EDITORIAL

Não Matarás!

Vivemos numa "sociedade de abundância", "tecnotrónica" e argentária, que tem conferido prioridade absoluta à riqueza material. Nada de mais disparatado. Em nome do prático, adora-se o que há de mais abstracto. Nada de mais retrógrado. Esta ordem de prioridades levou a nossa civilização a sofrer de inúmeras deficiências e perturbações que, como a delinquência, têm, a este propósito, imenso significado.

O mundo actual tem o seu paroxismo nos actos e espectáculos de violência e de morte. Neste mundo de violência, nada é tão urgente como fazermo-nos aliados do que há de mais esclarecido e permita ajudar a compreender as suas causas e pôr-lhes limites sem invocar outras violências. Só numa correcta filosofia da pessoa, se encontrarão os princípios imediatos dos juízos que uma doutrina e uma acção esclarecida exigem, sem caírem no erro de se adaptarem às receitas convencionais que, incapazes de ultrapassar a ordem de uma materialidade, de uma simples observância, levam o homem adulto à condição de mera engrenagem de uma "máquina pensante" que, tirânica, tudo procura uniformizar para conduzir a um mesmo e único estilo de pensamento. Na Antiguidade, que podemos delimitar pela história pré-cristã, as ofensas à integridade física, incluindo a morte – a morte e o sofrimento dos outros, claro – tornou-se, infelizmente, um espectáculo comum, horrível e imundo. Pertencer à espécie humana não garantia sequer a protecção da vida, como prova o comportamento dos Gregos e Romanos para com os escravos e os bebés fracos ou deficientes. Nos espectáculos de gladiadores, em Roma, a massa humana excitava-se perante os lances dramáticos da luta e açulava, impaciente, os ferozes actores: "queima, mata, fere". É precisamente neste quadro social que se percebe, já na modernidade, que começa com o cristianismo, a acção progressiva e segura da sua doutrina na renovação da mentalidade do homem antigo, no que respeita aos direitos fundamentais da pessoa. Mas, decorridos dois milénios, ainda não se vê a desejável quebra no gosto pela dor e pela morte, mostrando até que ponto é delgada a película de espiritualidade consciente que as confissões religiosas depositaram sobre alguns espíritos. As civilizações irrompem sempre favorecidas pelo espírito religioso. Mas quando ele deixa de responder às interrogações dolorosas dos homens e à pesquisa demasiado leal para se contentar com respostas que não têm conteúdo real, surge o automatismo – e os preceitos tornam-se mais observados que vividos.

Uma vez que se pode considerar a Bíblia como o documento ético que rege o ethos (modo de vida habitual) da civilização judaico-cristã, é bem evidente que é no conhecimento do verdadeiro sentido da sua linguagem que está a chave-mestra para a saída deste impasse da nossa civilização. Não vale a pena interrogar-nos se, numa perspectiva rosacruciana, o passado poderia ter evitado os erros em que caiu e se, tendo-os evitado, não teria sucumbido a outros. O que é certo, é que o nosso comportamento não pode ser o mesmo em relação ao passado e ao futuro. Existe uma pedagogia da História e da Religião, que impede, ou devia impedir, absolutamente, um homem do fim do século XX de se voltar a colocar na situação espiritual de um homem de qualquer outro século anterior.

O que é preciso é compreender o passado, mais do que aceitar a persistência de alguns dos seus costumes e maneiras de pensar. Não temos que refazer o passado. Só temos de construir o futuro. Se a nossa civilização está assim votada para evolucionar, a sedução pelo passado significa, cada vez mais manifestamente, depois do que dissemos, que a tensão se irá acentuando nela, entre o material e o espiritual, o pessoal e as instituições que sustentam formas de pensamento cristalizado e anacrónico.

Pode-se dizer que existe, também, um pecado original nessas instituições, em consequência do qual, mais do que instrumentos de salvação, se tornam também naquilo que é preciso salvar. O seu erro é o de programar o comportamento humano e de o levar a agir e a pensar segundo uma receita própria, perpectuada no tempo quase sem modificações. Elas contêm, implícitas nelas mesmas, a afirmação de que os problemas actuais e futuros se resolvem com soluções e explicações passadas e, portanto, todas elas acabam por colidir com a vida, na convicção de que tudo o que agora existe é unicamente o resultado de alguma coisa que existiu no passado.

O horizonte em que se interpreta e anuncia a mensagem evangélica não pode continuar presa da noção tradicional que ela própria segregou na senda da herança cultural do passado. Agora, que a humanidade começa a aceder a um novo período da sua história, a idade do homem, qualquer espírito lúcido que não se quede à superfície mas reflicta a fundo, há-de verificar que o filão mais autêntico do cristianismo é nitidamente de cunho esotérico, rosacruciano, cuja missão é a de instaurar, neste mundo velho, tudo o que pudermos da "nova terra e dos novos céus".

Compreender-se-á agora porque há um sentimento mais ou menos vago nos simpatizantes e espectadores dos espectáculos de violência ao ouvirem a maior parte das críticas. É que eles integram uma ordem fechada dos espíritos que vivem na sujeição aos comportamentos automáticos que perpetuam hábitos e convicções que os levam a não reconhecer, praticamente, como normas de vida, senão os preceitos propriamente ditos, isto é, a formulação determinada das acções que se devem realizar. Esta mentalidade legalista ou, melhor, concordista e conformista, assim habituada a reduzir a vida ao que está fixado no preceito e a relacioná-lo unicamente com a vida humana, em virtude do que está escrito em Mt 5, 21-16, ao dar-se conta de que a medida menor que nos é exigida é a da própria perfeição do Pai (Mt 5, 48), sentir-se-á afogada em estéreis lugares comuns que o impedem de progredir.

O que é preciso, portanto, é valorizar o sentido do texto para revelar o verdadeiro significado e não um significado remendado.

A humanidade entenderá um dia, no seu próprio e único interesse, que o "não matarás" tem sentido universal, visto que o seu princípio é absoluto. Há pelo menos uma razão óbvia para dar valor à vida de um ser capaz de sentir prazer ou dor. Ela reside não apenas no prazer que ele possa sentir, mas, sobretudo, no facto de cada ser ter uma função na Natureza. E, "se damos valor aos nossos prazeres, diz Peter Singer, o aspecto universal dos juízos éticos impõe que alarguemos a avaliação das nossas experiências às experiências semelhantes de todos aqueles a que as possam ter".

F. C.




[ Revistas | Index | Seguinte ]