A Vida e a Obra de J. A. Comenius
2.7.7. - O Último Refúgio de Coménio em Amsterdão, 1656-1670
Nos Países Baixos, Coménio foi bem acolhido em Groningue, em Utrecht e, enfim, em Amsterdão, onde ficou. O Conselho Municipal ofereceu-lhe um posto de ensino de honra e sustento financeiro, que lhe permitiu publicar os seus livros. Do mesmo modo que depois de 1648, em que tinha escrito que das infelicidades se deviam originar as virtudes, escreve aos amigos que deseja “reunir os restos dos vasos quebrados... e pôr-se a trabalhar”. Ele começa então a trabalhar infatigavelmente. As obras anteriormente escritas para as escolas, prepara-as então para serem publicadas, como por exemplo peças de teatro, tais como Diogenes Cynicus, e refaz também Faber Fortunae, apresentando nelas um homem pansófico, sensato e harmonioso, etc.
Trabalha muito para a Unidade dos Irmãos para a qual consagra extractos das Escrituras para jovens e adultos (Manual da Bíblia), um catecismo e nomeadamente o Livro dos Cânticos, isto é, uma colecção de cânticos traduzidos e outros compostos põe ele com prefácio sobre a importância dos cantos e dos cantos religiosos em particular. É no trabalho em latim intitulado “Do Bem precioso da Unidade e da Ordem” (consagrado à Igreja Anglicana), na breve história da Igreja eslava e noutras obras que informa os estranhos à Unidade. Dez anos após o aparecimento do Testamento da Unidade, Mãe Moribunda, publica o quarto volume de O Aflito - Triste Voz do Pastor, perseguido pela cólera de Deus, que aconselha e se despede do seu rebanho disperso e moribundo (1660), uma confissão plena de tristeza pelo enfraquecimento da Unidade nas guerras, epidemias e outros sofrimentos. No entanto, segundo Coménio, os Irmãos não se deviam entregar tanto ao desespero mas sim pelo contrário, aprofundar a sua vida espiritual e cumprir o legado da ordem, jóia da Unidade, pois, como ele pensava, a Unidade dos Irmãos viveria um dia o seu renascimento. Ele próprio trabalhava com vista à grande unidade mundial.
Ele iniciou uma polémica com os “socinianos”, ou seja, com os racionalistas religiosos que não acreditavam na divindade de Jesus Cristo nem na Santíssima Trindade. Criticava também o cartesianismo, principalmente o facto de Descartes isolar a razão do conjunto das outras manifestações do homem. No entanto, do ponto de vista da evolução, as doutrinas de Galileu e de Descartes foram inelutáveis, indispensáveis para a especialização científica pela separação da ciência, e da filosofia da teologia. Coménio, por seu lado, tinha razão na proporção em que, por exemplo, a separação da ciência dos processos da evolução humana, individual e social, podem marcar a vida negativamente. Donde também a sua profunda concentração sobre a ideia da harmonia.
Coménio escreve também tratados políticos, mas encontra-se cada vez mais, desviado da verdadeira cena política. Publica, por exemplo, Angelus Pacis (O Anjo da Paz), convidando a Inglaterra e os Países-Baixos, dois países protestantes em guerra, para a reconciliação. Nesse livro, pronuncia-se pela paz e contra a guerra, contra a exploração das colónias sem ter em conta os seus habitantes, exprime, também a sua convicção que a humanidade devia ser fundamentada na pureza e na verdade.
A multiplicação das profecias e do misticismo atraem-lhe vários inimigos e até a separação de antigos amigos. Reuniu os profecias de Poniatowska, de Kotter e de Drabik num volume intitulado Lux in Tenebris (Luz nas Trevas), editado, na Segunda edição, com o título Lux e Tenebris (A Luz das Trevas), ao qual dá um sentido político. Na época, acreditava-se bastante nas revelações, particularmente no seio dos refugiados, de modo que todo esse empenho, inaceitável para os racionalistas que se começavam a impôr, deve ser estudado do ponto de vista do período histórico em que se desenrola.
Entre as inúmeras obras dos últimos catorze anos da vida de Coménio, distinguem-se dois grandes projectos, que exprimem o seu ideal de fábrica da humanidade no melhoramento das escolas e da sociedade. O primeiro, Opera Didactica Omnia, conjunto de trabalhos didácticos publicado nos anos 1657-1658, e o segundo, De Rerum Humanarum Emendatione Consultatio Catholica (Consulta Geral da Reforma dos Trabalhos Humanos), conservado em manuscrito em estado fragmentário.
As Opera Didactica Omnia reúnem, em quarto volume, os trabalhos didácticos e pansóficos, principalmente a sua Didáctica, que dada da sua primeira estadia em Leszno (I) e das estadias em Elbing (Elblag II) e Sárospatik (III). O quarto volume contém textos novos, escritos provavelmente em Amsterdão, nos anos de 1656-1657. Coménio resume nelas as dificuldades da sua vida; passa revista às suas actividades (Ventilabrum Sapientiae), e formula um programa para o futuro (Traditio Lampadis). Nos trabalhos puramente pedagógicos, define resumidamente os princípios básicos do seu novo método de ensino, e desenvolve principalmente o princípio do natural, a unidade dos objectivos, do conteúdo, dos métodos e dos meios de ensino, bem como a unidade existente entre a teoria e a prática, o saber, o querer e as capacidades de agir simples e correctamente. (E Scholasticis Labyrinthis Exitus, A Saída dos Labirintos Escolares). Na obra intitulada Typographaeum Vivum (A Tipografia Viva), ilustra o bom funcionamento dessa escola e apresenta um método de ensino fácil do latim no seu Latium Redivivum (Latim Ressuscitado). Queixa-se com frequência do facto de que o seu ideal de escola enquanto “fábrica da humanidade”, “Jardim do Estado”, e “Abertura a Toda a Vida”, limita sempre um objectivo que se deve realizar (Paradisus Juventutis Christianae Reducendus, Como Formar o Paraíso na Juventude Cristã.
Paralelamente, Coménio esforça-se por terminar a sua Consulta Geral. Com efeito, em Leszno, tinha conseguido salvar, pelo menos, os rascunhos dos seus dois primeiros volumes, a Panegersia e a Panaugia. Durante a viagem de Leszno a Amsterdão, parou em Hamburgo, onde mandou fazer as respectivas cópias. Primeiramente estas duas obras foram traduzidas em francês e apresentadas a Laurent de Geer. Elas publicam-se nos anos de 1662-1664. Coménio publica ainda um exemplar espécime completado com o segundo prefácio da Pansofia, oito capítulos da Panorthosia e menos de treze capítulos da Pannuthesia. As passagens quiliásticas da Panorthosia provocaram uma viva crítica a Coménio da parte de Samuel Maresius, professor de Groningue. De facto, os dois últimos anos da vida de Coménio foram pesadamente marcados pela polémica entre estes dois eruditos. Por outro lado, é precisamente graças a isso e, em particular, aos argumentos de Coménio, utilizados em sua defesa, que hoje não estamos mal informados dos pormenores da sua vida (Continuatio Admonitionis Fraternae, A Continuação da Admoestação Fraternal).
No prólogo da Consulta (Europae Lumina, As Luzes da Europa), Coménio exorta as personalidades ilustres dos países europeus, mas também todos os outros homens e participarem nas consultas para mudar as ideias sobre a situação, para procurar melhorar o estado da humanidade, para unir os esforços com vista ao conhecimento objectivo e à educação em geral, ao bom procedimento dos homens e à boa relação com a Natureza e com vista à boa participação perante Deus, perfeição suprema.
O primeiro volume, a Panegersia (O Acordo de Todos), anuncia o intuito do melhoramento das coisas humanas, isto é, a filosofia, a política, a religião, propõe meios de acabar com as guerras e recomenda pôr em evidência diferentes formas de cooperação internacional. A Panaugia (O Esclarecimento de Todos) refere-se aos métodos da reforma de tudo e de todos, completa e no todo (Omnes, Omnia, Omnino). Segue-se a Pansophia (A Sabedoria Universal) e sete volumes, à qual Coménio queria dar o nome de Pantaxia, visto que ela continha um sistema coerente de conhecimentos do mundo como um todo; tantos princípios, cujas chaves principais são: saber, querer e poder (scire, velle, posse), como conhecimentos das coisas e dos fenómenos concretos. Os princípios do mundo (ou a metafísica pansófica) são formulados na primeira parte do Mundus Possibilis (Mundo Possível). A construção do universo explica-se nos outros sete “mundos” (ou graus que descrevem no quadro da evolução cósmica: o mundo divino, pelo mundo angélico e natural; o mundo da actividade humana, até ao mundo eterno, a posição e o papel do homem no processo de melhoramento. Na Pampaedia (Educação Universal), Coménio evoca a sua teoria da cultura permanente nas “escolas da vida”, desde o nascimento até à velhice e à morte. A sua Panglottia (A Preocupação de todos sobre a Língua) trata dos meios da compreensão internacional e contém também o projecto duma língua universal, clara, exacta e fácil de aprender. O sexto volume, a Panorthosia (Melhoramento Universal), abre o caminho do melhoramento da sociedade por intermédio das instituições. Coménio não se contenta apenas com o simples melhoramento das famílias, das escolas, da Igreja, do Estado, mas também propõe constituir tribunais internacionais - colégios de homens eruditos encarregados de propagar a cultura em todas as nações e de se representar as nações de todo o mundo, um espaço para tratar da paz internacional e um concelho mundial das Igrejas, autorizado a discutir as questões litigiosas de ordem política, filosófica e eclesiástica. Na Pannuthesia, Coménio exorta todas as pessoas a organizar conferências e a realizarem os respectivos resultados na prática.
Coménio tinha encarregado o seu filho Daniel e o seu amigo Christian Nigrin da publicação da sua obra, mas foram vãos os seus esforços neste sentido. Nigrin copiou o manuscrito e procurou publicá-lo, em 1702, em Halle, com Justus Docemius, amigo de Coménio. Pela falta de interesse, foi suspensa a publicação dos cinco últimos volumes. O manuscrito encontrou-se depois nos arquivos do Orfanato de Halle, onde ficou esquecido. Em 1795, numa das suas Cartas, de sustentáculo da humanidade, o filósofo J.G. Herder aviva a memória de Coménio e depois, em 1829 o historiador Frantisek Polacky, começa a estudar sistematicamente a sua vida e obra. Ao mesmo tempo, há quem se ponha também a procurar o manuscrito da Consulta Geral (J. Kvacala). Descoberto em 1934, por D. Tschizewski, publica-se o original latino da Consulta, pela primeira vez, em Praga, em 1966.
O legado de Coménio compreende outros manuscritos. Citemos por exemplo, o Triertium Catholicum (A Tripla Arte Comum), que trata paralelamente do pensamento, da linguagem e da acção (a lógica, a gramática e o pragmatismo) e sublinha a necessidade de harmonia entre estes (publicado em 1681, com o título de Janua Rerum, que Coménio já não chegou a publicar em vida). Os seus jornais ficaram conservados apenas em fragmentos, tal como um extracto da sua agenda de trabalho de 1646 e das notas relativas à sua obra Clamores Eliae (Os Gritos de Élia).
Dois anos antes da sua morte, Coménio publicou também o livro Unum Necesarium (Uma Coisa Necessária), Pela procura da verdade e da justiça, da liberdade, da ordem e da concórdia, o homem sai dos labirintos da vida para a paz. Laborioso e cheio de amor, de paciência e de tolerância, vai à procura da sabedoria da vida e, por consequência, da boa relação com a natureza, com os homens e com Deus. “Como são imprudentes os que se entregam inteiramente às coisas inúteis e põem de lado as coisas necessárias”!
Coménio faleceu em 15 de Novembro de 1670, em Amsterdão. Foi enterrado em Naarden. Nessa época, tinha-se ele declarado como o “homem de aspiração”. Acrescentemos o seguinte: tratava-se da aspiração ao aperfeiçoamento de tudo.
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