JARDIM INFANTIL

A Futura Educação da Criança

Com o presente século adquiriu a criança direitos de cidadania. Os educadores passaram a considerá-la realmente como um ser em formação, um futuro homem, que necessita de desvelados cuidados para que em suas mãos repousem firme e confiadamente os destinos do mundo de amanhã.

Revistos e abandonados os métodos da "Escola Velha", a pedagogia moderna exige para a criança completa liberdade em matéria educacional. Coloca-a em ambiente adequado, para que ela possa desenvolver-se integral e naturalmente, permitindo-lhe a completa expansão da personalidade. O intelecto vai-se desabrochando pelos impulsos dos sentidos, criados pelos centros de interesse que mais a impressionam e atraem. O professor ou educador não actua sobre ela; apenas a orienta no sentido de por si só obter o domínio dos reflexos, impressões e movimentos do corpo físico; e na medida em que ela se vai qualificando para compreender e assimilar as lições, lhe serão dadas as explicações, verdadeiras e exactas, dos fenómenos físicos que observa e dos psíquicos que sente. Elas limitam-se inicialmente a objectos concretos (lições de coisas).

As faltas na conduta não são reprimidas ou castigadas, mas tão só esclarecidas nas suas consequências. Procura-se que ela as sinta por retribuição na justa medida da sua gravidade.

O ensino assenta, pois, na experiência, base de toda a metodologia da "Escola Nova".

Na prática, os resultados entre nós não têm correspondido inteiramente por falta de educadores esclarecidos. E um campo do conhecimento ficou excluído desta orientação.

Desde muito cedo se ensinam à criança certas noções morais, práticas e ritos religiosos, de que ela, por muito nova, não entende nada. Forma-se então um hábito, e com ele um nódulo na matéria do corpo mental, que origina um preconceito. Ora, esta matéria deve circular com liberdade para que o Ego possa debruçar-se perfeitamente para o exterior através da janela da mente, e para que esta possa funcionar correctamente e desenvolver-se com equilíbrio em todos os sectores. E do preconceito, ou falta de exercitamento do pensamento em determinado sector cerebral correspondente, resulta um certo endurecimento da matéria mental por virtude da sua estagnação, que impede a livre propagação das vibrações do pensamento na região em que ele se localiza.

Então, a criança, feita homem, torna-se incapaz de compreender e raciocinar com clareza sobre assuntos relacionados com esse tipo de pensamento, porque as correntes ondulatórias serão obrigadas a percorrer caminhos indirectos que estejam abertos e dêem acesso à sede desse conhecimento. Estas voltas e reviravoltas do pensamento obrigam a raciocínios laboriosos e tortuosos, chegando as mais das vezes a conclusões erróneas ou pouco lógicas. Deixa de "ver" nitidamente os assuntos relacionados com essa linha de pensamento.

É, por isso, que se pede ao aspirante ao conhecimento directo que se liberte dos preconceitos, superstições e saber feito, se quer progredir realmente na Senda.

Por vezes, esses nódulos ficam de tal forma incrustados no corpo mental, que o Ego, quando na idade adulta, toma posse de todos os seus corpos, vê-se impossibilitado em os desfazer. E os preconceitos acompanhá-lo-ão por toda a vida na Terra.

Mas, há mais. Os pensamentos, quando acompanhados de sentimento ou emoção – como em geral se verifica no caso que estamos focando – envolvem-se numa porção de matéria de desejo, e pela sua continuidade ocasionam certos estados emotivos mais ou menos permanentes, que se exteriorizam por definitivos impulsos instintivos. Estes impulsos, tornando-se habituais, escapam-se ao domínio da vontade. A criança é insensívelmente levada a adoptar atitudes intransigentes, que a obrigam a rejeitar qualquer linha de pensamento divergente ou contrária da que nela se impregnou. Depois não tenta analisar assuntos dessa natureza, porque a toda a sua "personalidade" lhe repugna tal análise.

Além dos males que na vida de relação lhe acarretam – e não são poucos nem de somenos importância – tais nódulos ou preconceitos erguem-se como obstáculos sérios ao crescimento espiritual.

Se o Ego renasceu com fraco desenvolvimento, a criança submete-se facilmente à imposição educativa e torna-se religiosa por hábito. De ordinário, não sente interiormente a espiritual idade, limitando-se, quando muito, a simples emoções ou sentimentos localizados nas regiões superiores do corpo de desejos, e a actos meramente exteriores. Fica escrava das "suas" ideias, faz-se mais tarde um mau religioso pela sua incompreensão e pela força dos seus impulsos emotivos que a arrastam ao fanatismo.

Quem conhecer bem o efeito desses nódulos não ficará certamente surpreendido ao observar a ineficácia destas formas pensamentos-desejos e a individualidade, pois não só não ajudam, como se opõem mesmo ao cultivo das boas qualidades morais e espirituais. Doutra maneira não se compreenderia bem por que tanta gente, vivendo ou parecendo viver uma vida religiosa intensa, não manifeste maior perfeição que qualquer pessoa vulgar. E certamente "quem não possuir o espírito de Cristo, não conhecerá a sua doutrina".

Se o Ego, ao renascer vem já bastante evolucionado, consegue desfazer os nódulos e libertar-se dos preconceitos e ideias feitas. Se a reacção, que ele desencadeia contra essas congestões mentais, forçando a livre circulação das correntes de consciência, é demasiado forte, cai em regra no extremo oposto, e o homem declara-se então "materialista", "positivista", "cientista", "livre-pensador"...

(continua)

A. S. G.





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