Editorial
A Dança das Palavras
e os Carneiros de Panurgo1O Ocidente parece estar enfermo. O mal, que atinge mesmo quem não devia, enfraquecido pela preguiça mental, pela ignorância ou falta de reflexão, é curável – mas há doentes que não o desejam: ou estão abúlicos ou aparvalhados e não podem contar com a sua ex-"extraordinária" inteligência.
Um dos sintomas mais expressivos dessa doença pertence ao capítulo dos direitos e dos deveres e assenta numa palavra: liderança.
Importa dar atenção ao lado trágico da questão, porque nos põe em perigo e pode acabar mesmo em tragédia.
Interessa sobremaneira referir que, entre nós, na maioria dos casos, tudo acaba por ser resolvido sem ser imposto, actuando a persuasão ou agindo aquele espírito de transigência recíproca que é o segredo das instituições veneráveis. De qualquer modo, todos ficam convencidos mas ninguém é vencido porquanto, onde há amizade a própria cedência só para comprazer não é derrota. Mas casos há, em que as divergências, por graves e profundas, são insanáveis. E quando o vínculo funcional ameaça romper-se, de direito ou de facto, não será o princípio da lealdade, solenemente afirmado, que o evitará. Se é inevitável, o melhor será, portanto, ser realista e pôr-lhe fim.
Ser realista, no sentido literal do termo, não é ir contra as pessoas, salvo de ricochete; não é, sequer, opor-se a ideias, movimentos; é ser contra o erro, a mentira, o embuste, a ilusão. É ser contra ideias absurdas, o esvaziamento dos princípios morais e as convicções sérias que temperam a alma do rosacruciano.
Torna-se imperioso e urgente evitar que essa doença contamine o fermento espiritual do Ocidente que somos nós, rosacrucianos. E depressa, sem perder mais tempo. É preciso que, armado de implacável realismo, se evitem entre nós os erros da ingenuosidade ingénua que confunde a multiplicidade de propostas com criatividade, sem perceber que se trata apenas de uma agitação de superfície, uma simples procura epidérmica de algo "novo" mas sem autêntica novidade. A variedade não implica, necessariamente, renovação.
É preciso evitar a transverberação de doutrinas idiotas, aferradas a erros colossais – em alguns casos mais por hábito ou tradição, por razões de contemporaneidade, por moda ou por covardia moral, do que por verdadeira convicção – fora da matriz rosacruz e sem nos atermos ao conteúdo filosófico ou ético. O resultado seria, como não poderia deixar de ser, a deturpação dos conceitos rosacruzes, torcendo-os, encurtando-os, alongando-os ou comprimindo-os para que coubessem na arca das ideias pessoais. Este comportamento, baseado somente na ética da estética, da estética-afectiva do presente, não se preocupa com projectos racionais futuros. Aceitá-lo seria a evidência do declínio e da fraqueza de uma liderança que não pode sacrificar o principal ao acessório, o substantivo ao atributo, usar o corpo com outra alma: uma espécie de metempsicose – que não interessa.
E aqui temos de aceitar o ónus do dever. Veritas odium parit. Paciência. Seria para nós mais cómodo evitar as incomodidades que o exercício da liderança implica, não enfrentar fanatismos, não lembrar erros antigos, não reabrir processos. Deixar as coisas andar subordinadas às correntes da opinião e às simpatias que sobre elas flutuam como rolha de cortiça, sem actuações impopulares, seria manifestamente mais confortável. Mas não devemos nem podemos fazê-lo. Não devemos, porque guardar silêncios furtivos ou praticar omissões voluntárias seria atingir a integridade e coerência da Grande Obra. Não podemos, porque isso seria superior a nós. Em matéria da defesa dos interesses da Fraternidade Rosacruz, não sabemos o que é ser exagerado. Sentir-nos-íamos profundamente indigno. A vergonha empurra-nos para a frente e não deixa ter medo. Não temos a triste coragem de ser covarde. Iremos continuando, por isso, a abrir o caminho da verdade, através da selva de mentiras e da má língua.
A crítica impiedosa, o tom sarcástico, o radicalismo de critérios, a dureza e a imprudência de certos críticos, podem levar a crer que também nós somos pessoalmente duro, radical, impiedoso. Esquecem-se do conflito que surge, às vezes muito agudamente, entre a sensibilidade e o dever, entre o coração e a função. Esta é que deve prevalecer – dirá quem tiver o sentido do dever. Porque na frouxidão da complacência há menos bondade verdadeira do que nos olhos vendados da justiça.
Quando está em causa o bem de uma instituição, a complacência é criminosa. É preciso, por vezes, aconselhar solução de que não se gosta, pôr a nu defeitos e desaprovar ou rejeitar aquilo de que se gosta. E isto custa, principalmente quando há quem se aproveite deselegantemente da situação, em vez de a esclarecer como mandava a ética da lealdade.
O processo que usam é simples: usam palavras num discurso carregado de emocionalidade psicótica, e usam-nas implacavelmente sempre que querem destruir determinada pessoa, desvalorizar determinada obra ou exterminar determinada ideia. Proferem anátemas sem apelo, porque não há defesa possível contra as agressões indirectas e subterrâneas das palavras e da insídia. Ao procurar atingir as vítimas com essas palavras, que repete numa dança hipnótica, com ocultos móbiles, fúteis e inferiores, cria uma falsa escala de valores, na qual se autopromove, subtilmente, pela maneira habilidosa de utilizar em proveito próprio a aleivosia intencional.
Há uma só solução, uma só defesa das pessoas de bem contra a palavra do hipócrita maledicente: analisarem, e analisarem bem, os frutos do seu trabalho no plano concreto, para assim conhecerem melhor a árvore e saberem até que ponto o autor quer subordinar o espírito e a independência da obra às suas opiniões – ou a interesses espúrios. E façam-no sempre que ele descarregue emoções capazes de ferir, agredir e desrespeitar o ser real das pessoas, das obras e das ideias. Todo o cuidado é pouco para que não lhes aconteça o mesmo que às ovelhinhas do Pantagruel, que se lançaram todas pela borda fora do navio em que seguiam, afogando-se, quando Panurgo, contrariado e vingativo, atirou uma delas à água.
F. C.
1 De panourgos que, em grego, quer dizer "o que sabe tudo" ou "o que é bom para tudo". É o leal companheiro de Pantagruel; sentia-se feliz por se considerar manhoso e senhor de uma maldade gratuita. Cf. F. Rabelais (1494-1553), Pantagruel, Livre 4, 8.
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