Filosofia

Concentração num só Caminho

"Todo o triunfo, todo o êxito, só se
alcança por meio da concentração
persistente no fim desejado."


Max Heindel

Vivemos na era das pressas. Dispersamo-nos em diversas actividades. O egoísmo e o materialismo dominam. Tudo isto contribui para que a nossa mente tenha enorme dificuldade em se concentrar. Quantas vezes não está ela a pensar, ao mesmo tempo, em mais do que um assunto?

Como é que podemos ter equilíbrio interno nestas condições? Como é que podemos obter o domínio de nós mesmos, sendo esse autodomínio a base para a libertação de tudo o que nos escraviza, como reconheceu Goethe? Como é que pode haver, em tais condições, trabalho eficiente e êxito na acção?

Se lermos as diversas obras de Max Heindel, como as de outros rosacrucianos, veremos que todos eles dão enorme valor ao desenvolvimento do poder da concentração. Aconselham-no, até, como um exercício diário que deve ser feito logo ao despertar.

E porquê?

Porque, se na vida diária a concentração tem reconhecido valor, quem escolhe o caminho de uma verdadeira Escola de Pensamento dá-lhe ainda mais importância: considera-a imprescindível.

Sabemos que existem sete caminhos que nos permitem "assaltar" o reino dos céus. Um deles é o que percorrem os membros da nossa Escola. É o caminho mais directo. Mas não ignoramos que a grande maioria das pessoas tem evoluído – e continua a evoluir – seguindo um caminho em espiral, que é muito mais lento. Esta realidade exige que saibamos compreender cada qual e respeitar os seus ritmos e estádios de crescimento, sem jamais procurar impor-lhes os nossos próprios ritmos e qualidades. O que é preciso é servir com amor e humildade. O que mais importa é ser fiel e bom servidor – e não um bom filósofo.

Ao escolhermos um destes sete caminhos, a que deveres, em consciência, estaremos obrigados? A um deles já nos referimos: é o da fidelidade, isto é, o dever de seguir apenas um caminho e de evitar a dispersão – que só leva à confusão e não deixa tempo livre para servir. É que, na realidade, no além, o serviço é que está na base do progresso.

No caso dos provacionistas este assunto assume particular importância porque eles não têm unicamente o dever de se consagrarem ao caminho que escolheram: impõem-se-lhes também o dever de respeitar todos aqueles que escolheram percursos diferentes, sem considerar o seu caminho como o único possível.

Se quisermos percorrer mais do que um caminho corremos o risco de não avançar por nenhum. Acabamos até, inevitavelmente, por gastar tempo e energias que deviam ser aplicados no serviço amoroso, como nos alertou Max Heindel na segunda carta que dirigiu aos provacionistas.

Foi tal o motivo por que este iniciado rosacruz foi muito claro nas respostas às perguntas que lhe foram dirigidas e que ficaram registadas no primeiro volume da obra Filosofia Rosacruz em Perguntas e Respostas com os números 177, 178 e 179. Lembra ele, em primeiro lugar, o dever de evitar a tendência para assinalar diferenças que existem entre diversas escolas e religiões. E aconselha, logo depois, que, em vez disso, se procure viver mais de acordo com os puros ensinamentos do cristianismo rosacruciano. Ora, esta vivência só pode ser alcançada no seio das instituições com uma raiz comum, como é o caso da Fraternidade Rosacruz e das diversas Igrejas Cristãs. Já o mesmo não acontece quando há a imiscuição de doutrinas de outras Escolas de Iniciação, e muito menos no aprofundamento dos seus diversos exercícios, entre os quais encontramos, igualmente, o da concentração.

Max Heindel esclarece também que há Sociedades que não passam de simples organizações exotéricas cujos ensinamentos filosóficos têm particular afinidade com o Oriente e que, por este motivo, não se encontram em sintonia com o nosso estado evolutivo interno, por evolucionarmos no Ocidente.

Vamos dar um exemplo. Max Heindel fundou a Fraternidade Rosacruz em 1909, como sabemos, com a missão de publicamente difundir os ensinamentos rosacrucianos. Rodolfo Steiner funda, em 1913, quatro anos depois, a Sociedade Antroposófica com o seu nome, com uma dinâmica própria e ensinamentos específicos. No livro já citado Max Heindel dá às perguntas com os números 178 e 179 o seu esclarecido ensinamento acerca da Sociedade Teosófica. Não o poderemos tornar extensivo à mencionada Sociedade Antroposófica? E, lembrem-se agora os provacionistas, o que lhes dizem as cartas nşs 2, 26, 59, 63, e 76 a 88? Há lá deveres assinalados que vão desde o de concentração, ao de lealdade e ao de fidelidade.

De tudo isto se conclui que os nossos deveres impõem não apenas o de seguir um só caminho, mas ainda o de manter a mente liberta de fanatismos, sem deixarmos com isso de reconhecer os méritos dos nossos irmãos, membros de outras associações – como as Igrejas.

Todos eles são nossos irmãos, membros da mesma família humana, e o nosso ponto de vista é apenas a nossa face da Verdade. Sem nunca os menosprezar, nem tão-pouco lhes pôr o dedo nas feridas, temos o dever de ser servidores coerentes e fiéis e de usar uma só arma: a razão, que, unida ao coração, nos garante a defesa dos puros princípios da nossa Escola.

Somos livres de escolher o caminho que quisermos, mas somos também responsáveis pelos nossos pensamentos, emoções e actos. E como a quem muito é dado, muito será pedido, a nossa responsabilidade é ainda maior. Nesta fase da civilização, com enormes mutações e confusões, temos o dever de nos sintonizarmos com os ideais positivos de índole uraniana e aquariana. Nesses ideais a liberdade deve estar unida à responsabilidade, a fraternidade deve ser vivida a cada momento, e todos os nossos talentos devem ser levados à prática – para a Glória do Supremo Arquitecto do Universo, para o bem de toda a Criação, e para realizarmos a nossa própria epigénese.

D. D. C.




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