A Vida e a Obra de J. A. Comenius

De Rerum Humanarum Emendatione Consultatio Catholica

Deliberação Geral sobre a Reforma Geral dos Assuntos Humanos. Obra póstuma, inacabada, escrita no decorrer dos anos 1642-1670. Os sete tomos do Conselho Geral estão prefaciados com o texto Europae Lumina (Luzes da Europa). Coménio apela aí para as deliberações e debates sobre a reforma do mundo para todos os homens; dirige-se particularmente aos filósofos, políticos e teólogos, como representantes das coisas humanas, isto é, dos assuntos, das actividades humanas verificadas na evolução histórica da humanidade, como essenciais para resolver as relações dos homens com o mundo: para com a natureza, para com o universo do homem e da sociedade e para com Deus, enquanto personificação e modelo da suprema perfeição, objecto a que os homens devem aspirar pela vida fora.

Coménio justificou esta possibilidade do aperfeiçoamento humano também pela concepção bíblica do homem feito à imagem de Deus. As coisas humanas são definidas pelo autor no primeiro tomo da Deliberação, a Panegersia (o sonho de toda a gente), que expõe os fins da Deliberação. Serviu-se da razão, suscitou o interesse pelo conhecimento da verdade; isto conduziu ao aparecimento da filosofia e da ciência e ao desenvolvimento da cultura geral. É o esforço humano de agir que dá origem à criação das coisas, à sua organização, direcção e domínio. Foi assim que nasceu a política, que formula e aplica as regras que permitem às pessoas viver em determinada ordem. Enfim, a vontade de alcançar o bem esteve na origem da religião como aspiração ao bem supremo, à bem-aventurança eterna. De facto, para Coménio a cultura, a política e a religião representam as “coisas que são para cada homem, sempre e em toda a parte, tão essenciais que não é possível separá-las, a não ser que queiramos fazer do homem um não-homem”(IV, 25). É em relação com as acividades essenciais do homem que devem ser consideradas todas as coisas. Os princípios fundamentais da Deliberação são pois: saber, querer e poder agir (scire, velle, posse). Os processos de atingir estes fins encontram-se mencionados no segundo tomo da Deliberação, a Panaugia (Iluminação de todos). Utilizando o seu símbolo preferido - a luz que penetra em tudo - Coménio assinala a via da propagação da sabedoria (luz do espírito). Põe a tónica principalmente na compreensão do facto de que, no universo, nada existe isoladamente, mas em relação a outras coisas. Deste modo, existe estreita relação entre o conhecimento e a moral, a teoria e a prática, a vida, do indivíduo e a vida da sociedade, etc.

Propõe também as vias da unidade e da harmonia no esforço complexo com vista ao melhoramento do homem e da sociedade no seu conjunto. A ideia da pansofia está presente em toda a Deliberação Geral: abarca, de maneira universal, tudo (pan) o que diz respeito ao mundo e dele escolher o que é fundamental, isto é, a sabedoria (sophia), que ajudará a melhorar o mundo - em relação do homem com a natureza (dominar sem deformar) na vida humana e relativamente a Deus. É isto o que está tratado no tomo terceiro, a Pansophia (Sabedoria universal), a que Coménio também resolve chamar Pantaxia (propondo estabelecer um sistema geral de conhecimentos acerca do mundo). Este tomo é mais extenso do que o conjunto das outras partes, visto que o conhecimento do homem acerca do mundo, continuamente se completa e multiplica. A Pansophia é formada de dois prefácios e oito partes que se chamam “os mundos”. O primeiro, Mundus Possibilis, apresenta-se como um mundo neoplatónico, ideal, com uma introdução metodológica: trata dos princípios filosóficos, válidos também para os outros graus e para toda a Deliberação. Os princípios básicos são os seguintes: saber, querer e poder. Seguidamente vêm os mundos realizados, isto é, os reais. Mundus Archetypus (Mundo Arquétipo, que trata de Deus), Mundus Angelicus (Mundo Angélico, o mundo dos seres inteligentes imateriais), Mundus Materialis, Naturalis (o mundo material, natural), Mundus Artificialis (o mundo da arte humana, da actividade criadora), Mundus Moralis (mundo da moral), Mundus spiritualis (mundo espiritual), Mundos Aeternus (mundo eterno). É assim que a Pansophia apresenta os conhecimentos abarcando o conjunto do mundo, onde para o homem foi reservado um lugar importante com a criatividade, a moral, e a vida espiritual.

O homem é um nó intermediário entre a realidade natural inferior e a realidade divina. Encontra-se livre para resolver e reparar a falta causada pelo pecado dos primeiros homens, no princípio da história e para corrigir o mundo e torná-lo melhor. É livre para aperfeiçoar a vida e o mundo e para restaurar o clima de harmonia e de paz entre os homens. Conforme a concepção de coménio, o homem é o veículo do dinamismo que cria uma realidade melhor. O tomo quatro, a Pampaedia (A cultura universal da vida) é a parte mais conhecida e a mais frequentemente traduzida.

Esta teoria da cultura universal da vida na sua completitude (omnes omnia omnino) traça o esboço dos modos e métodos de formação das personalidades integrais e harmoniosas por meio das escolas, dos pedagogos e dos livros. Ela trata igualmente das questões do desenvolvimento do homem em oito escalas da vida: o período pré-natal e a delicada infância, as escolas elementares, secundárias e superiores (onde está a escola da adolescência), a escola informal dos adultos, a escola da velhice e da morte. No tomo quinto, a Panglottia (a Língua Universal), Coménio evoca a ideia dum meio de comunicação universal. Além da possibilidade da utilização das principais línguas mundiais, para os diferentes continentes, ele propõe uma língua artificial comum, lógica, compreensível, fácil de aprender, que exprima a unidade das realidades, das ideias e coisas. Contudo, sempre sublinhou a importância do desenvolvimento livre das línguas nacionais. A “Panglottia” oferece-nos, com efeito um ensaio de uma língua artificial para a comunicação internacional. No sexto tomo, a Panorthosia (O Melhoramento Universal), avança com projectos de instituições que devem consolidar o melhoramento do mundo. Depois das reflexões teóricas para explicar a diferença entre o melhoramento universal e as tentativas parciais precedentes, dá exemplos concretos que visam eliminar as causas das agitações e obter, graças às instituições internacionais, uma melhoria da situação dos indivíduos, das famílias, escolar, Igrejas e Estados.

Além da língua internacional, Coménio propõe constituir três corpos internacionais: um colégio internacional das luzes - saberes - isto é, dos eruditos encarregados da propagação da cultura em todas as nações; um concelho de paz internacional para resolver todos os conflitos políticos entre as nações; um conselho ecuménico das Igrejas para a solução das desavenças eclesiásticas. Os princípios fundamentais do aperfeiçoamento geral deviam ser: universalidade, simplicidade (isto é, o essencial) e o princípio do livre consentimento (a tolerância) estes princípios deviam-se manifestar no trabalho criador e pacífico como actividade livre para o bem de todos. O último tomo, a Pannuthesia (Admoestação Geral), convida à realização dos resultados, das deliberações sobre o aperfeiçoamento das ocupações humanas, estimula as pessoas e as sociedades a serem perseverantes na procura da verdade, do amor e da paz. Coménio dirige este apelo principalmente aos eruditos, aos políticos e teólogos. Esta obra completa teve de ser traduzida em checo e publicada em 1992, por ocasião do aniversário do nascimento de Coménio.




[ Voltar ]