Filosofia
Causas Ocultas da II Guerra Mundial 1
Que somos um espírito imortal, sem princípio nem fim, é coisa que os nossos estudantes já sabem muito bem. Além disso eles compreendem, melhor do que ninguém, que esta realidade estabelece as bases de um processo incessante de aprendizagem que pode ser explicada comparando o espaço de tempo de uma vida com o período diário da escolaridade de um aluno do ensino académico. Cada vez que nos apresentamos na escola da vida – que teremos de frequentar durante um período mais ou menos longo, que pode variar desde várias horas ao tempo de uma vida inteira – fazê-mo-lo com um novo corpo físico, mais bem constituído. E, concluído o tempo de aprendizagem, abandonamos o invólucro material, exausto, decrépito, para regressar ao lar celeste onde fazemos a assimilação das lições aprendidas. A experiência há-de repetir-se, uma e outra vez, retomando sempre as lições no ponto em que foram suspensas.
Ora, durante cada um desses períodos da nossa permanência na escola da vida, relacionamo-nos com outros espíritos. Tecem-se laços de amor ou de ódio que hão-de proporcionar o reencontro, no período seguinte, para que as dívidas contraídas se possam liquidar. Os nossos amigos de hoje são aqueles a quem ajudamos em vidas pretéritas. E os nossos inimigos são precisamente as pessoas com quem alimentámos desentendimentos e desarmonia num passado de que já nem sequer nos lembramos. É com este emaranhado das nossas relações que urdimos o nosso próprio destino no tear do tempo. Podemos tecer uma vestimenta gloriosa ou de autêntico pesadelo e sofrimento, de acordo com a nossa maneira de agir, boa ou má.
Mas, na realidade, aquilo que nós construímos não é só o nosso próprio destino, individual, porque, como diz o ditado, "ninguém vive para si mesmo"2. Estamos agrupados em famílias, etnias, raças, e nações. E, além do nosso destino individual, também nos ligamos aos destinos dos membros da família e da nação, pela nossa dependência aos anjos e arcanjos, que são, respectivamente, os espíritos de família e de raça. São estes elevados seres que imprimem nos nossos átomos-sementes as formas e expressões raciais do corpo físico. Eles interpenetram a atmosfera de uma nação – onde os seus habitantes recolhem elementos que incorporam nos seus veículos subtis – como se fossem uma nuvem. Implantam nos átomos-sementes desses veículos o germe da simpatia ou o ódio com outras nações. Na realidade, é no seio deste espírito de raça que as populações "têm a sua vida, se movem e existem"3. É nele que tem origem os seus veículos. Mais: em cada inalação absorve-se este espírito de raça. É um facto que ele está mais perto de nós do que as mãos dos pés.
É este espírito que determina, assim, a qualidade das relações entre as diversas nações, sendo privilegiadas umas, difíceis ou litigiosas outras, pelos sentimentos de simpatia ou aversão que alimenta nos seus membros.
Segundo os ensinamentos dos rosacruzes, cada espírito renasce duas vezes no tempo em que o Sol permanece, por precessão, num signo do Zodíaco: uma vez como homem, outra como mulher. Isto permite que o espírito se enriqueça com todas as experiências possíveis em cada um dos sexos, sob a influência de cada um dos signos. Existem, naturalmente, muitas excepções a esta regra, devido a necessidades individuais. Esta lei, que não é cega, actua em coordenação com os elevados seres que na terminologia cristã se denominam Senhores do Destino. É sua a tarefa de conduzir à recolha do que tiver sido semeado anteriormente, sempre que o relógio do destino assinalar o tempo da colheita. E isto é válido tanto para o indivíduo, como para as nações.
Portanto, se estudarmos as características das nações envolvidas nesta gigantesca luta e, ao mesmo tempo, tivermos em conta as suas motivações, poderemos, revendo a história dos tempos idos, mesmo sem recurso à intuição nem tão-pouco à clarividência, percebermos que as causas da Grande Guerra têm origem no passado remoto.
Alguns historiadores sugeriram a ideia de os filhos de Albião4 (os britânicos) serem a reincarnação de antigos Romanos. A investigação oculta revela que isto não é rigorosamente assim. Existem, na realidade, certo número de linhagens estranhas. Mas, pela forma como elas se fundiram com a raça dominante, podemos aceitar aquela migração como um facto.
Recordando a história de Roma, veremos que o espírito democrático, depois do reinado dos primeiros sete reis, se manifestou na forma de uma república. Logo se iniciaram as guerras para deter o domínio do mundo. No decurso destas campanhas, Roma viu-se envolvida numa guerra com Cartago para decidir o domínio do Mediterrâneo. E para se poderem estender até ao Oriente, os Romanos tiveram de expulsar os Cartagineses da Sicília.
Naquela época, Cartago era uma grande potência marítima, mas foi vencida pelos Romanos no ano 260 antes da era cristã (com o auxilio dos gregos da Itália Meridional construíram uma esquadra de navios chamados corvus, os quais infligiram a derrota às quinquerremes cartaginesas na batalha de Milas). Depois desta vitória, Roma levou a guerra até à África. O cônsul Atílio Régulo, que ali tinha desembarcado, acabou por ser derrotado pelos cartagineses. A esta derrota seguiu-se uma série de desastres navais dos Romanos. Cartago estava prestes a reconquistar mais do que tinha perdido na Sicília, quando o procônsul Lutatius Catulus obteve finalmente, no ano 241 a.C., uma vitória naval decisiva sobre os cartagineses que tiveram de abandonar a Sicília e as ilhas situadas entre a mesma e a Itália. Assim terminou a primeira Guerra Púnica, que tinha durado vinte e três anos.
Mas não era assim tão fácil dominar Cartago. Vendo que Roma era adversária considerável no mar, os Cartagineses retomaram as hostilidades tomando posição em Espanha. E Aníbal, o seu grande general, que odiava profundamente Roma, tentou a reconquista na segunda Guerra Púnica, que foi declarada em 218 antes de Cristo. Os seus planos, preparados em segredo, foram levados a cabo com extrema rapidez. Atravessou os Pirinéus, através da Espanha e França, e os Alpes. Dominando todos os obstáculos chegou à Gália Cisalpina com apenas vinte e seis mil sobreviventes de um exército composto de cinquenta e nove mil homens. Depois de várias derrotas dos Romanos, deu-se a grande batalha de Canas (2 de Agosto de 216 a.C.), no ano 216 a. C. onde Aníbal teve uma vitória completa. A Macedónia e a Sicília declararam-se a favor dos conquistadores, e Aníbal marchou sobre Roma.
Mas, achando esta cidade bastante bem fortificada, retira-se para o Sul da Itália onde finalmente conheceu a derrota. Cartago viu-se obrigada a pedir a paz – e assim Roma ficou de mãos livres para iniciar o seu império na bacia mediterrânica.
Mas o ódio de Aníbal permaneceu vivo. Ele e os seus compatriotas renasceram na Prússia. Quando os antigos Romanos ocuparam as Ilhas Britânicas, dominando os mares, era inevitável que, com o tempo, deflagrasse um grande conflito. Tal como as antigas Guerras Púnicas são a causa remota do actual conflito, também a Grande Guerra desencadeará, no futuro, o recrudescer da luta, a não ser que, entretanto, se manifeste o espírito de bondade nas relações com o adversário vencido, ao contrário da inclemência e humilhações impostas pelos antigos romanos. O poder bélico dos actuais militaristas dos Impérios Centrais deve ser controlado. É absolutamente necessário que se defenda o mundo de uma nova catástrofe. Todavia, as medidas que forem acordadas deviam ter em conta não só a paz imediata, nesta vida, mas também a do futuro, quando tivermos de confrontar novamente os antigos adversários ainda que já revestidos de outra aparência exterior.
Deve-se fazer justiça, mas ela deve ser temperada com a bondade para se evitar a perpetuação do ódio. É por isto que são erradas medidas que imponham, por exemplo, sanções de natureza económica. Seria suficiente que, de futuro, os Impérios Centrais, se contentassem com a gestão de uma parte da economia mundial. A jovem nação americana, que não está sob a dominação de nenhum espírito de raça, tem uma visão menos apaixonada das coisas e do que é justo. É desejável que esta ideia de imparcialidade consiga prevalecer. Não se pode deixar de ter em conta que não é possível corrigir uma injustiça com outro acto da mesma natureza. E, além disso, devemos não só viver – mas também deixar viver.
Max Heindel
in Ensinamentos de um Iniciado, Cap. IX
Notas 1 O autor escreveu este artigo enquanto decorria a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), entre os Impérios Centrais (Alemão, Austro-Húngaro e Otomano) e os países da Entente (Grã-Bretanha, França, Rússia e seus aliados, entre os quais Portugal. N. do R.)
2 Rom 14, 7.
3 Act 17, 28.
4 Nome pré-celta (ou mesmo celta) dado à Grã-Bretanha. Os Romanos julgavam que derivava de albus=branco. Seria, assim, uma referência às arribas calcárias de Dover.
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