EDITORIAL
O Sentido da Vida
Era uma vez um país que passava por grandes dificuldades. Quanto mais os seus habitantes lutavam para se libertarem das condições que lhes foram impostas, mais as soluções pareciam ineficazes.
Durante muitas décadas, viveu-se nesse país aquela paz dos cemitérios. Era como um "mar morto", onde não havia ondulação alguma, onde as águas eram densas e pesadas, cheias de fermentação como num pântano. Em nada se pareciam com as águas leves e cristalinas como tudo quanto é vida.
As doenças daquela nação eram evidentes. Havia um grande número de pobres e outros que destruíam os excedentes. Muitos estavam sem emprego e as pretensões dos operários eram, muitas vezes, impróprias.
Neste país, económica e espiritualmente confuso, havia ainda outras doenças: a "sida", que é como quem diz, uma doença do (mau) comportamento e sem cura, e a droga. Até as cidades do interior estavam a ser invadidas por esta nova peste.
Os aviões, às vezes, não voavam. Ninguém sabia bem porquê. Havia quem fizesse negócio a vender histórias de pessoas infelizes no amor, que viviam em reinos distantes e com outros assuntos fúteis. E, pior do que tudo isto, parecia não haver nenhum princípio condutor e nenhuma política capaz de fazer aqueles cidadãos orgulharem-se de lá viverem.
Procurava-se alimentar nesses habitantes um único objectivo: a felicidade do supermercado, isto é, a de quem compra ou de quem vende alguma coisa. É um truque muito usado como panaceia para sair de qualquer crise. Tempos depois, as pessoas continuavam a estar divididas entre as que tinham e as que não tinham. A preocupação do Estado parecia resumir-se numa única coisa: produzir, fosse lá o que fosse: útil e inútil, prejudicial e até mortal.
Bem vistas as coisas, todos estes problemas, económicos e até políticos, têm as suas raízes num problema de finalidade, que é, no fim de contas, um problema religioso. De facto, as religiões institucionais não têm conseguido aplacar a angústia das três perguntas vitais: "Quem somos", "de onde vimos", "para onde vamos?". Para apaziguar esta angústia não basta recorrer à crença. Para os modernos, a crença está separada do conhecimento racional. Quando se crê em qualquer coisa é porque não se está seguro disso. Quando se está certo de alguma coisa, não se diz que se "crê", mas que "se sabe". E este saber não é o saber abstracto, mas uma relação existencial, uma experiência concreta. Conhece-se assim o bem e o mal, as coisas como as pessoas, e tudo o mais.
E, assim, se estivesse enriquecido com esse conhecimento, que é o do esoterismo cristão, esse povo poderia compreender as causas de todas as suas mazelas. Mais ainda: saberia que, sendo cada um e todos construtores do futuro, individual e colectivo, a sua nação não teria sido aquilo que teve de ser, mas aquilo que dela quisessem fazer.
F. C.
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