A Vida e a Obra de J. A. Comenius
2.7.1 - Primeira estadia de Coménio em Leszno (1628-1641)
A Polónia é um país agrário onde a nobreza superentendia tanto no poder económico e político, como na cultura. Diferentemente dos países checos, a Reforma sempre se apresentou como uma corrente minoritária, difundida, principalmente entre os burgueses. Do ponto de vista político, o rei, que se encontrava à cabeça da maioria católica, estava dos lado dos Habsburgos. O reino de Wladyslaw IV (1632-1648) distinguia-se pelo espírito de tolerância.
Em Leszno, que estava situada junto duma importante via comercial, ligando-a com Gdansk e conhecida pelo seu meio cultural, vivia juntamente, e com tolerância, com os Irmãos checos, que tinham aí a sua corporação desde a Segunda metade do séc. XVI, os Polacos, alguns dos quais eram membros da ala polonesa da Unidade dos Irmãos (aí estava Rafael V. Leszczynski, senhor de Leszno), enquanto outros eram católicos, e havia luteranos vindos da Silésia.
Coménio está muito ocupado em Leszno. É professor no Liceu local, escreve obras filosóficas e pedagógias, trabalha como historiador da sua Unidade os Irmãos, e dá-se à publicação de prédicas. Publica também a Ordem da Unidade e o manual Praxis Pietatis; escreve os Pontos de discussões sobre a Unidade dos Irmãos, sobre os seus traços característicos; e também contra os ataques do luterano checo. Exprime-se a propósito das questões da compreensão pacífica entre os Irmãos e os luteranos (A Apologia e a Vida da Paz), etc. O seu tratado em poucas palavras sobre o contágio da peste (publicado também em versão alemã), apresenta-se como um documento importante não somente sobre os tratamentos dos doentes atingidos pela peste, mas também sobre o espírito de humanidade dos Irmãos, que assim enfrentavam a realidade.
O mais importante daquela época são os seus trabalhos pedagógicos. Em 1630, termina em Leszno a sua Didáctica, primeiramente em checo, que havia concebido quando ainda estava na sua pátria. Nos anos de 1631-1632, a situação político-militar e particularmente a ocupação de grande parte da Boémia pelos exércitos suecos e saxões, despertam em Coménio uma grande esperança de poder entrar no seu país. É precisamente nessa altura que ele encara o seu primeiro projecto no domínio de uma educação que intitula de Paradisus Ecclesiae (o Paraíso da Igreja; utiliza também o título de Paraíso Checo). Esta obra tinha como fim elevar o nível de instrução da nação checa, pela reforma das escolas nacionais. Deveria ser completado também, com uma parte prática, isto é, com manuais e informações para os professores. O único manual que Coménio chega a acabar é a Escola da Natureza, opúsculo que formula os fins, conteúdo e os métodos da educação das crianças após o nascimento até à idade de seis anos, a fim de os preparar para a vida. Dos manuais para a escola nacional, conservaram-se apenas os títulos poéticos: Violarium (Canteiro de Violetas), Rosarium (Canteiro de Rosas), Viridarium (Canteiro de Verduras), Sapientiae Labyrinthus (Labirinto da Sabedoria), Balsamentum Spirituale (Bálsamo Espiritual) e Paradisus Animae (Paraíso da Alma).
À escola latina podiam ser convenientes os seus manuais de diferentes matérias, que ele compôs, evidentemente com base na sua prática de ensino em Leszno. Alguns conservaram-se na chamada Recolha de Manuscritos de Leninegrado. Entre elas há a Geometria com a Geodesia, a Cosmographiae Compendium (manual de astronomia e de geografia), o manual de filosofia - metafísica: Prima Philosophia e a história profana e política: Historia Prophana sive Politica. Os manuais de história e de geografia existem apenas em fragmentos.
Em 1633, Coménio publicou em Leszno o Manual de Física, Physicae Synopsis, que já não era um manual tradicional duma só matéria, mas que representava a natureza em toda a sua amplidão. Tratava-se, na realidade, duma filosofia natural habitual. Não foi senão depois, no século XVII, que as ciências naturais se desenvolveram, nesta base, pela aplicação das quantificações e dos métodos matemáticos e mecânicos. Coménio detém-se, contudo, quando se abeira das disciplinas naturais. Ele parte da física conhecida por mosaico e inspira-se especialmente nas teorias de Tomás Campanella. É assim, por exemplo, que formula as suas opiniões sobre a astronomia na orientação do sistema de Ptolomeu. Depois, nos anos quarenta, aceita, certamente, a concepção de compromisso de Tycho Brahe (A Terra está no centro mas os planetas giram à volta do Sol; e todo este sistema gira à volta da Terra); mas ele recusa aceitar a Teoria de Copérnico, que começa a encontrar participantes na Segunda metade do séc. XVII. Coménio não é um naturalista, mas a natureza representa para ele uma componente importante do universo (natureza-homem-Deus). Ele procura responder às perguntas de saber qual é o sentido das coisas e dos fenómenos naturais para a vida do homem. Vemos isso na sua Didáctica, onde os fenómenos observados na natureza (curso natural das coisas,, não violência, evolução gradual) são aplicadas ao sistema educativo. Por este aproximar-se do espaço teleológico, distingue-se dos naturalistas da época, de orientação matemática.
Se Bacon procurava um novo método de estudo da natureza, e Descartes um novo método de estudo do pensamento do homem, Coménio procurava um novo método de estudo da evolução e da formação do homem e da vida da sociedade. Como não se podia apoiar numa teoria desenvolvida, ele próprio formula os princípios que fazem dele o precursor da ciência sobre o homem e a sociedade, e é o fundador da teoria da educação, a pedagogia.
Contudo, ele chega também a conclusões notáveis na sua concepção filosófica da natureza. Por exemplo, aplicando o realce de Bacon no movimento, chega a uma concepção dinâmica da evolução cósmica, à concepção da evolução, na natureza, dos organismos simples para os organismos mais complexos com o homem no ponto mais elevado. Do ponto de vista da educação, verifica a importância da actividade da criança e da actividade humana em geral - no pensamento, na expressão, no comportamento. No concernente aos princípios naturais elementares, - a substância, o espírito e a luz, a substância é para ele um princípio passivo, ao passo que a luz e o espírito representam dois princípios activos. No plano humano, o símbolo da difusão da luz identifica-se nele com a ideia das luzes da cultura.
Na época em que lhe falta a esperança de regressar á pátria, Coménio escreve ainda outras obras. Citemos, por exemplo, o Haggaeus Redivivus, onde ele se apresenta com o papel dum profeta do Antigo Testamento, que apela para a restauração da vida social apoiada numa base melhor e nos esforços com vista para tudo melhorar.
Coménio presta muita atenção à elaboração da sua pansofia, filosofia da sabedoria da vida em todos os domínios da actividade do homem. Ela não tem uma importância puramente intelectual; não é uma omnisciência, mas tem igualmente alcance moral, religioso e social para toda a actividade humana. Coménio aplica-se já na sua Didáctica Checa, e reclama para todos a instrução em tudo que é fundamental para a vida, uma educação completa a todos os respeitos. Ele permanece fiel a esta formulação dos fins em vista do conteúdo e dos métodos do ensino até ao fim da sua vida. Na Didáctica, exprime também a convicção de que o que é essencial para a vida é principalmente o conhecimento do mundo no seu conjunto. O estudo deve, pois, ser selectivo. Doutro modo, não seria possível reter todos os conhecimentos. Segundo Coménio, no entanto, esta selecção diz respeito a todas as camadas fundamentais do mundo: a natureza, o mundo do homem e as esferas espirituais, divinas. Persuadido, sob a influência da leitura das obras neoplatónicas, da possibilidade de resolver qualquer problema parcial unicamente na óptica do conjunto de todos os problemas, ele demonstra, nos quatro primeiros capítulos da sua Didáctica, que a reforma do ensino deve partir da filosofia da vida humana e da posição do homem no mundo.
Sem esperança nenhuma de voltar à pátria (os exércitos anti-habsburgueses foram repelidos da Boémia por Wallenstein), Coménio não abandona, no entanto, o seu processo pedagógico. A pedido dos polacos, dá uma visão mais geral às suas conclusões, o que permite a sua adaptação às escolas latinas. Traduz a Didáctida do checo para o latim, completa e corrige alguns capítulos, etc. e desenvolve, em capitulos autónomos, o projecto de organização de escolas, depois da idade pré-escolar até ao fim dos estudos superiores (até aos 24 anos). Termina esta versão latina em 1638 e submete-a à apreciação dos seus amigos residentes em diversos países europeus. É assim que a Didáctica Magna vê a luz do dia, embora não seja publicada senão em 1657, incluída nas suas obras completas Opera Didactica Omnia. Omnes Omnia Omnino, é assim que denomina os princípios-base da educação completa de todos. O atraso da sua publicação explica-se também pelo tom crítico de determinados juízos a condenarem Coménio, como por exemplo o facto de começar pelos propósitos mais latos da vida. Mas é precisamente a isso que Coménio se recusa a renunciar: “Com efeito, não comecei a escrever uma didáctica da arte da panificação ou da pintura; a gramática ou da lógica, ou doutra qualquer partícula das coisas dignas de conhecimento, mas sim uma didáctica da vida e é por isso que a denominei de “Grande”. É por isso que, tendo em consideração apresentar o todo, eu devia mostrar o todo e não somente uma parte; e começar a construção dos fundamentos mais baixos mas solidamente apresentados”. É com estas palavras que Coménio justifica a sua concepção em 1657 (Ventilabrum). É a partir dum largo objectivo do ensino que ela formula as exigências em matéria de conteúdo (ensino das ciências, dos costumes e do sentimento religioso) e que apresenta com precisão os métodos naturais de estudo e ensino, permitindo que todo o processo seja esclarecido, alegre, rápido e sólido. Também se utiliza largamente a comparação com a evolução natural que presenciamos na natureza (a aplicação da síncrise é um dos traços característicos da metodologia de Coménio).
É já no início dos anos trinta, quando ele reflectia cada vez mais intensamente acerca do modo de aplicação da pansofia aos problemas concretos do ensino, que Coménio apresentou a sua ideia do conteúdo do ensino como selecção do conhecimento do mundo. Criou, assim, um tipo de manual pansófico, um novo tipo de manual que, em cem pequenos capítulos, apresentava conhecimentos escolhidos respeitantes à natureza, à evolução do homem, às suas actividades materiais e espirituais, à sociedade e à relação do homem com Deus nas diferentes religiões. Intitulou esse livro de Janua Linguarum e publicou-o em 1631, primeiramente em latim. Conforme as suas recomendações, o texto podia ser traduzido noutras línguas (ele próprio publicou a versão checa em 1633). Coménio escreveu este mesmo manual ao mesmo que a Didáctica, sob um impulso exterior (o seu amigo J. Jonston tinha-lhe atraído a atenção para um manual com o mesmo nome dos monges irlandeses), mas não tinha dúvidas de que a obra reflecte igualmente as suas experiências do ensino em Leszno.
A obra Janua Linguarum deu-lhe imediatamente fama pela Europa. Apareceu em muitos países, muitas vezes mesmo vertida em várias línguas. Este sucesso explica-se pelo facto de que Coménio ligou dois problemas da época: mostrou como se pode facilitar o ensino do latim, que nas escolas era matéria importante, e outras línguas; e como reunir conhecimentos concretos num sistema. O manual foi também muito bem recebido na Inglaterra, onde um grupo de eruditos à volta de Samuel Hartlib (originário de Elbing) procurava unificar, segundo o espírito do filósofo Francisco Bacon (1561-1626), o conteúdo do ensino e da cultura em geral. Por intermédio dos Irmãos, Hartlib, quando estudava na Inglaterra, entrou em contacto com Coménio. Foi o começo duma correspondência frutuosa, que viam na sua Pansofia possibilidades de solução dos seus problemas. Eis a razão por que Coménio lhes foi ao encontro, remetendo-lhes os manuscritos dos seus trabalhos.
Coménio quer que os conhecimentos estejam adequados à idade dos alunos. Por esse facto, completa a Janus Linguarum com um manual destinado aos alunos Vestibulum Latinae Linguae (Vestíbulo da Língua Latina, 1632; não se conhecem exemplares cuja data seja posterior a 1633). Pensa também no terceiro grau, que denomina, primeiramente, de Palatium (Palácio), mas é somente nos anos cinquenta que ele consegue realizar este projecto com o título de Atrium. É assim que ele compõe a obra intitulada Templum Latinitatis (Templo do Latim), destinado às escolas secundárias latinas. A parte teórica é formada pela Didáctica latina que Coménio pretende completar com manuais pansóficos para os professores, tais como, por exemplo, Os Debates Didácticos. Publicado em 1638, este manual é dedicado aos burgueses e professores de Wróclaw. Coménio responde, assim, àqueles que pedem que lhes explique a utilização das obras Vestibulum e Janua Linguarum. Ao mesmo tempo, não pára de desenvolver o seu projecto didáctico e, no fim dos anos trinta, ele estuda já um sistema de sete graus de manuais, ideais que não chega a realizar.
A pansofia de Coménio não significava todavia, somente a selecção dos conhecimentos essenciais sobre a unidade do mundo. Conforme a intenção dos seus esforços universalistas, considerando que a pansofia diz respeito a tudo, a todos os domínios e a qualquer actividade unificadora numa base de princípios comuns, ele reflectia, a partir dos anos trinta sobre a função filosófica e metodológica. Discernindo acerca dos princípios filosóficos do mundo, ele queria unificar os espaços da actividade humana, eliminar o isolamento dessas actividades, onde o teólogo não se ocupava do trabalho do médico; onde o matemático não se interessava pela alma do homem, etc. Naquela época, as diferentes disciplinas científicas nas faculdades eram, na verdade, representantes de reinos isolados. Coménio experimentou, portanto, delinear o papel da pansofia neste processo de unificação. Denominou-a de metafísica pansófica. Esta distinguia-se naturalmente dos sistemas metafísicos conhecidos, porque ela não fechava o sistema das ciências como tinha acontecido, com Aristóteles, antes pelo contrário, formulava os princípios comuns de todas as disciplinas.
Assim é que Coménio compôs o Prodromus Pansophaie, à qual tinha dado o título de Porta Sapientiae (Porta da Sabedoria) no manuscrito, foi publicada sem o autor saber em 1637, em Oxford, com o título Conatuum Comenianorum Praeludia, prefaciada por Hartlib. A segunda edição, autorizada, foi publicada em Londres já com o conhecido título de Prodromus Pansophiae (Pródromo da Pansofia). O Prodromus desperta grande interesse na Europa; as reacções são também tão positivas como críticas ou inteiramente negativas. Alguns teólogos censuraram Coménio, dizendo que a sua Pansophia não é suficientemente cristã. Por seu lado, Coménio publica em sua defesa a Conatuum Pansophicorum Dilucidatio (Explicação dos Ensaios Filosóficos). Contudo, verifica-se que a diferente concepção de Coménio, que ele tem da unificação do ensino é determinada, em princípio, pelo seu esforço de abarcar o conjunto das manifestações humanas. O que o impede de separar as ciências da crença. Nada de admirar que ele se choque contra a desaprovação quer dos teólogos quer dos representantes das ciências naturais. Em todo o caso, se Coménio parou no limiar da ciência moderna no domínio da história da natureza, a sua tónica sobre o Todo significa uma contribuição importante para o desenvolvimento das ciências pedagógicas. De facto, naquele domínio, a unidade da educação universal e parcial, especial, assim como a unificação dos aspectos racionais e éticos, individuais e sociais, era, sem dúvida, de um grande alcance.
É possível juntar livremente ao sistema de manuais pansóficos, também o seu opúsculo Faber Fortunae (O Artífice da Fortuna), um manual das virtudes cristãs, dedicado aos filhos do conde Leszczynski, mecenas do autor. Isso também é válido para as tentativas de Coménio no domínio do texto didáctico, e particularmente para a sua peça Diogenes Cynicus Redivivus (Diógenes, o Cínico Ressuscitado), que é uma defesa da humanidade e da filosofia e a política fundadas numa base ética. As Leges Illustris Gymnasii Lesnensis, regulamento escolar do Liceu de Leszno, são também testemunho da importância que Coménio ligava ao bom funcionamento do Liceu.
Esta variedade da actividade de Coménio durante a sua estadia em Leszno seria contudo incompleta, se não falássemos das suas tentativas de construir um aparelho de movimento perpétuo - perpectuum mobile. Este aparelho constituía também o objecto da correspondência de Coménio com os seus amigos na Inglaterra, que se interessavam muito nisso e que pensavam seriamente na respectiva aplicação técnica. As experiências de Coménio, realizadas sem cálculos matemáticos, foram, todavia, votadas ao insucesso. No fim da sua vida, Coménio volta novamente a este problema.
[ Voltar ]