FILOSOFIA
O Dia do Juízo
Ricardo Wagner foi considerado, com justiça, um grande génio da música. Foi músico dos mais inspirados e autor de uma obra valiosíssima, tanto pela qualidade como pela quantidade. De igual valor é a sua produção como pensador, filósofo e poeta.
Uma das suas obras de maior relevo foi a ópera. Os Mestres Cantores de Nuremberga. Mas obteve igualmente o mais ruidoso sucesso com O Navio, Fantasma, Lohengrin e Taanhauser, escrevendo não só a música como os libretos os textos destas óperas. A ópera é uma história contada com música e vozes, capaz de ser compreendida por todos. Max Heindel fez um estudo claro, e também profundo, sobre os ensinamentos ocultistas de várias obras de Wagner (Mistérios das Grandes Óperas, já editado pela Fraternidade Rosacruz de Portugal em 1998). Vamos rever o assunto da ópera Taanhauser, nos seus três aspectos gerais: o histórico, associado às grandes viagens com destino aos lugares santos, que tiveram o seu apogeu nos séculos XI, XII e XIII1; o simbólico, ligado à vida dos números, isto é, ao misticismo numérico que caracterizou o espírito antigo; e o religioso, que associa a peregrinação à purificação e expiação.
A história começa com o relato de um drama de consciência. Taanhauser fraqueja e deixa-se vencer pela lascívia. Participa num concurso entre trovadores, um autêntico "festival da canção" em que o tema era o amor. Nele participa Wolfran, o famoso trovador.
O Ideal Cavalheiresco e Trovadoresco
Depois da conversão de Constantino, no século IV, o cristianismo modificou-se rapidamente. As armas do império tornaram-se defensoras do Evangelho. Os bispos tornaram-se políticos e os políticos bispos. Os dois poderes, secular e sacerdotal, uniram-se: o cristianismo militarizou-se. E os teólogos ficaram satisfeitos por juntar, à força do argumento, o argumento da força. O ponto mais alto desta união entre religião e guerra aconteceu em 1095, depois do Concílio de Clermont.
A barbárie dos barões e cavaleiros da época era selvagem e feroz, capaz de crueldade assassina. Foi contra esta condição de servidão e selvajaria que se ergueram os trovadores.
Quando, no alvorecer do século XI, se desvaneceu a força da luta entre a cristandade feudalizada e os invasores ou infiéis Dinamarqueses, Eslavos, Sarracenos, etc. os trovadores tornaram-se os principais agentes do renascimento social e espiritual e da revolução doméstica2. No século XII ainda enfrentavam a oposição figadal do feudalismo, inimigo da cultura, do governo central e da religião espiritualista. O clero também os condenou, com base nas críticas feitas por S. Agostinho e S. Jerónimo no final do século IV! Francisco de Assis (1181-1226) usou os métodos trovadorescos. Os franciscanos e os dominicanos adoptaram o seu modo de vida itinerante. S. Boaventura (1217-1274) e S. Tomás de Aquino (1224-1274) acabaram por reabilitar, finalmente, os trovadores3.
No tempo em que se iniciaram as cruzadas, ainda havia na igreja cristã uma disciplina arcani, E, deste modo, os mistérios eram transmitidos entre alguns iniciados. Os Cavaleiros Templários conservavam alguns desses mistérios à sua guarda. E os trovadores divulgavam-nos, em parte, com uma linguagem cifrada, aparentemente conformada com a linguagem e cerimónias impostas. As fortalezas tornaram-se o centro do convívio social, e o local onde os trovadores, peregrinos e vendedores ambulantes transmitiam notícias do mundo. A civilização começou novamente a florir: música, poesia, artes manuais, arquitectura, etc., sugiram novamente para a vida.
É neste ambiente que se desenrola a intervenção de Taanhauser. Escandaliza as damas, cavaleiros e outros trovadores, por cantar o amor venal. Envergonhado, compreendeu, num instante de lucidez, a enormidade do seu erro, para o qual não há perdão. Participa, cheio de contrição, numa peregrinação a Roma, onde pretende obter a salvação.
Roma e os Centenários
Quer a tradição que o túmulo de Pedro se localize por baixo da cúpula do Vaticano, onde, há vários anos, se encontraram algumas ossadas ao nível da cripta4.
As visitas a este lugar iniciaram-se a partir dos tempos antigos. Mas foi com a instituição dos Jubileus, por Bonifácio VIII, no ano de 1300, que elas se transformaram em verdadeiros corropios e peregrinações.
Tudo começou quando um idoso, recém chegado a Roma, reclama a concessão de indulgências centenárias, à semelhança do que, dizia, acontecera cem anos antes5. Bonifácio VIII, aproveitando a oportunidade e o tradicional espírito dos centenários, instituiu indulgências plenárias para todos os que nesse ano centenário fossem a Roma em visita às catedrais de Pedro e de Paulo extramuros.
A iniciativa foi um sucesso, apesar das dificuldades. O horizonte do homem do ano mil ficava na orla da floresta em que vivia. Não havia rede de estradas nem conhecimentos geográficos. Os caminhos destinavam-se a pequenas deslocações. As viagens faziam-se à custa das informações dadas pelos habitantes das várias regiões. É por isso que se diz, ainda hoje: "todos os caminhos vão dar a Roma" e "quem tem boca vai a Roma". Os peregrinos foram aos milhares. Roma formigava de gente vinda de todos os recantos da Europa, à procura do perdão dos seus pecados. Nas basílicas foi enorme a quantidade de oferendas recebidas. Grandes somas de dinheiro entraram nos cofres pontifícios e nos bolsos dos romanos.
As regras dos anos jubilares modificaram-se. Clemente V alterou-as, fixando prazos mais curtos, de 50 anos; e Gregório XI (papa em 1370-78) impôs a visita a mais uma basílica. Em 1475, sob a direcção de Sixto IV, estas celebrações passaram a realizar-se em espaços de 25 anos, e Alexandre VI, em 1500, iniciou um novo ritual jubilar com a abertura das "portas santas".
O Simbolismo dos Números
Muitos cristãos católicos e protestantes à medida que se aproximam do fim de século e do milénio, começam a viver a angústia do fim do mundo. É um fenómeno associado à passagem do século e do milénio e às crenças messiânico-milenaristas que aumentam a tensão e a curiosidade acerca do futuro.
O milenarismo tem antecedentes judaicos. Entre os judeus, que estiveram em contacto com as especulações astrológicas dos caldeus, o valor simbólico dos números atinge o seu ponto alto. O número mil, que tem significado cairológico6 e, à semelhança do cem, é empregado em sentido indeterminado para designar "muito", "muitas vezes", "um grande número". Podemos encontrar este sentido em diversos passos bíblicos, como nos Salmos e em Daniel7.
Falando agora da doutrina rosacruz da evolução, segundo a qual o espírito há-de evoluir até se converter num deus, passando pelo estádio humano, verifica-se que o plano evolutivo se desenvolve em ciclos cósmicos. Max Heindel estuda-os nos seus diversos aspectos de manifestação, não no âmbito da história de uma única "criação", mas numa série de sete "criações", ciclos ou períodos cósmicos, como se regista na Bíblia. No fim de uma série completa, de sete ciclos, é que se manifesta a totalidade dos poderes criadores de Deus. Esta doutrina, que esclarece e aprofunda as especulações cabalísticas baseadas na ordenação bíblica dos anos sabáticos e dos jubileus, referida no décimo-quinto capítulo do Deuteronómio, harmoniza-a perfeitamente com os ensinos esotéricos do Novo Testamento.
É fácil notar que estes ciclos não são formados por dias propriamente ditos, de vinte e quatro horas, mas dias em sentido mais amplo, com milhões de anos8,9.
As leis da guematria, ou matemática sagrada, também influenciaram os autores do Novo Testamento. No próprio início do evangelho de Mateus, percebe-se logo esta influência na estrutura da genealogia de Jesus, que se apoia no valor numérico e sagrado das letras do nome de David (DVD). Este nome, que está na cabeça da lista, evidencia também o carácter artificial e intencional da árvore genealógica: D=4+V=6+D=4 = 14 (3x14). Isto é, a genealogia baseia-se em 3 séries de 14 nomes, todos escolhidos cuidadosamente10.
Nem em Mateus, nas suas referências à parusia de Jesus (Mat. 25, 31-46), nem sequer em Paulo (1Cor., 15, 22-25), se pode descobrir qualquer ideia de um reino de mil anos "antes do fim dos tempos", como pretendem os actuais grupos religiosos de cariz apocalíptico. De facto, é no Apocalipse (Ap. 20, 2-7), que se deve comparar com o livro de Ezequiel (Ez., 36-40), donde se retiram interpretações abusivas e fantasiosas e desenvolvimentos heréticos acerca do milénio. O que se lê no Apocalipse, como em qualquer outro livro da Bíblia, não se pode tomar em sentido literal. É preciso descobrir-lhe o espírito, ter atenção ao sentido simbólico ou figurativo, para não cair no erro da "sola scriptura", isto é, no fundamentalismo bíblico que é, por assim dizer, uma forma de suicídio do pensamento e a essência das seitas que transformam em fundamental o que não passa de cultural, relativo e histórico11.
Nem os rosacruzes, nem os místicos judaicos, nem as religiões tradicionais encaram a possibilidade de que um novo ciclo fosse inaugurado por desastres e cataclismos cósmicos, que é contrário à evolução constante, em espiral, para cima, para diante, para sempre!
O Perdão dos Pecados
Falta referir ainda a relação entre o perdão dos pecados e as peregrinações e a expectativa de uma catástrofe associada ao fim dos tempos.
Se "a voz do povo é a voz de Deus", porque, como diz Miguel de Cervantes, no seu D. Quixote; "Não há refrão que não seja verdadeiro, porque todos são sentenças saídas da experiência, que é a mãe da ciência", podemos lembrar um provérbio do tempo das primeiras peregrinações a Roma: "Asno que a Roma vá, asno vem de lá"12. Quem tiver vivido uma experiência vulgar terá de expiar as faltas registadas no seu átomo-semente. Mas, pelo arrependimento, essa reparação faz-se ainda em vida, em todas as formas possíveis, eliminando o registo, que já não incomodará depois de morrer. É isto, verdadeiramente, em que consiste o "perdão dos pecados"13.
Conclusão
O cristianismo não é milenarista, nem tão-pouco a Fraternidade Rosacruz. Existe, isso sim, um movimento milenarista dentro do cristianismo, que insiste na promessa iminente de um acontecimento sobrenatural, na subversão da ordem cósmica e/ou social, na vida comunitária emocional e utópica, etc. Tudo isto não passa de doutrina fantasista e alarmista, capaz de tirar partido das angústias e desorientação das multidões menos conhecedoras, dando origem a comportamentos racionalmente incontroláveis. Por isso é que vemos de vez em quando grupos milenaristas lançarem-se em suicídios colectivos e outras tragédias. O milenarismo é também um movimento saudosista: espera encontrar no futuro o regresso do passado utópico. As visões, interpretações, revelações, etc. dos seus fundadores incutem nas pessoas desprevenidas um medo muitas vezes intencionalmente preparado.
Há o sério risco de que a interpretação livre e desvirtuada que os diversos grupos religiosos fazem da Bíblia, particularmente no que respeita ao "síndroma dos centenários e dos milénios", possa resultar da tentativa pessoal do fundador carismático para conciliar as singularidades pessoais com a autoridade dos textos sagrados. Exactamente como no caso de um tal Nicolau Frei que, em 1534, sem os recursos de Henrique VIII, pretendeu resolver uma querela conjugal "em conformidade com a Santíssima Trindade": partiu a cabeça à esposa para realizar o segundo casamento14.
F. C.
Glossário
Indulgência Perdão da pena temporal devida pelos pecados já perdoados.
Messianismo Crença na vinda do Messias. É essencialmente judaico, porque os judeus ainda estão à espera do Messias.
Milenarismo (ou Quilianismo) Crença no reino que Cristo há-de estabelecer na Terra com os eleitos, durante mil anos para eliminar o mal antes "do fim dos tempos". É fundamentalmente cristão.
Peregrinação Romagem a um lugar santo, para penitência, agradecimento ou oração. As mais célebres realizam-se a Jerusalém, Roma ou Meca e, depois do século II, a Santiago de Compostela. As peregrinações marianas desenvolveram-se no século XII e XIII. Foram combatidas pela Reforma e adquiriram nova vitalidade na Contra-Reforma. Na simbologia religiosa, é a passagem do homem pela Terra, suprindo o seu tempo de provas para, no momento de morrer, aceder à Terra Prometida, ao Paraíso perdido. A palavra peregrino designa o homem que se sente estrangeiro no local em que vive.
Trovador Termo que, na Provença, designava o compositor de versos e respectiva música, destinada a ser executada, cantada e dançada pelos jograis, segréis, menestréis e soldadeiras. A tradição dos trovadores passa da Occitânia para o Norte da França, Alemanha, Sicília e Ibéria (Catalunha, Castela, Galiza e Portugal).
Wolfran de Eschembach Trovador de família nobre, mas empobrecida. Nasceu nos últimos anos do século XII. Morreu em 1220. Pertenceu a um brilhante círculo de trovadores que se reunia na corte de Herman, "landgrave" da Turíngia.
Notas
1. Carlos Gil e J. Rodrigues, Pelos Caminhos de Santiago, Publicações D. Quixote/Círculo dos Leitores, LxŞ, 1990, pág.12.
2. Edgar Prestage, A Cavalaria Medieval, trad. Álvaro Dória, Livraria Civilização, Porto, s/d, pág. 27.
3. Martin Aurell, Jongleurs et Troubadours, in "L'Histoire", nş 227, Dezembro de 1998, pág. 68-71.
4. Era na colina do Vaticano que se situavam o Circo e os Jardins de Nero. Num dos seus recantos enterravam-se os que morriam na arena.
5. Na realidade, a última indulgência tinha sido concedida há mais de 200 anos, no Verão de 1095, quando Urbano II pregou a I Cruzada, em Clermont. Cf. Cécile Morrisson, As Cruzadas, Livros do Brasil, Lisboa, 1969, pág. 26.
6. De kairos, oportuno, momento adequado no percurso da evolução (e não o tempo marcado pelo relógio, chronos) e logos, discurso, tratado.
7. Sal., 90 (89), 4, onde realça o carácter transitório da vida na Terra; Dan. 7, 10.
8. Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 3Ş ed., Lisboa, 1989, pág. 151-153, 258 e 324.
9. Na linguagem literária, também se usa o cem (ou cento) e o mil (milheiro ou milénio) para designar "muitos", "um grande número" ou até "uma infinidade", como vemos em Camões:
Nem um só dia as injúrias de mil anos
Vingarás co valor de ilustres peitos.(Canto X, 57)
Ou em Alves Redol;
Meu amor pediu-me um beijo,
Até podia dar cem;
Enquanto solteira for,
Beijos não dou a ninguém.(Cancioneiro do Ribatejo).
10. Cf. Mt. 1, 17. Esta lista dos antepassados de Jesus é diferente da que se vê em Lc. 3, 23-38.
11. As Testemunhas de Jeová dão valor fundamental às leis do A.T. sobre o sangue; os Adventistas do Sétimo Dia fazem a mesma coisa com os preceitos sobre o Sábado e os textos simbólicos e apocalípticos de Dn 7 ou Mc. 13, Lc. 21 e Mt 24, para falarem na iminência da parusia e do fim do mundo; a Igreja Universal do Reino de Deus e Igreja do Maná vão aos textos do A.T. sobre o dízimo (Mal. 3, 6-12) para fomentarem a mercadologia, etc.
12. Pedro Chaves, Rifoneiro Português, Ed. Domingos Barreira, Porto, s/d.
13. M. Heindel, Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas, perg. Nş 112, vol I; Conceito Rosacruz do Cosmo, pág. 76, 2Ş ed., 1989.
14. Raoul Vaneigem, As Heresias, Ed. Antígona, LxŞ, 1996, pág.153.
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