Saúde e Nutrição
Alimentação Saudável
"Tempo virá em que os seres humanos se contentarão com alimentação vegetariana e julgarão a matança de um animal inocente como hoje se julga o assassínio de um homem"
Leonardo da Vinci
Da minha infância trago memórias inolvidáveis relacionadas com animais; porque a minha avó materna era dona de uma quinta onde a criança que eu era passava parte das suas férias grandes e da Páscoa.
E recordo-me de um episódio relacionado com a matança de um coelho que a minha avó iria preparar para o almoço do dia seguinte.
Assisti na estupefacção e horror dos meus seis ou sete anos às tentativas que ela ia fazendo para matar o referido animal até me expulsar do cenário. E recordo-me das suas palavras: "O coelho não morre porque tu estás cheia de pena dele!".
Obviamente, nunca consegui comer coelho!
Em todos os tempos houve seres humanos tão inteligentes, sensatos, visionários e sábios (e também tão solitários) como da Vinci.
Virá o tempo em que nos tornaremos vegetarianos – e alguns julgarão tal facto como uma imposição devido às doenças que porão em risco a saúde pública. Contudo, a verdade é que não precisamos comer carne para nos alimentarmos. Não precisaremos matar os animais para sobrevivermos.
A natureza, muito sabiamente, fornece-nos os nutrientes necessários para uma alimentação sã.
Os cereais: do ponto de vista nutricional, são o alimento mais completo. Durante milhares de anos, foram alimentos básicos para o ser humano. Possuem 6 dos 8 aminoácidos mais importantes. O seu consumo deverá ser diário e deverá representar 40 a 60% das nossas refeições.
O arroz integral, por exemplo, já não é aquele cereal que necessitava de uma hora de cozedura e ficava duro e pouco apelativo ao paladar.
O arroz integral, cozido com legumes cortados às rodelas ou em pedaços finos – tais como cenoura, pimento, ou mesmo ervilhas – constitui um prato delicioso. Experimente-se, depois de o cozer, colocá-lo num pirex ou recipiente apropriado para o forno, com uma colher de azeite, temperá-lo com coentros, salsa ou quaisquer outras ervas aromáticas, sementes de girassol e levá-lo ao forno cerca de vinte a trinta minutos.
Não esquecer que este cereal é rico em proteínas, ferro, cálcio e vitaminas do grupo B.
Muitas vezes combino o cereal com leguminosas – o que, em conjunto constitui o equivalente da carne. O feijão de azuki, por exemplo. É altamente nutritivo, recomendado também nas estações frias e excelente quando acompanhado de abóbora e verduras, como por exemplo, espinafres escaldados.
Deve ser sempre demolhado com uma pequena tira de alga kombu – que facilita a sua cozedura e impede a formação de gases e consequente flatulência – e deverá mesmo ser cozido com esta alga.
A alga kombu – que pode ser comprada em pequenas embalagens e se encontra nos estabelecimentos ditos de "produtos naturais", tem um prazo de validade muito alargado porque é hidrogenizada e conserva-se no frio (frigorífico).
Esta alga é riquíssima em iodo, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e vitaminas A, B, C e E.
Mesmo assim, se pensar que falta algo a esta combinação, poder-se-á sempre optar pela soja: em grão ou como tofu (feito a partir do grão de soja e tem o aspecto de queijo fresco) por exemplo. Como temperar a soja ou o tofu? A soja em grão, que deve ser demolhada antes de cozinhar, pode ser temperada nos mesmos moldes que se tempera carne, ou seja, com sal, pimenta, ervas aromáticas.
Eu tempero-a quase sempre com ervas aromáticas (coentros, orégãos, ervas de Provença) e sumo de laranja ou limão. Mas as opções são variadas. A soja adquire o sabor dos temperos. Estufá-la com tomate e pimentos – e fica deliciosa.
Habitualmente, e com alguma regularidade, costumo estufar cenoura e courgette aos cubos, cebola, alho, temperos de ervas, um pouco de gengibre ralado e espinafres. Enquanto estes ingredientes vão cozinhando, pego numa abóbora menina (daquelas pequenas, de tamanho de uma meloa e casca cor de laranja ou amarelo torrado)1, recorto uma tampa na referida abóbora e através desta retiro-lhe as sementes, lavando-a convenientemente. Recheio-a com o preparado que foi a estufar e levo-a ao forno num recipiente apropriado onde ficará cerca de meia hora ou até a casca começar a abrir pequenas frechas.
É servida quente. Para além do aspecto estético – porque os olhos também comem! – é um prato delicioso que poderá ser consumido por si só ou acompanhado de arroz.
Afinal, sempre somos mesmo aquilo que comemos!
As opções são inúmeras, nomeadamente para quem queira saber um pouco mais acerca de alimentação vegetariana ou macrobiótica, já que existe um reconhecido instituto que se debruça sobre essas matérias, em Lisboa. Aí se fazem workshops sobre alimentação e culinária onde se aprende a confeccionar pratos deliciosos. Para além disso, as palestras de entrada gratuita sobre várias temáticas associadas à alimentação são sempre uma mais-valia. Junto deste Instituto aprendi muito sobre a confecção criativa de pratos vegetarianos e de cozinha macrobiótica.
Obviamente que a questão de "não comer carne" não se prende apenas com a temática da saúde – apesar de sermos inteiramente responsáveis pelo nosso corpo e termos a obrigação de o cuidar devidamente. Nenhum ser que se diga – ou pretenda – ser espiritualmente mais evoluído deverá comer a carne dos animais. Tal facto é, sobejamente bem explicitado no Conceito Rosacruz do Cosmo que me abstenho de fazer quaisquer aditamentos a matérias tão bem expostas. Assim, e para além disso, a natureza é perfeita – também não precisa de comer carne para sobreviver!
Para que não tenhamos mais pena do coelho que não queria morrer...
Anabela Leandro dos Santos
Novembro de 2005
Notas
1 Em Lisboa, aos sábados de manhã, na Praça do Príncipe Real, realiza-se um pequeno mercado de produtos naturais.
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