EDITORIAL
O Drama do Nosso Tempo
A verdade, a justiça e a dignidade não são noções vazias e artificiais, embora até agora por demais violadas e sofisticadas. São valores que devem possuir um fundo mais consistente, mais imperativo, ainda que a ciência e as suas aplicações lhes pretendam dar unicamente um carácter orgânico, biológico. Devemos ter em atenção este assunto, particularmente em relação à moral e ao direito.
O século XVI assistiu ao primeiro grande conflito entre a ciência e a religião, com as teses de Copérnico e Galileu acerca do Universo. Depois, no século XIX, surgiu o segundo, quando Lamarck e Darwin apresentaram as suas hipóteses sobre a origem e a evolução da vida. E hoje assistimos à terceira grande conflagração, com a ciência e a religião ainda em campos opostos, por causa dos novos poderes sobre a reprodução assistida (inseminação artificial, fecundação "in vitro" e transplantes de embriões por um lado, e a doação de sémen, óvulos e embriões, as mães de aluguer e a inseminação póstuma por outro), a hereditariedade (clonagem, eugenia) e, talvez no futuro próximo, sobre o psiquismo.
Tudo isto revela a realidade central e o drama do nosso tempo: quanto mais o conhecimento desenvolve os seus poderes, mais coloca às pessoas problemas relacionados com elas próprias. Nada substituiu o código moral prescrito pelas religiões tradicionais, cujo papel está a declinar.
O que é preciso é que a existência humana seja posta mais de acordo com os imperativos da própria vida e as exigências da natureza. É preciso reflectir sobre muitas das concepções filosóficas relacionadas com aqueles novos poderes e com técnicas de carácter vital (critérios e procedimentos para selecção de doentes sujeitos a diálise renal, transplantes), que se servem de palavras e suposições para interpretar a nossa existência, falseando muitos dos valores reais da vida.
O que parece evidente é que essas ideias desconhecem, em boa parte, o significado da vida, o que pode levar a humanidade a tornar-se um rebanho informe, medíocre, pois a qualidade tem muito mais valor que a quantidade.
O mistério da origem e da evolução do homem é um dos mais obsidiantes: De onde viemos? Para onde vamos? O que somos? O nosso espírito não se cansa de apresentar estas perguntas. As crenças inscritas nos antigos mitos, nas religiões ou na ciência, têm o mesmo objectivo: dar respostas a estas perguntas. Não deviam, por isso, estar em contradição, nem em oposição, nem confundirem-se. Mas, o que temos visto, é que o conhecimento material progrediu muito e, no entanto, a angústia das três questões vitais persiste com intensidade. E não será apaziguada com discursos emotivos ou pretensos argumentos.
A complexidade da ciência exige observadores treinados durante anos. O mesmo se dá com a investigação do mundo espiritual. O que é preciso, é que os assuntos do espírito sejam estudados com os métodos das ciências, o que pode inspirar novas formas de educação e ensino. Tudo parece indicar que o futuro próximo da humanidade não passará pelas vias da evolução biológica (embora esteja reservado ao corpo físico desenvolvimento futuro1), mas pela sua evolução espiritual e o despertar das suas capacidades inatas adormecidas, com o aparecimento de novas qualidades psíquicas, e o desenvolvimento sócio-cultural.
Felizmente que ainda são numerosos os que não escondem essa angústia das três questões vitais (Donde viemos? O que somos? Para onde vamos?) e não acham vão nem absurdo estudar estas questões, mesmo considerando-as difíceis. São eles, os rosacrucianos em particular, que, afinal, transformam o que foi considerado o ópio do povo em fermento e força de libertação.
F. C.
1. Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 2ª ed., 1989, cap. 11 e 12.
[ Revistas | Index | Seguinte ]