Provérbios Explicados
Adagiário Português
A investigação das origens e comparação de adágios, adivinhas, jogos, canções populares e outras tantas manifestações de sobrevivência cultural social, em vez de um simples quebra-cabeças, constitui um critério seguro, e talvez único, não só para reconstituição de muitos factos cuja interpretação tem sido até hoje impossível, mas ainda, e principalmente, para a definição das características de um povo e a destrinça das grandes migrações do passado, terminantes do povoamento do mundo.
Nos adágios não se contém apenas uma lição de história, das leis, dos usos e costumes, mas também, e sempre, um tratado muito completo da psicologia peculiar de cada povo. Os adágios de origem nacional agrupam-se em certos casos por tal maneira que, embora pareçam desconexos, uma análise mais pormenorizada permite correlacioná-los numa única ordem de ideias.
Sabido é que o rei D. João III, ao fim de largas e arrastadas negociações com Roma, viu coroado de êxito o seu ardentíssimo desejo de introduzir em Portugal os tribunais da Inquisição e do Santo Ofício que durante três bons séculos nos afligiram e torturaram, semeando por todo o país o pavor nos ânimos e deprimindo o carácter deste povo.
De tudo isto apenas nos restam em documentação escrita apenas as Crónicas e os maços de processos arquivados na Torre do Tombo, além de vários relatos mais ou menos modernos que por aí descrevem, às vezes sem grandes investigações e ainda menores escrúpulos.
Mas a lembrança dos horrores a que eram submetidas as vítimas dos tremebundos tribunais sobrevive na memória do povo português em ditos e adágios cujo sentido inicial a respeito de alguns já se encontra inteiramente obliterado. O anexirismo português contém, por assim dizer, um tratado relativamente completo das torturas praticadas no extinto regime inquisitorial.
Assim, por exemplo, quando se fala em desabono da honra da virtude ou da dignidade de alguém, é frequente dizer-se que estão a pôr-lhe a careca à mostra.
Serão muitos, porém, os que, recorrendo a este dizer, ainda sabem do tormento a que ele inicialmente se referia?
Contudo, nos séculos XVI, XVII e XVIII, rapar a cabeleira, pôr, enfim, a calva à mostra, aos que caíam nas malhas do temível Tribunal, constituía a primeira preparação a dar à vítima, ainda antes dele ir responder aos interrogatórios que a conduziriam aos tormentos para confissão de crimes, praticados ou não.
Hei-de pô-lo a assar, diz-se frequentemente como ameaça de castigo, já inconsciente reminiscência dos velhos métodos onde as carnes dos condenados rechinavam ao calor das labaredas.
Fí-lo andar com a cabeça à roda. É expressão de sentido moral com que, sem querer, se alude a uma das várias formas usadas para entontecer os pacientes: a roda.
É certo que actualmente já não se emprega o velho rodízio do Santo Ofício, onde a tortura ressaltava de milhares de voltas dada em torno de um eixo, mas incutem-se ideias, quantas vezes desvairadas, com que se obtêm fins quase sempre inconfessáveis, que tanto podem prejudicar um indivíduo como uma família ou mesmo uma sociedade, quando conseguem generalizar-se em corrente de opinião.
E em certos casos têm as pessoas o hábito de negar... a pés juntos, mal pensando que com este modo de dizer se relembra a posição forçada dos que tinham de sofrer tortura aos pés para a confissão obrigada das culpas.
Falando do invejoso diz-se ainda que ele não pode ver uma camisa lavada a ninguém, embora com absoluto desconhecimento da razão inicial do dito. Quem, porém, se der ao cuidado de examinar as denúncias feitas à Santa Inquisição, no século XVI, notará que constituía motivo de queixa, prisão e processo, e às vezes de castigo, o vestir camisa lavada aos sábados, o que era então, principalmente por motivo de inveja das riquezas dos judeus, tomado como sinal de judaísmo, visto os israelitas guardarem os sábados como dias santificados e não os domingos.
A reminiscência dos mais vivos flagelos sobrevive ainda na tradição oral em frases cujo sentido se vai esquecendo.
Mas basta de exemplos para mostrar como as multidões, subjectivamente impressionadas pelas grandes ocorrências sociais, sobre elas constroem maneiras de dizer que sobrevivem aos factos que lhes determinaram a formação, para atravessar séculos, já com o esquecimento dos intuitos primitivos e até com objectivos diversos daqueles para que foram criados.
Ladislau Batalha
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