FILOSOFIA
As Nossas Limitações Actuais
I
Já aqui temos referido a dificuldade, melhor diríamos a impossibilidade, de conhecer a essência do Ser Supremo, mesmo que se tenha uma mentalidade muito desenvolvida.
Trata-se de um Poder que nos causa admiração e nos maravilha, mesmo conhecendo só algumas das suas manifestações, as quais poderemos observar no mundo que nos rodeia. A sua grandeza é tal que os nossos sentidos, mesmo auxiliados por potentes e aperfeiçoados instrumentos, só abrangem uma reduzida parte. Por isso, na fase actual do nosso desenvolvimento, parece-nos ser mais vantajoso conciliar o nosso interesse pelo transcendente com a observação de realidades que estejam mais próximas do mundo em que vivemos.
Se nos virarmos para o espaço, vemos que as ideias que temos acerca das condições de existência dos outros planetas estão sujeitas a vicissitudes várias. Para além dos seus movimentos e condições de existência, o que sabemos acerca deles é muito vago. É provável até que neles existam e se desenvolvam seres diferentes dos humanos, que sigam uma evolução própria, superiormente determinada para esses planetas.
Diz-se que Deus é Espírito, ou seja, uma espécie de sopro, ou força omnipotente e omnisciente, que tudo penetra, cria e sustenta, ocasionando o progresso por meio do amor – o bem – e cuja sabedoria tudo ordena para a perfeição. Não se trata, portanto, duma pessoa ou indivíduo da espécie humana, ainda que mais poderosa e sabedora.
Convém aqui esclarecer que, para nós, o amor de Deus é um poder que tudo "dá" a quem o quiser receber, sem nada pedir ou exigir em troca. Numa época, como a actual, em que predominam ideias erradas acerca de Deus e do amor, convém afirmar que não concordamos com certas opiniões que atribuem o sofrimento e a morte à vontade de Deus. Nem tão-pouco que se ponha o rótulo de "amor" à lascívia da vida actual.
O verdadeiro amor sente-se e é dado sem imposição. É também livre a sua aceitação, já que de Deus nada é imposto ou forçado. Tudo é sugerido ou inspirado para o bem.
II
Embora o mundo em que vivemos seja muito pequeno quando comparado com o universo, cujos limites se desconhece, é ao Poder Criador em actividade no sistema solar a que pertencemos que devemos a nossa existência. E é n’Ele (e não fora d’Ele) que existimos, como disse S. Paulo aos gregos. Fomos criados à sua imagem e semelhança como se diz em algumas tradições religiosas. E, dessa criação, flui a vida que se manifesta no nosso corpo físico e nos centros mentais e emocionais que compõem aquilo que somos. Esse Ser, e tudo o mais que há dentro da esfera do nosso sistema solar, é uma manifestação divina de que só parcialmente temos noção.
Aquilo que somos é, portanto, de natureza espiritual. O seu perfeito conhecimento consciente transcende a nossa capacidade mental. Max Heindel fala-nos de um "espírito virginal", feito à imagem e semelhança de Deus. Isto quer dizer que ele tem em potência, ou seja, prontos para serem desenvolvidos, todos os atributos divinos, tal como a semente contém em si todas as virtudes da futura árvore.
O nosso próprio ser interno é a realidade espiritual mais próxima da nossa consciência. A sua busca, dizem-nos, é o passo mais importante que nos compete dar no decorrer da nossa vida.
III
Portanto, há que considerar a vida humana como uma força ou energia, irradiada do centro espiritual que somos, e que vemos manifestada em vários campos. Tanto se pode revelar no mais elevado poder criador mental, como por belos sentimentos, ou até, descendo, por meio das paixões e impulsos instintivos que ignoram o bem e a verdade.
Quando olhamos para os nossos semelhantes, há que considerar que os corpos materiais que vemos, assim como os gestos emocionais e mentais, à semelhança das roupagens que usamos temporariamente, são realidades contingentes. Abandonam-se ou desaparecem após o fenómeno da morte. O que perdura e nos acompanha duma vida para outra, é o espírito, que nos foi transmitido pelo Criador.
Em geral, o conceito materialista da vida leva as pessoas a só considerarem como realidade o ser material. Os seus traços hereditários, certas características étnicas, etc. é que servem para distinguir as pessoas. Mas, no fundo, está sempre uma fonte de energia, a vida, que anima e movimenta na justa medida em que a vontade e o corpo permitam a transmissão dos seus impulsos.
Há ainda outra coisa a considerar. Cada um de nós nasceu com um reflexo do passado, que influencia as tendências e desperta os anseios de desenvolvimento futuro. E tudo isso é disposto por inteligências espirituais que colaboram com Deus. Na tradição cristã essas inteligências chamam-se anjos, arcanjos, etc.
Seja qual for o seu nome, todas elas actuam com vista ao mais adequado desenvolvimento dos seres humanos, mesmo que estes se esqueçam e sigam por caminhos errados, dos quais resultam consequências que não podem deixar de ter reflexos, na existência presente ou nas vidas futuras.
Q. de S. V.
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