EDITORIAL

A Casa e o Mundo

Faz pena ver uma criança passar o tempo metida num apartamento, sem infância, sem tardes, sem quintal para brincar, sem laranjais para correr, sem nada. Só, com a sua televisão. A entreter-se com programas violentos, novelas atordoantes, desenhos animados exóticos a impingir-lhe adultice fora do tempo, "compreensão" prematura de coisas que, na maior parte das vezes, jamais chegará a compreender.

Todos os criativos da publicidade visual insistem na imagem da jovem que permanece eternamente com menos de vinte anos. Na época barroca, pelo contrário, o ideal era determinado pelas representações da mulher adulta, da mãe. É o que vemos nas obras de Rubens e de Rembrandt, em que os modelos femininos, mesmo sendo jovens, foram estilizados segundo as concepções duma maturidade feminina avançada.

Hoje, o adulto volta-se para o modelo idealizado pelo esforço de propaganda, o da mulher-criança. E a criança, superestimando os modelos de sensualidade que lhe são apresentados, incessantemente reproduzidos numa multidão de diversos aspectos, mobiliza toda a voluptuosidade egoísta, desligada de toda a necessidade biológica, em proporções espantosas. A consequente separação da sexualidade das formas morais tradicionais, em vez de conduzir à libertação, leva rapidamente a diversas formas de violência, à bestialização da pessoa. A tese que se defende é que, com base em tal educação, as relações do homem com a mulher, antes baseadas na complementaridade (a união harmoniosa dos contrários), estão cada vez mais marcadas pela reciprocidade (troca de valores iguais), o que confere ao amor o carácter duma mercadoria.

Unido sem nenhuma relação sentimental, fora do contexto biológico-social e espiritual e, por isso, desligado de toda a responsabilidade recíproca, o consumidor integra-se no ciclo de dissipação ritual que caracteriza os processos económicos, criando o divórcio entre a função sexual e o sentido do humano.

A criança é a primeira vítima dessa educação. Assim, o pequenino ser humano, desde o início da sua vida, é desviado da rota natural, para cair numa fonte de ilusões e absurdos que o levará por vias por demais erradas, anti-naturais e perigosas.

Em resumo: como diz o rifão, "de meninos é que se fazem os homens". O problema consiste, pois, em conseguir deixar que as crianças possam ter a oportunidade de ser crianças. Eis por que os problemas relacionados com o nascimento, a infância e a qualidade da vida infantil são assuntos que não se resolvem com a indignação nem com uma liberdade que não é em nada o fruto puro e bem compreendido do conhecimento, nem com interdições formais. A educação responsável, baseada no porquê da vida, é a única arma para subtrair a criança (e o adulto) esta pressão.

"O bom lar conduz à boa escola, dizia Pedro Bloch, e esta forma seres úteis, a si mesmos e à sociedade. Que a educação permita à criança revelar, sempre, a centelha divina que esconde dentro de si. Que ela seja, sempre, luz e consolo, verdade e optimismo, cheia de confiança nos homens e no mundo".

F. C.




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