FILOSOFIA
Adão e Eva
Correm maus os tempos. Agora, que se aproxima o fim do século, que é ao mesmo tempo o fim do segundo milénio, mais vulgar se torna o espírito do "comamos e bebamos, que amanhã morreremos". Celebra-se, no consumismo irresponsável, o fim de ideologias religiosas e a indiferença causada pela falta de resposta aos mistérios da origem, da evolução, da natureza do Universo e da vida: Donde vimos? O que somos? Para onde vamos?
Vamos, então, continuar o nosso diálogo. Nele, nada se pressupõe: expõem-se conceitos com o fim de instruir e esclarecer os que, consciente ou inconscientemente, estejam fora da verdade. Embora as respostas sejam claras e convincentes, não o são, todavia, para todos, mas somente para os que não estão cativos de preconceitos sem fundamento. Deponha, portanto, os seus preconceitos, quem os tiver, e enfrente, cara a cara, a verdade.
Já vimos que o sentido da palavra Adão se refere a uma colectividade, quer dizer, tem sentido colectivo de espécie humana, integrada por dois sexos; não se refere a um indivíduo do sexo masculino. E o que pensar de Eva?
Ora aqui está um assunto que não deve ser deixado "em branco". Na espécie humana, prevista no plano da criação, ambos, homem e mulher, iniciaram a sua evolução ao mesmo tempo: "E criou-os (Deus) macho e fêmea" (1, 27). Este ser macho-fêmea, como ainda há muitas plantas, seria depois modificado, dando origem à separação dos sexos.
E esta modificação teria em vista evitar a solidão que entristecia Adão, como vulgarmente se crê?
Claro que não. O homem, nessa altura, não tinha as características físicas e psíquicas que reclamassem um complemento noutro indivíduo, "que fosse um auxiliar semelhante a ele" (vers.18). Nem Deus agiu como um artesão, que vai acrescentando novos elementos à medida que os dados da experiência lho aconselham. A separação dos sexos era necessária e estava prevista. Com ela, o Homem (Adão), pôde desenvolver o cérebro e a laringe. Com o cérebro podia pensar e com a laringe conseguia dizer o que pensava.
O texto bíblico confirma esta conclusão?
Confirma. Para interpretar autenticamente este passo, o versículo 27, que termina com as seguintes palavras: "macho e fêmea os criou", temos de ter em conta que o autor bíblico emprega termos puramente fisiológicos (zacar, macho, e nequebah, fêmea). São dois substantivos com os quais se indica que a espécie humana tinha em simultâneo as duas funções sexuais distintas orientadas para a reprodução. (Cf. Max Heindel, "Ensinamentos de um Iniciado", cap. VI)
E Eva, teve origem, como se diz, numa costela de Adão?
Quantas costelas tinha Adão ao ser formado e com quantas ficou? Se admitirmos ser esta a origem de Eva, teremos de aceitar que Adão foi imperfeito, ou antes ou depois da formação de Eva. Ora, não há ninguém que tome à letra este fragmento bíblico, aceite apenas como um modo de dizer e de narrar. A palavra tsela é uma das mais obscuras do vocabulário bíblico. Emprega-se não só para significar "costela", mas também um "lado" ou "polo". Quer dizer, o lado feminino (ou masculino), isto é, um conjunto de órgãos, ficaram latentes e assim veio à existência a espécie humana composta por dois indivíduos de sexo distinto.
Em Mt. 19, 4 e em Mc. 10, 16, alude-se, igualmente, à criação do homem e da mulher num só acto: "Não haveis lido que no princípio o Criador os fez varão e fêmea?".
E que aspecto físico tinha o Homem nessa altura?
É claro que não podemos fazer uma ideia exacta. Há uma dificuldade sentimental enorme, habituados que estamos a ver o primeiro homem, e principalmente a primeira mulher, como os pintores nos habituaram a ver, como a mulher mais bela do mundo. As mais belas criações de tantos pintores buscando um tema clássico estão bem longe da realidade.
Então, o que temos de fazer?
É preciso, evidentemente, escolher entre um mundo completamente feito no começo, e o que se vai fazendo. Este último é moderno, baseado na evolução e no progresso. Afinal, o próprio Génesis não exclui a possibilidade de evolução do corpo humano e a tese do evolucionismo criacionista não suscita qualquer oposição com a exege bíblica.
Mas, se o espírito humano, ao evolucionar, passou por formas que hoje não identificaríamos como manifestações de vida, quer dizer que temos de modificar o nosso conceito acerca da própria vida?
Claro que sim. Este assunto é agradavelmente discutido numa peça teatral, "Zoo, ou O Assassino Filantropo"1. Depois de longa discussão, em que se procura saber o que é um ser humano, todas as provas clássicas se entrecruzavam e destruíam uma às outras, subsistindo sempre uma dúvida. Isto porque, como já dissemos, pertencer à espécie humana "não é uma questão de esqueleto, ou de esqueleto mais ou menos parecido com o nosso".
Considerando apenas os aspectos materiais do progresso humano, arriscamo-nos a deixar de lado o essencial, que é, nem mais nem menos, o facto de a evolução da forma se ficar a dever ao mergulho simultâneo do espírito nessa mesma forma.
E como se faz, então, essa evolução?
Através das reincarnações. O sistema reincarnacionista permite ao espírito aprender coisas por meio de tentativas e experiências através de muitas existências em corpos físicos cada vez mais bem desenvolvidos e/ou sensíveis. Tanto as experiências positivas como as negativas são armazenadas, gerando causas novas na existência seguinte.
Pode explicar melhor este assunto?
Por meio da reincarnação há enriquecimento progressivo. Os erros ou a maldade, que não forem corrigidos, podem ser transformados em deficiências, proporcionando ao indivíduo a oportunidade para conhecer os dois lados do problema. A filosofia da reincarnação permite que a pessoa encare as várias limitações actuais, físicas, sociais ou económicas, como experiências enriquecedoras para ajudar o desenvolvimento e a maturação espiritual da personalidade. É evidente que o modo como cada pessoa age e a decisão de aproveitar ou não a oportunidade, conscientemente, varia de acordo com a vontade de cada um.
Hoje ficamos por aqui. Mais do que simples hipótese, a evolução do ser humano é uma tese: "todos os organismos evoluem; e os fenómenos evolutivos correspondem a um plano pré-estabelecido por Deus, tendo em conta as leis de acordo com as quais eles recebem a existência".
Ariel
1. Colecção Livros das Três Abelhas, nş 80. P.E.A. Lisboa.
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