Editorial
Informar – Desinformar
Em períodos de crise ou de profunda mutação histórica, períodos em que o medo, a angústia, a insegurança e mesmo o pânico, ou, pelo contrário, o fascínio de novos horizontes ou de outras liberdades se fazem sentir larga e intensamente, é que a informação correcta e a acção racional, na lucidez e na decisão, deveriam ser de rigor.
Infelizmente, a prática demonstra ao contrário. É então que costumam surgir, de todos os lados, os exploradores do irracional, apresentando as situações e as soluções que correspondem às tensões, às expectativas e aos interesses mais imediatos dos grupos a que pertencem.
No entanto, quem se sinta um pouco responsável pelo destino comum, não se pode inibir com aquilo que mais geralmente acontece, ou costuma acontecer, que é a apresentação tendenciosa de ideias e de factos, manifestada quer na truncagem dos dados informativos, quer nos títulos, quer na disposição, quer nos comentários, quer mesmo no silêncio total. Tudo isso é igualmente repreensível. Compreende-se, na ordem dos factos, dada a pouca sanidade do ambiente moral dos seus autores. Não se compreende na ordem do dever-ser que as mesmas pessoas invocam. Administrar uma instituição que responda, na ordem interna, à realidade das tendências de todos os seus elementos não é, decerto, coisa fácil. Isto supõe, por parte da instituição global, um sentido de maturidade de todos os membros, revelado no respeito pelo outro, na tolerância de outras ideias, na consciência da medida, sentido esse que a natureza não dá e que só a educação pode ministrar.
Numa época de crise, na época de crise que é a nossa, sem precedentes, quer pela universalidade quer pela profundidade, a educação é um poder. Por este termo designamos não o simples processo da didáctica escolar mas, no sentido mais largo, toda a aquisição, transmissão, renovação e criação de ideias, de comportamentos, de saberes, de formas e de símbolos expressivos. Mais sinteticamente, consideramos "educação" como o reflexo e o projecto de uma cultura, uma cultura rosacruciana. Reflexo desta cultura rosacruz é-o o comportamento de cada membro na medida em que, através de si, se transmite todo um legado adquirido de normas, de valores, de sentimentos, de modos de encarar o mundo e a vida, de hábitos, de costumes. Projecto desta cultura é-o também a preparação de cada recipiendário na medida em que, no processo transmissivo, se dão, necessariamente, modificações por adaptação, correcção, supressão.
A nossa Fraternidade Rosacruz, mercê de um conjunto de factores para o mesmo efeito convergentes, está a passar, rapidamente, do modelo histórico-tradicional, com o seu centro de gravidade nas virtudes organizacionais do passado, a um tipo moderno e mais actual. É neste contexto que urge definir, ou redefinir, os meios da Fraternidade Rosacruz, aquilo que deve modificar-se e aquilo que deve sobreviver do passado distante.
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No momento presente, encontramo-nos – encontra-se o mundo – sobre o fio da navalha. Tudo ou quase tudo depende do movimento que lhe derem os responsáveis – que somos todos nós. A crise actual não implica, necessariamente, decadência. Implica, isso sim, deslocação do seu centro de gravidade, de ideias, convicções, de hábitos, de formas e de estilos de vida, para um espaço diferente, através de uma viagem difícil, em que haverá certamente perdas, transformações, deteriorações. Semelhante deslocação pode mesmo conduzir ao colapso de toda uma tradição, mas pode constituir também o ponto de partida de uma grande e até completa, ou quase completa, renovação.
Feita assim a análise do problema, parece-nos que, na Fraternidade Rosacruz subsiste a esperança, ainda que na sociedade que nos rodeia, em que tudo está a perder sentido e significado, pareça caminhar-se para a morte e destruição, atingidos os níveis superiores da incompetência em todas as áreas.
A dificuldade está precisamente na razão instrumental, quer dizer, na racionalidade dura que não incide sobre os fins desejáveis, os objectivos legítimos, os valores a promover socialmente, mas apenas sobre os seus pontos de vista com o fim de realizar um objectivo que não é o colectivamente deliberado. Em vez de pretender um acordo, segundo a lógica – eticamente significativa – da partilha das experiências e do reconhecimento recíproco, quer dizer segundo uma orientação comunicacional, age, pelo contrário, em vista do sucesso individual, segundo a lógica da aquisição de influência, da manipulação, da eliminação dos rivais, quer dizer, segundo uma orientação que não é comunicacional e de partilha de experiências, mas estratégica.
Tal comportamento instrumental denuncia-se pela contestação.
Por via de regra, a atitude instrumental e a contestação surgem no seio das mentalidades que orientam o seu viver e encaram o amanhã com uma simplicidade linear, baseada em modelos exemplares do passado que tomam como norma. Porque, nessa mentalidade, já o dissemos algures, a memória domina o projecto. Como os homens da Revolução Francesa, muito lidos nas Vidas Paralelas de Plutarco, sonha reproduzir, repetitivamente, no nosso mundo e no nosso tempo, os gestos dos heróis antigos da sua preferência e da sua paixão.
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O que é preciso, então, para vencer a crise, é que o dirigente tenha um perfil de profeta. O mundo precisa tanto de profetas como dispensa contestatários. Estes abundam em excesso, aqueles escasseiam. E escasseiam porque ser profeta, autêntico profeta, precisa de coragem para vencer a maré de irracionalidade ou de racionalidade dura. Ser profeta é estar condenado à solidão dos cimos ou dos abismos, condenado à meditação que não se contenta nem com simples palpites, nem com a banalidade das opiniões correntes – de um ou do outro lado – nem com o arsenal organizados pelos ideólogos de última hora, das frases incandescentes, das acusações apaixonadas e de atitudes vingadoras, prestes a serem utilizadas sobre qualquer tribunal. Ser profeta, é refugir tanto do farisaísmo – mesmo do farisaísmo que se ignora – como da contestação verbal e oca e de um purismo inumano como de um idealismo veleitário de "bons sentimentos" e de "boas intenções". Ser profeta da realidade sempre móvel e complexa, que é a actual, é descobrir soluções "políticas" – se por isso entendermos a arte de organizar uma comunidade humana segundo regras de coabitação, de cooperação, de reconhecimento mútuo e de obediência recíproca – sem perder a ligação conceptual entre a função administrativa e a ética rosacruz.
Com efeito, a Fraternidade Rosacruz, mais, talvez, do que qualquer outra escola filosófica-iniciática, contém uma ética da comunidade. Mas a ética rosacruz é também uma ética do serviço, em que a função "política" se inspira fortemente no modelo cristão da família e, por isso, os seus membros se consideram "irmãos".
Neste sentido, o rosacrucianismo é uma realização socio-individual através do serviço – e não da retórica. Desenvolve-se dentro de uma tradição e de uma comunidade impregnada de um ideal de solidariedade, de igualdade, de fraternidade, de harmonia e de autonomia da consciência crítica, retida e valorizada em harmonia com uma noção de hierarquia, de autoridade e de legitimidade.
Deste modo, o rosacrucianismo não é um ideal meramente teórico ou utópico: é vida vivida, inscrita no coração e no quotidiano, passiva ou sentida de modo profundo, empenhado e dinâmico. E, por isso mesmo, é indiferente àquele interminável falatório que, em vez de informar objectivamente, desmascarar motivos ocultos e desmontar cálculos supostamente reservados, mostra, ironicamente, acções estratégicas egocêntricas do individualismo que se radicaliza – ou, melhor, que se perverte numa forma de narcisismo.
(Resumo do texto publicado)
F.M.C.
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