Saúde e Nutrição

Cautela e Canja de Galinha?


E esse gigante latagão corado
Era, como os santos ermitões, frugal:
Duas azeitonas, queijo do seu gado,
E da rala escura meio pão migado
Num caldeiro de água com azeite e sal.

Não jantava morte, assassinato, dores,
Hecatombes tristes que jantamos nós;
E por isso ria como riem flores

Guerra Junqueiro



Já vai longe o tempo em que as galinhas eram comidas só em dias de festa. Constituíam então um petisco, tanto mais apreciado quanto raramente se oferecia ensejo de lhe meter o dente. Além das ocasiões festivas que, infelizmente, não eram tantas como seria de desejar, só quando havia alguém doente em casa.

Tal oportunidade de comer galinha não podia de forma alguma ser deixada passar em falso. A galinha, a galinha mais gorda, era sacrificada em atenção ao doente que estava a caldinhos, coitado, e tinha assim direito à sua canjinha.

Tirando o leite e os sumos de laranja, nenhum outro alimento bebível havia que pudesse ser dado aos doentes. Dessa escassez de alimentos próprios para enfermos e da insofismável necessidade de arranjar uma boa desculpa para os sãos trincarem a galinha nasceu o provérbio que tem vindo até nós, embora não seja necessariamente verdade que "caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém". Com efeito, à luz dos conhecimentos médicos e dietéticos actuais, verifica-se que a canja nada possui que a recomende como alimento. Nem para as pessoas com saúde é recomendável, quanto mais para os doentes!

Araújo Ferreira




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