FILOSOFIA

Fatalidade e Destino

Em todas as línguas existem duas palavras que despertam profundo interesse e convidam, com frequência, à meditação. Essas palavras são usadas indistintamente para significar "predestinação" ou o eterno mandato de Deus, justo, que predetermina a experiência que se deve obter, de acordo com a sua vontade e não com a do homem. Estas palavras são fatalidade e destino.

A "fatalidade"1 está quase sempre associada com o horrível, o tétrico, o trágico. Por exemplo: dizemos ser "fatal" uma vida fortemente obscurecida, cheia de tristeza e sofrimento. O "destino" parece exprimir alguma esperança, como seja o de fama, a fortuna, a felicidade ou a glória. Em resumo: o que está destinado a realizar-se.

Hesíodo, o mestre da poesia grega dos antigos tempos, fala das três fatalidades e chama-lhes "filhas da noite". São: Cloto, a que tece o fio da vida, Láquesis, a que determina as partes da vida; e Átropo a que ministra o inevitável2. Estes três deuses personificam o passado, o presente e o porvir ou futuro. E constituem, no conceito pagão das divindades olímpicas, o domínio sobre os mortais.

De harmonia com os ensinamentos rosacrucianos, a fatalidade deve ser encarada como sendo as três fases do destino:

1ª – O destino maduro, pronto para ser recolhido, que nem sempre pode ser interrompido nem evitar-se. É fatal!

2ª – O destino que se liquida à medida que caminhamos na estrada agreste da vida, o que se apresenta como resultado das nossas transgressões diárias.

3ª – O destino tecido sob a iniludível lei da causa e efeito, pelos nossos próprios actos em vidas passadas e na presente. Este, até certo ponto, pode ser modificado ou contrariado.

O presente é o ponto de convergência do passado; o futuro, ou Destino, é a acumulação de acções anteriormente praticadas e então convertidas em destino maduro, pronto para ser cumprido. Os nossos procedimentos de agora determinam, por isso, o nosso destino ou condições futuras. Poderemos ter escasso domínio sobre o que fizemos no passado e que chega ao clima da sua consequência no presente, e isto é o que constitui a nossa fatalidade: Mas, até certo ponto, nós podemos governar e regular o que vamos fazendo. E isto constitui o que chamamos o nosso destino. Assim é que, podemos dizer, o Destino começa no momento presente, sempre que, instante a instante, temos alguma coisa para fazer, dizer, ou para julgar. E de acordo com o que escolhermos ou aceitarmos, assim será o nosso destino.

Nem sempre são a seriedade ou importância dos factos o que determina e actua em nosso Destino. Pode ser, e frequentemente é, alguma coisa a que não ligamos importância: uma palavra, um gesto, inimizade, exagero, disputa e, por fim, luta. Uma palavra ou frase alterada e imprudente pode ser a causa de uma cor oculta num coração, e a responsável por uma grande miséria quando se transmite de boca em boca. A lei de causa e efeito não deixará de actuar. Ela é tão imutável e eterna como a lei da gravidade. Uma vez que o acto se tenha consumado, a reacção virá algum dia, de igual modo e tão seguramente, como a pedra que foi lançada ao ar volta novamente à terra. A Bíblia informa-nos: "não te enganes; Deus não pode ser enganado: o que o homem semear, isso mesmo colherá". E Max Heindel também nos ensinou que, de harmonia com a imutável lei de causa e efeito, coisa alguma pode vir até nós, se não a tivermos antes merecido. De acordo com essa lei, não podemos recolher nem mais nem menos do que semeámos, bom ou mau.

Todas as nossas tentativas de fuga à responsabilidade das nossas acções serão fúteis, pois, ainda que passem muitas vidas sobre o que fizemos, as forças do destino estarão sempre latentes até ao seu amadurecimento completo. E então faremos, sem dar por isso, a recolha dos frutos que semeámos, porque, "ainda que os moinhos de Deus sejam muito lentos, o seu trabalho é perfeito"! Não há castigo, nem vingança, nem retribuição, mas a justiça eterna a actuar por si mesma e a cingir-nos sempre ao que somos e ao que fazemos, quer seja bom ou mau.

Max Heindel informa-nos ainda: "Nós, como espíritos, somos imortais. Cada nascimento é um dia na escola da experiência. Estamos a tecer o nosso destino através do oceano do tempo. E assim vamos fazendo o nosso vestido luminoso de glória, ou de trevas, tudo dependendo da nossa actuação neste mundo, do nosso trabalho para o bem ou para o mal".

"Quando semeamos um pensamento, preparemo-nos para recolher a sua reacção. Com ela se vai formar um hábito. E com os hábitos se molda o carácter. Por sua vez, com o carácter é que se forma o destino".

Portanto, o carácter está associado ao destino! E o carácter é o produto das experiências da vida. A definição da experiência é: "conhecimento dos efeitos emergentes das acções".

O carácter é duplo na sua estrutura: princípios inculcados por uma vida cheia de rectidão e pensamentos construtivos, por um lado; vontade que realiza efeitos, por outro.

A experiência deve ser conquistada, mas podemos escolher os meios de a conseguir, e estes tanto podem ser a senda amarga, a via dolorosa, como a observação das acções de outras pessoas, o raciocínio, a reflexão, de maneira que possamos guiar-nos à luz vinda de outras experiências que já realizámos.

"Nem o prazer nem a tristeza constituem a nossa rota ou destino final; só o nosso comportamento actual, as nossas acções, é que podem influir para que em cada manhã nos encontremos bastante mais longe que hoje".

Não há fatalidade inexorável decretada por um capricho divino! A causa de todo o sofrimento e limitações da humanidade não são mais que o produto do mau uso dos atributos conferidos por Deus e da vontade livre de cada um de nós. O livre arbítrio é, na realidade, o fiscalizador de nós mesmos. Sempre que fazemos uso dele e orientamos os nossos pensamentos e sentimentos, podemos dominar os nossos defeitos, evitar as nossas faltas, e assim avançarmos muito mais rapidamente no caminho da evolução. Por isso mesmo se diz: "Aquele que dirige o seu espírito é maior que o vencedor duma cidade".

A meta final da evolução do homem é a divindade, pois ao fim torna-se uno com o Pai, e a divisa da divindade é o livre arbítrio, Portanto, todo o nosso esforço deve convergir no sentido da perfeição, o que se consegue libertando-nos de todos as embaraçosas dívidas do passado.

Devemos, portanto, aprender a sofrer, pois, sabendo que toda a angústia, assim nascida, desatará as ligaduras do passado depois de nos haverem subjugado, daremos as boas vindas a pessoas e experiências que anteriormente desprezávamos como antipáticas e indesejáveis. Nós mesmos formámos estes laços, e se os aceitamos e reconhecemos como provas e lições que devemos aprender, acharemos que não encerram tanta dureza como à primeira vista parecia. As tentações, provas e obstáculos postos em nosso caminho para medir as nossas forças, podem ser realmente exames subtis e directos dos nossos exaltados mestres, que desejam saber o grau das nossas possibilidades, se estamos débeis ou fortes, enfim, se já possuímos o poder moral bastante para sermos elevados a novas dignidades.

A capacidade de sofrer as provas e tribulações com calma filosófica é o sinal externo de um carácter nobre, e o maior exemplo de tal força é Jesus. Pela mesma prova, podemos dizer também que, verdadeiramente, as qualidades de nobreza ou vilania da alma se provam e saltam à vista, quando se confere a uma pessoa algum grau de autoridade ou de alta posição. Esta frase de Abraão Lincoln ilustra bem o que dissemos: "Quase todos os homens podem suportar a adversidade, mas se desejas conhecer o carácter de um homem, dá-lhe poder".

Como o ponto focal do espírito é a mente, é claro que, por meio dela, podemos dirigir os nossos pensamentos criadores ao longo de uma nova linha de esforço construtivo. O primeiro passo é constituído pela decisão de fazer esse esforço. Então, de modo consciente, ordena e planeia as nossas vidas mais em harmonia com as leis de Deus. A observação e a concentração, assim como a meditação, são os efeitos que a adornam. Por costume (repetição) certamente, os pensamentos frequentes possuem realmente o poder de moldar a matéria; assim também, por costume (repetição), "a acção do amor e da cooperação podem, pouco a pouco, mudar as condições feias e desagradáveis, noutras mais formosas e edificantes, e por fim num estado ideal do ser".

Ella Wheller Wilcox disse-nos a tal respeito:

"Construímos o nosso futuro, pensamento por pensamento.
Escolhe, pois, o teu destino – e espera.
O amor te trará amor, e o ódio, ódio".
O amor é a verdadeira primavera do nosso ser.
O amor é o dissolvente universal de todos os males.
O amor perfeito afugenta o temor
Para o bem ou o mal – ainda mesmo sem o saber. Assim está escrito no Universo".

Francisco Marques Rodrigues

 

1 A etimologia de "fatalismo" leva-nos ao termo latino "fatum", fado, destino, que deriva, por sua vez, de "fari", "contar, predizer, profetizar", como já observa Varrão. O fado seria assim uma "enunciação" divina. A língua grega possui um presente que corresponde a fatur, "ele diz, prediz". A raiz encontra-se também no inglês antigo boian "vangloriar-se", arménio bay, "diz ele", eslavo antigo baliji, "bruxo, feiticeiro", donde "médico", etc. Fatum, o fado, o destino, mais empregado no plural fata,-orum, tem correspondente semântico em grego na palavra heimarnén, "partilha, necessidade". É da mesma família de Moira, "parte que toca a cada um, quinhão, Destino", já que ambos procedem do verbo meíresthai, "receber uma parte, tomar a sua parte, partilhar". Moira é a projecção de uma lei que nem mesmo Zeus pode transgredir, sem colocar em perigo a ordem do cosmo.
O fatum, personificado e divinizado com o sentido de "destino", fez jus na línguagem popular a um masculino fatus e principalmente a um feminino, fata, que, nas línguas românicas, se perpectuou com a acepção "fada". Foi com o significado de "falar, predizer", do verbo fari, que o fado passou a designar a vontade expressa pela "palavra" de um deus, a sua decisão irrevogável e inexorável, revelada pelas Parcas. Entre os gregos, Moira projectou-se nas três Queres (agentes da morte, semelhantes às Harpias) e nas Moiras (Cloto, Láquesis e Átropos). As Parcas latinas foram as suas hipóstases. Na literatura grega, (Ilíada), ora Zeus se identifica com a Moira, ora parece conseguir modificá-la, ou, simplesmente, lhe fica totalmente submisso. Na literatura latina (Eneida), o problema é exactamente o mesmo. Cf. António Freire, Conceito de Moira na Tragédia Grega, Braga 1969; Junito Brandão, Dicionário Mítico-Etimológico, vol. II, Petrópolis, 1992. (N. da R.)
2 Eis as suas funções, de acordo com a etimologia: Cloto, do verbo klodein, "fiar", é a fiandeira por excelência. Segura o fuso e puxa o fio (o filme) das vidas passadas (átomo-semente). Láquesis, do verbo lankhánein, em sentido lato, "sortear", é a que enrola o fio e, no conceito popular, sorteia o nome de quem deve perecer; relaciona-se com a escolha antenatal dos acontecimentos, os pormenores da vida seguinte e a gravação das cenas no corpo vital pelos Senhores do Destino (Cf. M. Heindel, Conceito R. do Cosmo, 2ª ed., pág.105-108); Átropos, de a, alfa privativo, não, e do verbo trépein, voltar; é a que não volta atrás, é inflexível. A sua função é cortar o fio da vida. Relaciona-se com o fim da vida e a oitava casa do horóscopo.
A ideia da vida e da morte é inerente à função de fiar, isto é, de agir, somando, sucessivamente, as reacções decorrentes dos actos. As Parcas romanas, que também eram três, chamavam-se Nona, Décima e Morta. Esta última tem a mesma raiz que "Moira", possivelmente por influência de mors, morte.




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