitas vezes se inspiravam na obra do filósofo inglês Francisco Bacon e nos seus incitamentos nas pesquisa científica.

Foram também registados esforços reformadores algures na Europa. Era o caso, por exemplo, da Fraternidade Rosacruz, que se propôs, como objectivo, depurar os costumes da humanidade, baseando-se no cristianismo (Coménio tinha particular respeito por J. V. Andreia, 1586-1654). Naquela época eram muitas as tentativas para melhorar o ensino do latim e reformar o sistema escolar de maneira que ficasse adequado aos conhecimentos da ciência do Renascimento.

No entanto, se quisermos descobrir as raízes da ideia do aperfeiçoamento permanente de Coménio, devemos procurá-las na Unidade dos Irmãos, uma pequena Igreja da Reforma checa, porque de facto era lá que Coménio, o seu último bispo, recebeu as bases da sua formação. A Unidade dos Irmãos viu o dia em 1457 (constituída como Igreja em 1467), depois da derrota da ala radical dos hussitas. O seu objectivo era continuar a propagação do ideal do cristianismo depurado: mas, diferentemente dos hussitas, ela optou pela via pacífica, com o espírito das ideias de Petr Chelcicky, pensador do sul da boémia. Crítico implacável das ambições políticas do papa, Chelcicky opôs-se contudo categoricamente a todos as espécies de violências. Na sua vida quotidiana e na prática, os Irmãos ligavam, com efeito, uma importância particular justamente a este aspecto pacífico. Coménio sistematizou esta prática na sua teoria sobre a cultura de toda a vida de todos os homens na sua Pampaedia.

Ao mesmo tempo, a Unidade dos Irmãos renuncia ao isolamento do mundo e os seus membros tornam-se mesmo propagadores da cultura humanista da Reforma e empenham-se na vida política. É o caso, por exemplo, de Jan Beahoslav (1523-1571), é também o caso do próprio Coménio.

A Unidade foi sempre uma Igreja minoritária (sendo utraquistas cerca de um décimo da população dos países checos, e um pouco mais de um décimo somente de católicos, Irmãos e membros doutras seitas), mas o número de escritores e de pensadores daquela época recrutavam-se precisamente entre os seus membros. A ideia do aperfeiçoamento permanente, traço característico da Unidade, foi, passado tempo, muito apreciada pelo historiador Frantisak Placky, autor da primeira biografia séria de Coménio. Os Irmãos desenvolveram esta ideia como ensino gradual de todos: os principiantes, os avançados e aqueles que aspiravam à perfeição. Pode-se encontrar aí a continuidade com a doutrina e João Hus, falando daqueles que aprendem, que progridem e que sabem (isto é, dos homens virtuosos). É com base nesta sucessão que Coménio desenvolveu o seu sistema de instrução para toda a gente.

Antes de Coménio, foi criada uma tradição importante pelos utraquistas e pelos Irmãos na confissão checa defendendo o espírito de tolerância das principais correntes da Reforma checa, sem tocar nos caracteres específicos de cada um deles. A luta nacional, política e religiosa para o renascimento da confissão checa pelos soberanos do Reino da Boémia, Maximiliano II e Rudolfo II, terminou pela sua legalização, em 1609, nas Letras da Majestade Rodolfo.

No século XVI, o Reino da Boémia, abarcando a Boémia, a Morávia, a Silésia e a Baixa Lusácia, era confrontado com enormes dificuldades de natureza social, política, religiosa e cultural. Isto marcou a vida de Coménio, assim como toda a sua época. A chegada dos Absburgos ao trono da Boémia, em 1526 e os seus esforços para formarem uma monarquia absburguesa na europa central, ao lado da ala espanhola, significaram a consolidação do absolutismo monárquico com a base no catolicismo em todos os países da Europa central. Os direitos dos estados, respeitados profundamente sobretudo no território do Reino da Boémia, foram naturalmente ameaçados por tudo isso. A primeira revolta contra os Habsburgos conduzida pelos estados checos, indignados também pelas represálias absburguesas contra as cidades dos Países Baixos, foi reprimida. Fernando I vingou-se então cruelmente das cidades. Uma das consequências disso foi também a primeira vaga de emigração. Muitos Irmãos refugiaram-se na Polónia perante as perseguições como resultado da sua participação na revolta.

O conflito entre o poder dos estados dos países checos e o poder da casa de Habsburgo, entre a Reforma e a nova catolicização (os jesuítas foram chamados a Praga em 1556), culminou na insurreição dos estados contra Fernando II, 1618-1620, no seu destronamento e na entronização de Frederico o Palatino, genro do rei da Inglaterra. Esta guerra , dita checa (1618-1620), vem a ser a primeira fase duma guerra de trinta anos para o poder na Europa. As simpatias de Coménio estavam do lado da oposição antiabsburguesa dos “corpus evangelicorum” aos quais pertenciam os países do Norte da Europa e do Oeste, principalmente a Suécia, a Dinamarca, os Países Baixos, os soberanos da Alemanha e da Inglaterra. As coligações mudavam, certamente, no decurso da guerra dos Trinta Anos (1618-1648), em particular após a entrada da França no estado de guerra contra os Absburgos (1635) e outros países a isso igualmente se ligarem, tais como por exemplo, a Transilvânia, sob o reinado dos Rakoczi.

A guerra dos Trinta Anos e a derrota dos estados checos em 1620, produziram, pois, um duro golpe não somente na nação checa na sua unidade, mas também em Coménio, pessoalmente. Perseguido na sua pátria depois de 1620, viu-se obrigado a deixá-la para sempre em 1628. Ele via com grande mágoa a fim da cultura humanística desenvolvida da Reforma no seu país, assim como a emigração de cerca de 30 000 famílias dos burgueses e dos nobres que se recusaram a renunciar á sua fé; e também a sorte dos outros habitantes (a população do campo, servos da gleba, não podia abandonar o país), vítimas duma nova catolicisação pela força. Somente determinados letrados conservaram secretamente as tradições da Reforma até ao fim do renascimento nacional checo no fim do sédulo XVII.




[ Voltar ]