EDITORIAL

A Clonagem Humana

A clonagem1 é uma forma de reprodução assexuada, natural em certos organismos, como as plantas. Hoje, a clonagem é um dos grandes temas de discussão ética, tanto mais que a linguagem dos técnicos é por vezes intencionalmente vaga na tentativa de ocultar a responsabilidade do experimentador na sua tentativa de "criar vida"2.

A clonagem humana enquadra-se num programa de eugenismo de modelo já utilizado em estações zootécnicas para multiplicação de exemplares animais seleccionados.

O que é inquietante nestas manipulações genéticas é que elas podem esconder uma finalidade verdadeiramente despótica e escravizadora já que o seu objectivo pode não ser a modificação arbitrária da substância genética, mas, pelo contrário, a sua fixação arbitrária, que é o contrário da estratégia predominante na Natureza, truncando a legítima via natural da evolução biológica da espécie ao impedir a diferenciação profunda, típica entre indivíduos, impondo compulsivamente a unidade da espécie. Nestas condições deixará de haver aquela nítida tendência natural para a diferenciação que nos indica até onde o espírito evolucionou e, ao mesmo tempo, o seu esforço orientado para a epigénese.

Além disso, a clonagem torna a bissexualidade humana um simples resíduo funcional, ligado à necessidade de produção de um óvulo mas privado do seu núcleo, para dar lugar ao embrião-clone e exige, por isso mesmo, um útero de aluguer para se desenvolver. O que é grave neste procedimento é que ele vicia basicamente a transmissão genética (exogamia, incesto, classes, etc.), pervertendo as relações fundamentais entre as pessoas: o que há uns trinta anos era anedótico torna-se agora assustadora realidade: uma mulher pode ser irmã-gémea da sua mãe e filha do seu avô sem ter pai biológico! Se a fecundação "in vitro" criou já alguns problemas desta natureza, a clonagem conduz à ruptura total destes vínculos familiares.

Pior ainda é a possibilidade de, por meio da clonagem, se fazer a selecção dos indivíduos gerados, eliminando-se os defeituosos, o que caracteriza uma forma de eugenia, enquadrando-a perfeitamente na lógica industrial, que procura favorecer a pesquisa de mercado e aperfeiçoar o produto oferecido ao consumidor!

É evidente que tudo o que se relaciona com o nascimento, e a morte, atinge os estratos profundos do ser humano. Daí o enorme impacto que frequentemente acompanha estas notícias, nem sempre esclarecedoras. O campo da manipulação genética é, por isso, um dos mais carregados de expectativas e... de ideias erradas.

Associa-se muitas vezes o ser clonado à imortalidade, identificando-o com aquele que o originou. É falso, porque a clonagem não é mais do que uma forma de reprodução assexuada, de onde resulta que um indivíduo terá a estrutura corpórea idêntica à do doador das células, não havendo, por isso, uma identidade perfeita, tanto na sua realidade ontológica como psicológica, porque essa depende do espírito que reencarna.

O espírito que renasce naquele organismo não pode ser gerado pelos pais, nem reproduzido pela fecundação artificial, nem tão-pouco ser clonado. Recordem-se os casos dos gémeos, cuja semelhança não significa identidade3. O ser humano, longe de ser uma espécie fixada evolutivamente4, mantém elevada capacidade evolutiva. E, ao contrário do que intuíram Nietszche e Klages, em momentos mal humorados, o espírito não é algo destituído de sentido e até oposto à vida. Em condições normais, o espírito tem uma participação decisiva na qualidade de vida do seu corpo físico e, o que é o mesmo, nas suas patologias, sujeitando-se por essa via a uma aprendizagem consciente.

Tudo isto já foi explicado nas obras de Max Heindel. Por agora, digamos apenas que, mesmo tendo em linha de conta a possibilidade de o espírito que renasce em tais condições ser uma "alma jovem", cheia de limitações, e sem querer exorcizar a investigação e o progresso, a clonagem pode merecer um juízo negativo. O que parece evidente em tudo isto é a trágica incapacidade de o investigador distinguir o real do transitório, o espírito do corpo, a questão técnica do que se pode fazer e a questão ética do que se deve fazer, atraiçoando o mecanismo diferenciador da evolução do espírito, por impor, repressivamente, a subordinação do espírito às determinações decorrentes da manipulação genética.

O importante agora, do nosso ponto de vista, é pôr a claro que devendo o estudo da natureza do homem e da sua evolução futura ser um esforço interdisciplinar, deve ser da filosofia rosacruz, de modo explícito ou não, que tem de partir-se para dar o tom geral desse estudo, se quisermos apressar o nosso progresso com harmonia.

F. C.

Notas

1 "Clone", palavra introduzida na língua inglesa, no início do século XX, etimologicamente derivada do grego klón: rebento de um vegetal, ramo pequeno.
2 Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, F.R.P., 1998, 3ª ed., pág. 238.
3 Id., Astrologia Científica Simplificada, F.R.P.,1985, pág. 27.
4 Id., Conceito Rosacruz do Cosmo, id., pág. 206




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