Filosofia
A Metáfora do Deus Encarnado
Foi a memória dos episódios da resistência, política e religiosa, desde o regresso da Babilónia até ao ano 63, que levou o povo Hebreu a resistir às influências do paganismo latino depois de, nesse mesmo ano, Pompeu se apoderar da Cidade Santa.
Debalde o vencedor dotou Jerusalém e a Palestina de estradas, de aquedutos, de termas e teatros: a alma judaica rejeitou-os. A crença judaica combatia até a simples aparência de idolatria. Não permitia sequer a cunhagem de moedas com efígie humana; nem consentia tão-pouco a imagem de uma águia colocada por cima da porta do átrio do templo.
Quando Roma fez sentar Herodes, um idumeu judaizado, no trono de David, a desconfiança transformou-se em hostilidade. E não eram só as crenças e o orgulho da pátria que estavam em causa. Havia ressentimentos pessoais. Não existia família que em que não tivesse corrido sangue, muito sangue.
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A radicalização das classes inferiores deu origem a uma ala esquerda, a dos sicários, que iniciou ataques e conspirações, para exercer uma pressão corrosiva sobre os cidadãos abastados. Finalmente, no ano 66 d.C., irrompeu a grande revolta popular contra Roma, com a participação das classes média e inferior, com a vitória final de Roma. Foi este conjunto de incidentes e sentimentos velhos que alimentou a esperança na redenção de Israel. Cada vez mais os Hebreus esperavam a vinda de um ser prodigioso, o Desejado de que não se sabia grande coisa, o ungido do Senhor: em aramaico Messias; e em grego, Cristos1.
É nesta franja social de pobres, ignorantes e revolucionários do judaísmo, na dupla forma palestina e helenística, que vai nascer o cristianismo. Celso também nos dá pormenores da composição social desta comunidade cristã, uma irmandade unida pelo entusiasmo, pela esperança e pelo ódio – e oprimida, social e economicamente2.
No livro atribuído a Lucas revela-se-nos claramente o estado de espírito desses primeiros cristãos nas "Bem-aventuranças"3, na história de um homem pobre, Lázaro, "que desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico"4 e noutros passos do seu evangelho: "quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas"5.
A tensão social é igualmente visível na carta de Tiago, onde transparece o ódio visceral aos ricos que havia em meados do século II: "Eia, pois, vós, ricos, chorai e pranteai, pelas vossas misérias, que sobre vós hão-de ir", etc.
A diferença entre os primeiros cristãos e os restantes camponeses residia no modo pelo qual pretendiam alcançar os seus objectivos. Os sicários orientavam-se para a realidade política, mas as tendências revolucionárias dos cristãos perderam gradualmente o carácter político e tornaram-se fantasias religiosas que alimentavam ideias messiânicas6.
Na medida em que se dessolidariza do judaísmo, o cristianismo primitivo perfilha a "doutrina da adopção", baseada nos Actos, 2, 36: "Saiba, pois, toda a casa de Israel, que a esse Jesus, a quem vós crucificaste, Deus o fez Senhor e Cristo". A doutrina da adopção contrasta com a da "filiação natural", proveniente do nascimento. Por isso, a convicção predominante, nesta época, é a de que Jesus não era o filho de Deus desde o início, mas só veio a sê-lo posteriormente, em cumprimento do que foi dito pelo salmista: "Tu és meu filho, eu hoje te gerei"7, que é o momento da exaltação de Jesus segundo o livro dos Actos dos Apóstolos8.
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Recorde-se que o título "filho de Deus", no mundo romano do período do Novo Testamento, era usado quase com o mesmo sentido de "divino", e mesmo "Deus". Os heróis de Homero eram "divinos". E de Augusto em diante a palavra "divino" tornou-se um termo do culto imperial: "o divino César".
O uso das metáforas, ou palavras com sentido figurado, é corrente na linguagem devocional, extática e litúrgica do tempo. O sentido da linguagem metafórica, que é um discurso não literal ou figurativo, é completamente diferente do sentido literal, do dicionário.
Esta cristologia, baseada na convicção de um homem elevado a Deus, é o motor de um impulso revolucionário que permite àquela comunidade cristã ultrapassar as limitações impostas pelos sacerdotes, os eruditos, os aristocratas e os governantes. O seu poder ameaçador, "paternal", alimentava o mundo emocional dos primeiros cristãos de forma arrogante e opressiva, mas a identificação com o Salvador ajuda-os a suportar a tortura e a humilhação.
A Monarquização da Igreja
Quando a propaganda cristã ganha terreno no seio dos pagãos, conquista adeptos em quase todo o Império Romano. Embora inicialmente a maioria dos adeptos que Paulo conquista seja das classes mais baixas, a pouco e pouco outro elemento social, os educados e os ricos, infiltra-se na comunidade, em meados do século II. Paulo, que é filho de um rico cidadão romano, pode ter sido mesmo o primeiro cristão oriundo de uma classe superior. Mais tarde, o cristianismo penetra finalmente no seio da aristocracia dominante. No fim do século II já não é uma religião de pobres e escravos. Depois de se constituir a religião dos grandes círculos da classe dominante, Constantino torna o cristianismo uma religião de Estado. Os seus adeptos são agora essencialmente romanos, gregos e sírios. Mais importante do que essa modificação de nacionalidade dos fieis é a transformação social imposta pelas condições económicas ligadas ao processo da feudalização.
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O Imperador Constantino, que nunca se converteu verdadeiramente ao cristianismo, usou-o para fins políticos. Com o fim de pôr termo às querelas religiosas, ameaçadoras da estabilidade nos seus domínios, convoca em 325 um concílio onde se intitula "bispo de fora", "com o objectivo de restaurar a concórdia na Igreja e no Império"9.
O cristianismo passa então por uma espécie de metamorfose. Inicialmente hostil à autoridade e ao Estado, ao tornar-se a religião oficial do Império Romano monarquizou-se. Passou a ter uma importância social acrescida: conseguiu o que o culto do imperador e o mitraísmo não tinham alcançado: a integração das massas no sistema absolutista do Império Romano.
As gerações pós-apostólicas vão por isso assistindo gradualmente à organização das várias igrejas em formas hierárquicas, e logo depois em forma monárquica, se não claramente em relação aos presbíteros pelo menos em relação aos fieis e ao povo. A monarquização das igrejas locais impor-se-á simultaneamente ao reconhecimento, por parte destas, do primado do bispo de Roma. A Igreja perde a sua vocação laical e democrática para se tornar hierárquica, monárquica e sacral. E nos séculos IV e V acaba por se desenvolver a teoria de que o poder de jurisdição dos bispos procedia do Papa – com base em sofismas teológicos e cavilações jurídicas.
Assim monarquizado, constituído no reflexo da imagem da monarquia absoluta do Império Romano, o cristianismo desenvolve um dogma, baseado numa tese logicamente contraditória mas adequada ao grupo dominante e seus representantes intelectuais. O elemento decisivo é a transformação da ideia do homem que se tornou deus, elemento de uma ideologia revolucionária, para a ideia do Deus que se tornou homem, transformando-a numa ideologia conservadora.
Esta associação entre o Império e o cristianismo, implantada por Constantino em 313, e depois por Teodósio, mantém-se no Oriente até 1453 e, praticamente, nas mentalidades da Europa Ocidental, até aos nossos dias10.
A Heresia Fundamental
Esta heresia é a rebelião da lógica contra o absurdo. Nasce em Alexandria. Ário, o responsável, defende que Jesus não é Deus. Não o reconhece ele no evangelho de João: "O Pai é maior que eu"?. Jesus é o sage entre os sages que, por esforço da sua vontade heróica merece tornar-se o que todo o homem pode tornar-se: filho de Deus.
Um pagão, pouco ou muito filósofo, pode seguir Ário sem renunciar à razão, pode compreender que um homem, pela sua virtude, se torne um deus.
Mas ideias de Ário são alarmantes. A unidade é posta em causa. Constantino escreve a Ário e adverte-o: "Acerca de certas questões é tão inútil interrogar como responder". Sem resultado. Os partidários de Ário amotinam-se. Constantino condena-os a pagar os seus impostos em dobro. Mas o pagamento em duplicado dos impostos não é suficiente para os convencer de que Jesus é Deus. Então, Alguns prelados sugerem que uma assembleia, onde todos os bispos estiverem presentes, será mais bem qualificada para acalmar os ânimos. O Imperador manda convites para todo o Império. Apesar de tomar a seu cargo as despesa de deslocação, dos trezentos e dezoito delegados apenas cinco representaram o Ocidente.
A sessão de abertura tem lugar no dia 20 de Maio de 325. Durante o mês seguinte a maioria dos bispos descobre um pequeníssimo erro ortográfico que pode justificar a sua doutrina: a palavra homoiousios, "de natureza semelhante" é substituída por homoousios, "da mesma natureza". De um lado, Jesus é idêntico ao Pai, do outro, é parecido com ele. Entre os dois há apenas uma letra de diferença. E para consolidar este ponto de vista redige-se um novo credo, que substitui o dos Apóstolos e, com poucas diferenças, se mantém até hoje11, 12.
É a primeira vez que a Igreja adopta oficialmente, da cultura grega, o conceito não-bíblico de ousia e declara Jesus como o Deus Filho encarnado, sendo homoousios toi patri, da mesma substância que o Pai13.
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Para explicar a reinterpretação da doutrina da adopção, fornecem os doutores da Igreja as mais subtis explicações no dogma da consubstanciação. Depois disso, tendo mobilizado a suprema intelectualidade para justificar o mistério, os mesmos doutores mandam calar os que não tinham mais que a fé ingénua.
Daí provém o crescimento dos cismas no Oriente: os seus intelectuais não podiam admitir a complexidade irracional do cristianismo. Daí nascem, também, os êxitos da Igreja entre os Bárbaros: para esses rudes, quanto mais complicado, mais elevado e divino. O cristianismo passa a funcionar como ideologia de legitimação e conservação do poder civil. Quando o Ocidente tiver os seus intelectuais, a partir do século XII, a força secular cristianismo começará a fraquejar.
A Ontologia Rosacruz
A ontologia rosacruz mantém a fórmula revolucionária da doutrina antiga ao defender o conceito de que o homem pode evolucionar, actualizando os poderes latentes, tornando-se como Deus14. Encarando o ser humano na sua inteireza ôntica e, portanto, recusando a teoria teológica do criacionismo15, propõe o homem como um ser complexo que participa de planos de realidade que "se sobrepõem", mas que se relacionam intimamente, sujeitando-o às leis combinadas que regem aqueles mesmos planos ou mundos. É a sua condição de ser espiritual e livre quem faz o homem do tipo espiritual responder ao repto permanente que o plano inferior do real – o mundo físico – exerce sobre ele e o torna capaz de evolucionar.
A evolução é o processo transformador que rege todos os planos do real, do inorgânico ao psíquico, até ao desenvolvimento da actividade racional, da cultura e do homem como sujeito projectador, capaz de realizar a epigénese.
E dentro da evolução há o progresso. O progresso do ser humano surge à evolução como um plano desta, mas não pode existir sem ele e para além dela. O progresso, que leva à epigénese, de modo semelhante ao que se passa com a matéria, por exemplo, tem as suas leis próprias, a sua independência ôntica, mas assente sobre o plano da evolução16.
A epigénese é um troço da evolução devido à acção crítica e criadora da razão e à capacidade objectivadora e libertadora do ser espiritual.
O ponto de vista rosacruz está de acordo com a afirmação mais fundamental da Bíblia no que se relaciona com a natureza do homem, segundo a qual ele foi feito à imagem de Deus – "E disse Deus: Façamos o homem à nossa semelhança..." (Gén 1, 16) –, na medida em que investiga como homem, como ser natural, participa na grande transformação evolutiva do mundo, na evolução cósmica. E, além disso, ensina como ele pode expandir a sua consciência, realizando, deste modo, conscientemente, a intenção da evolução, que é a de orientar o surgimento do futuro tipo humano-espiritual, o homo sapientissimus.
(Resumo do texto publicado)
F. C.
Notas
1 J. G. Davies, As Origens do Cristianismo, Ed. Arcádia, Lisboa, 1977, Cap. I.
2 Hans G. Kippenberg, Religião e Formação de Classes na Antiga Judeia, Ed. Paulinas; S. Paulo, 1988; ps. 119-125 e 150-166; Cf. Orígenes, Contra Celso, BAC, Madrid, 1967.
3 Lc 6, 20 e ss; cf. Mt 5, 1-12
4 Lc.16, 21.
5 Lc 18, 24; cf. Mt 19, 16-30; Mc 10, 17-31.
6 Richard E. Rubenstein, When Jesus Became God, Hart Court, Inc., New York, 2000, pp 68-88.
7 Sl 2, 7.
8 Act 13, 33.
9 Jaroslav Pelikan, Jesus Through the Centuries; New Haven, Yale University Press, 1985.
10 Jean-Claud Eslin, Deus e o Poder, Âncora Editora, Lisboa, 2000. pp 67-67.
11 . Homo (mesmo); homoi (semelhante); ousia (ser).
12 Richard E. Rubenstein, ob. cit., pp.72-79; 186-187, 198-199.
13 A palavra homoousios já faz parte do vocabulário de Porfírio (232-305 d.C.), que a utiliza para referir a afinidade entre as almas humana e animal. Cf. Richard E. Rubenstein, ob. cit., p. 81.
14 Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, 3ª ed., Lisboa, 1998; p. 339 e ss.
15 Id., ob. cit, p. 120.
16 Id., ob. cit, p 266.
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