A Vida e a Obra de J. A. Comenius

2.7.3 - Coménio e a reforma das escolas na Suécia (1642-1648)

Na Suécia, Coménio foi financiado por Louis de Geer, empresário holandês e fundador da indústria siderúrgica sueca. Ele também foi recebido pela rainha Cristina. Da mesma forma, o tutor da rainha, Johan Mathiae, sentiu afeição por ele. Foi um longo debate sobre a reforma da educação com o chanceler sueco Axel Oxenstjerne, que lhe ofereceu trabalho em Elbing (Elblag), cidade do Báltico que estava então sob a administração da Suécia.

Elbing (Elblag)

Esta rica cidade hanseática, onde a tolerância prevaleceu entre os luteranos e os reformadores (calvinistas), onde os esforços de educação tiveram uma grande tradição, era um oásis de calma para o trabalho de Coménio. Sua família (sua esposa Dorothy e filhas e Christine e Elizabeth, com quinze e catorze anos, respectivamente) juntaram-se a ele em Elbing. Por sua parte, logo Coménio revisou os livros didáticos com seus assessores e deu cursos de filosofia, no ensino médio local.

Os vereadores do conselho municipal apoiaram em todos os sentidos. Em suma, ele realmente tinha condições ideais para um analista didáctico. Mas Coménio veio para a Suécia com planos de longo alcance, para configurar uma grande obra pansófica, que estava gradualmente a transformar-se num projeto para melhorar a sociedade, em sete volumes; um dos volumes, apesar de ser maior, estava realmente reservado para pansofia. Para agradar aos seus amigos em Inglaterra, que pediam trabalhos pansóficos, Coménio publicou em 1643, em Gdansk, o esboço de seu sistema (Pansophiae Diatyposis), mas ele já estava a preparar o seu livro intitulado De rerum humanarum emendatione Consultatio catholica (Consulta geral sobre a reforma das coisas humanas). Foi também no Elbing que terminou o primeiro volume do livro, Excitatorium universale, enviando para Hartlib o manuscrito (o título posterior seria Panegersia).

Simultaneamente, Coménio não pode ficar indiferente aos debates sobre a unificação das Igrejas. Ele não só iniciou uma grande controvérsia com Valerian Magni, capuchinho estudioso cujo trabalho De Luce mentium (1642) despertou o seu interesse, mas participou diretamente em 1645, nas discussões ecuménicas em Torun(Coloquium Charitativum) e escreveu um opúsculo sobre a possibilidade de harmonia entre cristãos. Desiludido das suas esperanças (o colóquio não foi um lugar de conciliação entre os cristãos com base na igualdade, e os participantes não chegaram a interpretar veridicamente o cristianismo), Coménio deixa Torun. Em vez de trabalhar em paz, vê-se entre vários fogos. Pretende servir de mediador entre os luteranos e os reformadores (calvinistas), cujas contradições enfraquecem as posições da Reforma, na Prússia Ocidental. No entanto, isso não convinha aos Suecos e, por outro lado, o trabalho de Coménio era mal recebido por uma parte da nobreza polaca. A situação político-religiosa na Suécia era com efeito muito complexa. Existiam aí dois grupos com diferentes pontos de vista – os luteranos ortodoxos com Oxtenstjerne e os unionistas protestantes a trabalharem com vista à reconciliação dos luteranos com os reformadores. No primeiro grupo não havia muita compreensão relativamente à pansofia de Coménio. De Geer, que pertencia ao segundo grupo juntamente com os seus colegas holandeses, mas que via as coisas dum ponto de vista elevado, calculou bem o momento em que os esforços de Coménio, com vista à unificação das Igrejas, se tornavam indesejáveis na Suécia. Intervem junto de Coménio que primeiramente completa o seu trabalho didáctico. No entanto, Coménio permanece convencido de que é necessário, primeiramente, terminar as suas teorias pansóficas antes de escrever os manuais. Não para de desenvolver novas ideias que o impelem a manusear os seus textos, de tal modo que não chega a terminar as suas obras. “Se eu pudesse mais ou quisesse menos”, repete nas suas cartas dirigidas aos seus amigos.

Durante um curto período em que está prestes a retomar a redacção da sua Consulta Geral, e a ocupar-se apenas dos seus trabalhos didácticos, esboça o plano mais complexo do seu sistema de ensino. A pansofia é então aplicada para as escolas como um conjunto de conhecimentos das coisas e de fenómenos concretos do mundo (do tipo de Janua Linguarum); depois um conjunto de princípios filosóficos do mundo (Janua Rerum - Porta das Coisas), em realidade a metafísica pansófica que ele escrevia depois dos anos trinta) e um novo conjunto de opiniões apresentados na história a propósito dos problemas mais diversos: filosóficos, astronómicos, históricos, etc. (Intitula esta série de Janua Cogitationum - Porta do raciocínio). Cada uma destas séries devia possuir graus: Vestibulum, Janua, Atrium; e devia conter o texto, a gramática (isto é, a teoria), uma metodologia e acessórios, tais como dicionários de línguas e filosóficos. Contudo, Coménio abandona este projecto e retorna à Consulta Geral. Realiza, pois, a primeira série, linguística, a qual junta o tratado metodológico intitulado Linguarum Methodus Novissima (O Método mais Moderno das Línguas).

Tratava-se tanto duma filosofia da linguagem como da didáctica das línguas, mostrando como ensinar as línguas, a partir do texto, a gramática e os dicionários do Vestibulum, Janua e Atrium, com base num método didáctico geral que Coménio analisou no décimo capítulo do Método, visando os princípios da Didáctica. O livro também tinha um número de ideias respeitantes à comparação das línguas. Devido à sua larga concepção, esta metodologia pretendia melhorar o estado geral da educação. Muitas ideias da futura Consulta Geral já se encontravam no Método. Com efeito, trata-se da primeira obra impressa onde já estão caracterizadas as coisas humanas, isto é, as disciplinas mais importantes - a cultura (filosofia), a política, a teologia - determinantes para a felicidade ou a infelicidade e o fim da humanidade.

Coménio conversa ainda uma vez com o Chanceler Oxenstjerne, que o informa de como decorrem os seus trabalhos. Foi novamente recebido pela rainha Cristina. O chanceler sueco sossegou-o, quanto ao não esquecimento da causa dos checos. Contudo, por diferentes razões, das quais provavelmente também as contradições no meio político sueco, a ordem do chanceler Oxenstjerne, autorizando a delegação sueca a reclamar a restituição das liberdades para os países checos nas negociações em Vestefália, chega demasido tarde, no dia 24 de Outubro de 1648, após a assinatura dos tratados. Com efeito, nos termos destes tratados, renovou-se na Europa o status quo do ano de 1624 e não o de 1618. Também aí se reflectiu o facto de que os estados protestantes alemães aceitarem o projecto de trabalhos, preferindo os interesses materiais aos aspectos éticos.

Depois de todos os seus empenhos na Suécia, Coménio regressa com a família a Leszno, em Agosto de 1648. Pouco depois, morre-lhe a mulher que o deixa com duas crianças nascidas em Elbing, Susana (1643) e Daniel (1646).




[ Voltar ]