A Vida e a Obra de J. A. Comenius

2.6. - Refúgio na Boémia Ocidental

Coménio já não se sente seguro na Morávia e instala-se noutro domínio de Carlos Zerotin, em Brandys, na Boémia oriental. É lá que ele conclui o “Angustiado I, II”, como “a lamentação triste e nostálgica do homem cristão à beira das misérias da pátria e da Igreja”, tal é o subtítulo deste diálogo alegórico da Razão e da Fé e da busca dramática da humanidade e da paciência que devem enfrentar o desencorajamento.

A sátira mordaz contra a miséria e a tristeza do egoísmo humano, do ódio, da inimizade, e contra a hipocrisia em todos os estados e profissões no Labirinto, imagem alegórica duma cidade que um peregrino percorreu com os seus acompanhantes, é compensada a segunda parte da obra - O Paraíso do Coração. Em contacto com o mundo depravado, Coménio desenvolve aqui a visão duma sociedade harmoniosa de cristãos que se respeitam e entreajudam. A volta ao paraíso do coração significa um isolamento do mal, da mentira e da violência. Não se trata, no entanto, dum isolamento total do mundo, mas da procura da força espiritual que permitirá concretizar o esboço duma visão dum mundo melhor. O plano desta obra está inspirado incontestavelmente na leitura das obras de J. V. Andreia (o autor dos Manifestos Rosacrucianos), mas também é possível encontrar aí a influência do Theatrum Mundi Minoris de Nathanael Vodnansky de Uracov ou, antes, da Cidade Espiritual ou da Delícia da Alma, de Václav Porcius Vodnansky. Ambos datam do princípio do séc. XVII. É em 1623 que Coménio dedicou o Labirinto a Carlos Zerotín, mas só o publicou em 1631 em Leszno.

Coménio interessa-se cada vez mais intensamente pelo lugar do homem no mundo. Prova-o a sua obra Centrum Securitatis (1625, publicada no exílio em 1633). O mundo é representado aí como um organismo, o que foi um método habilmente usado pelos neoplatónicos (pelo místico alemão J. Bohme, também rosacruciano, por exemplo). Compara o mundo a uma árvore que retira a sua força das raízes escondidas, tal como tudo tem a sua base em Deus invisível. Este é o centro, a certeza da perfeição e da ordem. Qualquer desvio deste centro tem consequências funetas. O que importa é a ideia da relação das coisas e dos fenómenos no mundo, e sobre a pesquisa das relações correctas que se esclarecem a substância. Esta ideia reaparece, mais tarde, na filosofia, isto é, na filosofia de Coménio, ao mesmo tempo que a ideia dum todo, donde é indispensável partir para a pesquisa das soluções dos problemas parciais. O mal não é aí apresentado como obra de Deus, cuja perfeição embaraça especialmente a sabedoria, a bondade e o amor. O mal é causado pelas pessoas, se não despertam em si mesmas a imagem de Deus.

Nos momentos de depressão, Coménio compõe o Amphitheatrum Universitatis Rerum, de conteúdo bastante pessimista. Depois de 1625, reune todas as forças contra a adversidade sofrida nessa época de desespero. Escreve um opúsculo de divulgação da ciência e outro que tem por objectivo melhorar o nível da poesia checa (traduz os Salmos) e termina a Carta da Morávia, que se publica em Amsterdão em 1627. É possível que tenha negociado esta publicação durante a sua viagem aos Países-Baixos em 1626, durante a sua visita a Haia.

Visita a corte de Frederico, o Palatino, que se mantém, aos olhos dos exilados como rei da Boémia. Foi para Leszno, para se preparar para a recepção aos exilados. Fez uma perigosa viagem para a Morávia, com mensagens de Carlos Zerotin. Quando o seu patrono proibiu a concessão de refúgio aos sacerdotes da Unidade, Comenio mudou-se com a sua segunda esposa, Dorothee Cyrille, para Bila Tremesna, perto Dvur Kralove, na zona de Jiri Sadovsky Sloup. Durante uma visita ao castelo de Silberstein em Vicice, descobriu na biblioteca de Adam Zilvar a Didactica de Elie Bodin. Para Comenio foi como um impulso. Começou a escrever a sua própria Didáctica, não apenas uma coleção de preceitos, mas que eleva a reforma do ensino e da educação ao nível da filosofia do homem e da sua vida. Desenvolveu os princípios de uma educação sólida, mas natural e alegre, para todos os checos, desde a infância até a idade adulta.

Antes de sair da Boemia, Comenio estava interessado nas ideias e visões de Christoph Kotter. Estas ideias e visões do seu amigo de escola de Straznice, Nicolas Drabik, deu-lhe uma vida um pouco triste. Posterior publicação rendeu-lhe muitos inimigos.

Após a aprovação da nova Constituição em 1627, a vida dos não-católicos não foi mais possível nas terras checas. Mesmo Carlos de Zerotin vai para o exílio, onde morreu em 1636, em Wroclaw. Com a sua esposa e filha Dorothee Christine (1627) e as famílias Cirilo e Sadovsky, Comenius deixa o seu país, para nunca mais voltar. Mudou-se para Leszno, na Polónia, onde ficou até 1656.

É possível que antes de ir para o exílio, Comenio formulou um conjunto de idéias que desenvolveu mais tarde noutros países. Depois de 1627, Comenio viveu na Polónia (Leszno três estadias: 1628-1641, 1648-1650, 1654-1656), Inglaterra 1641-1642, ao serviço dos suecos Elbing (Elblag hoje, 1642-1648), na Hungria (1650-1654) e nos Países Baixos (1656-1670).




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