Editorial
Cultura e Cultura
Há cultura... e cultura. À primeira podemos chamar, com propriedade, cultura: é o terreno que pisa aquele que o reconhece aberto, não estanque, perspectivado e jamais circunscrito. À segunda, melhor seria chamar-lhe simples erudição. É o espaço em que se move aquele que não domina o campo em que se encontra e, como num ferro-velho atulhado de peças diversas, algumas úteis e muitas imprestáveis, entulho, silvedos e arbustos de vária espécie, encontramos uma enorme mistura de ideias e conceitos. Nele apenas se recolhe um corpus de conhecimentos em estado implícito e por simples familiarização. Quando muito, esse conhecimento é levado à prática segundo uma modalidade pré-reflexiva.
O nosso projecto de trabalho na Fraternidade Rosacruz, que se propõe para discussão com liberdade e acribia, alude várias vezes à necessidade de uma sólida cultura rosacruciana. Admite mesmo ser um dever, no âmbito da missão da Fraternidade Rosacruz, "considerar a problemática da cultura rosacruciana numa perspectiva universalista" capaz de harmonizar os vários ramos do conhecimento numa inter-relacionação que ajude a formar a personalidade e conduza ao desenvolvimento do espírito.
Mas, uma coisa é falarmos da autêntica cultura, que, naturalmente, exige teoria, mas também supõe capacidade selectiva e crítica – que é uma cultura assimilada, feita substância da própria substância, alma da própria alma – que utiliza o diálogo para a confrontação leal de teses.
Outra coisa é a cultura que se desenvolve como um pensum indigesto de factos, de formas e noções que não se dominam nem se compreendem, a cultura aditiva ou justa positiva, a cultura de adorno mais ou menos brilhante... ou pedante, reduzida a jogos de espírito tão gratuitos como vãos – que, aliada a um excessivo individualismo, tem, como resultado, um demasiado espírito crítico, inconciliável com a disciplina, corrosivo da autoridade, avesso à continuidade programática e firme de qualquer acção directiva.
Outra coisa, ainda, é a cultura sem raízes, incapaz de se desenvolver a partir da sua própria dinâmica devido ao pendor para imitar, para traduzir, para transplantar, mesmo sem reparar se o húmus suporta o fenómeno da transplantação.
Outra coisa, finalmente, é a cultura que recorre à palavra, falada ou escrita, sem arrazoar aticamente, sem desenvolver ou fundamentar juízos, sem argumentar – único processo moral e intelectualmente lícito para fazer triunfar uma ideia. Não demonstra nem procura convencer: afirma, dogmaticamente, um pequeno número de coisas que se insinua serem indiscutíveis e, com desprezo pela inteligência, explora sentimentos irracionais, acentua tendências penumbrosas, agudiza instintos primitivos, visa sobretudo a emocionar – por sinal no sentido da dissensão.
Tal é o paradoxo desta cultura-erudição: os que se blasonam entendidos não discutem, em sede própria, as regras, as normas, as formalidades que foram previamente aceites, mas contestam, impugnam, com ira e arreganho, publicamente, essa mesma disciplina, só para dar nas vistas, por afrontamento à hierarquia, por jactância, para ser diferente. O recurso habitualmente seguido é algo como um bombardeamento vocabular dos cérebros, contínuo, maciço, feito expressamente para não deixar reflectir, com fraseado e oratória que pouco mais tem que a disposição linear de certos intentos, muitas vezes espraiada numa redacção informe e tosca, anárquica e madraça. Nem sequer reflecte a percepção de que tais asserções, assim tão mediatizadas pelo simples facto de se recorrer a mega-dispositivos de informação como a Internet, caiem na armadilha do exibicionismo informativo – que torna as instituições, os acontecimentos e até as pessoas in-significantes através da banalização a que ficam expostas.
Uma vez expurgada tal vozearia da farragem de afirmações em que abundam e onde há muita coisa de inútil, supérflua e vã, este palavreado ficaria extraordinariamente reduzidos em volume e ainda mais em conteúdo.
Tal situação é produto de um pendor para o eruditismo fácil, agravado, em certos aspectos, graças à mentalidade superficial dominante.
Trata-se de um tipo de mentalidade hoje relativamente difundido e que tende a sê-lo cada vez mais, segundo tudo leva a crer, um pouco por todo o lado. Só isso explica a ressonância deste comportamento em diversas partes do globo onde se evidencia o facto de o conhecimento objectivo e a ética que o fundamenta permanecer obscura para a maioria dos que se revelam rosacrucianos meramente nominais e que estão na origem de uma série quase interminável de asserções públicas francamente desarrazoadas. Neste particular, o exemplo que nos chega do continente americano, de norte a sul, é profundamente triste.
As causas desta superficialidade são diversas e todas as teorias para as explicar ficam destinadas ao fracasso se se desenvolverem em redor de uma única dimensão, de um único feixe causal.
O fenómeno é de grande complexidade e seria pretensioso circunscrevê-lo num texto breve, mas pode ser entendido como uma necessidade emocional que nem os próprios dirigentes são capazes de contrariar, pelo menos claramente.
Essa inclinação para estudar a filosofia rosacruz pela rama, como se ela fosse redutível a tal superficialidade; esse borboletear de uma filosofia para outra, sem o necessário espírito crítico, como se um pormenor mais, uma coincidência adicional, fosse acrescentar alguma coisa ao que já se sabia; esse eclectismo, rico de elementos absurdos e perversidades diversas, com princípios, objectivos e métodos de trabalho distintos, que faz delirar certos estudantes contemporâneos, como se a misciginação de doutrinas desse origem a algo mais do que ao hibridismo estéril; esse espírito conservantista, que não cria nem faz, que está para o rosacrucianismo autêntico como o farelo para a farinha – tudo isso exige esforço acrescido, reduz o ritmo da pesquisa e de desenvolvimento, e está longe de poder servir de método e de viático para a nossa viagem no século XXI.
Semelhantes atitudes contrastam de polo a polo com a atitude que nos têm ensinado desde há um século, Max Heindel, analisando, passo a passo, as fases do desenvolvimento humano; com a atitude de Francisco Marques Rodrigues, que traçou, com visão certeira, as grandes linhas em que se tem desenrolado a história da nossa instituição em Portugal e previu, com genial sentido premonitório, o que viria a dar-se no momento actual: um estiolamento da formação dos recipiendários e das forças dinâmicas do rosacrucianismo, um obnubilamento no sentido crítico sobre o objectivo da Fraternidade Rosacruz no século XXI, um profundo comodisto baseado na segurança do passado e um especialismo erudito que toma a parte pelo todo.
É verdade que nas instituições tradicionais e relativamente estáveis a memória domina o projecto e, assim, os princípios conservam-se vivos e activos durante séculos. Mas na complexa sociedade do século XXI temos de saber aliar essa simplicidade linear com a natureza transformacional e inventiva de acordo com o entendimento dos tempos modernos, em que o projecto domina a memória e o futuro domina o passado.
E quebrar os vínculos das habituações, dos conformismos in-significantes, dos sistematismos pretensiosos, já não basta. É preciso mais. É preciso tentar, pelo recurso ao pensamento tão inovador como invocador, a abertura de novos horizontes, de contactos novos, de aproximações fecundas na identificação daquilo que se pode esperar e dos motivos de tal esperança, daquilo que se deve fazer e dos estímulos que o levarão a fazer. Para evitar que uma instituição venerável, como a Fraternidade Rosacruz, seja, precisamente porque venerável, de uma grande vulnerabilidade em vários pontos, é preciso que o nosso estudo e actuação mude de horizonte e, de prevalentemente retrospectivo, se torne prevalentemente prospectivo.
Importa, assim, que nos sectores que mais directamente se prestem a um projecto e a uma programação racionais, se introduzam e apliquem os princípios e métodos mais conducentes ao fim em vista.
O que é preciso agora, na perspectiva do autor, é realizar uma boa pedagogia teórica em que se possa exaltar o primado da formação sobre a informação. Preparar e desenvolver capacidades – de compreensão, discernimento, reflexão, investigação e acção – e não apenas transmitir dados de forma mais ou menos bruta ou mais ou menos destilada.
É da formação destas capacidades que o rosacruciano de amanhã sentirá fome. Para isso é preciso ver longe, ver em grande, analisar em profundidade, ter a coragem de assumir riscos, pensar na instituição e adoptar, finalmente, uma metodologia do tipo taylorista capaz de expurgar o sincretismo de que estão contaminados todos os eruditismos fáceis, para alcançar um aprofundamento profícuo. A análise do conjunto, essa virá mais tarde, com o crescimento ulterior, mais harmónico e mais fecundo, sem prejudicar o ritmo do estudo nem obstruir a sua aplicação prática.
É preciso darmos testemunho autêntico e verdadeiro do nosso conhecimento, sem aquele demissionismo que é testemunho eufemístico da cobardia e do conservantismo, nem o verbalismo intemperado do eruditismo fácil logo desmentido pelos actos.
A boa vontade em prodigalizar o nosso saber tem obstáculos inscritos nas realidades da existência que é preciso ultrapassar, quebrando-os ou passando-lhes por cima.
É de uma autêntica renascença que mais se precisa agora. De um espírito criador de novas – ou renovadas – metodologias; de novas – ou renovadas – ideias que dêem direcção e sentido globais aos nossos pontos de vista, educando segundo o seu melhor, habilitando a desvendar os segredos da verdade do ser e a torná-la, na medida do possível, interior à própria razão.
F. C.
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