CEM ANOS!
III — Pessoas com História
O campo de saberes — histórico, antropológico e outros — parecia não manifestar qualquer interesse pelos aspectos da consciência mística e dos seus modos de expressão, apesar das mudanças já introduzidas no âmbito da instrução.A nossa sociedade era, em geral, ainda fechada, militantemente indiferente, ou até mesmo adversa, à racionalização das tradicionais construções teóricas dos assuntos de natureza espiritual.

O modo português de viver mantinha uma espécie de deformação mental que o fazia incorrer no erro dos escolásticos no alvorecer da ciência moderna: o de, manifestando indiferença, não querer admitir como verdadeiro o que não podia entender pelos modos de conhecimento a que exclusivamente estava habituado.Sem gosto nem paciência para reflexões de natureza espiritual, que lhe pareciam ociosidade estéril, cega e surda ao mistério, a população achava-se literalmente emparedadas nos modelos-ideais da educação da época e incapaz de imaginar o fenómeno de um indivíduo autónomo e auto-pensante relativamente a assuntos desta natureza.
De facto, no que respeita a temas espirituais, ainda não se identificam, na primeira metade do século passado, quaisquer debates de princípios ou de ideias. (1)
Essa completa indiferença pelos assuntos de natureza espiritual devia-se, em parte, ao facto de estes já terem caído, há muito, no domínio de instituições que se arrogavam como detentoras do direito e do costume de pensar e que, com a sua profunda influência na sociedade, contribuíam para a formação da mundividência dos cidadãos, nas cidades e nos campos.
(…)
Não era novidade para ninguém que a ciência e a técnica já conheciam, lá fora, um progresso assinalável e procuravam corresponder às exigências de uma população comparativamente mais culta — o que, naturalmente, estava associado a um quadro sociológico com outros tipos de espiritualidade.O que pressupõe, como é natural, que as mudanças religiosas estejam associadas, ou mesmo precedam, as mudanças culturais. (2)
Entre nós, devido ao generalizado atavismo espiritual-cultural associado aos modelos-ideais impostos por aqueles que premeiam situações de dependência emocional-espiritual, era difícil manifestar-se o individuo autónomo e auto-pensante, por haver uma instituição infalível que pensava por todos.E esta dificuldade mantinha-se porque era compelida a manter-se.
Essa forma de atavismo apenas tolerou, na linguagem corrente e de maneira perceptível, algumas manifestações de ironia com recurso a expressões que evocavam ideias, ou imagens, distantes da sua falsa devoção.Eram frequentes, por exemplo, manifestações de aparentes sentimentos religiosos em que se identificam evidentes manifestações de ironia, ou até de intenção crítica: “andar a bater com a mão no peito”, “estar como Pilatos no Credo”, etc... (3)
Foi neste contexto sócio-cultural que Francisco Marques Rodrigues, ao definir claramente a fronteira que separava a via iniciática do simples entusiasmo espiritualista, indiferente a certas derivas esotéricas a que recorriam aqueles que nada queriam fazer, e tendo sempre em conta a cultura e a educação do recipiendário, reagrupou e consolidou um numeroso grupo de rosacrucianos, alguns distantes e dispersos pelos territórios metropolitano, insular e ultramarino, apesar da insegurança reinante. (4)
O Mestre reconheceu que as raízes da crise não se situavam propriamente no aspecto material, da escassez e das carências, mas sobretudo em factores de ordem cultural e social que se prendiam com as referidas manifestações atávicas da chamada natureza humana das nossas populações.
Identifica-se, por isso, nas suas iniciativas a lucidez de perceber e compreender que em todas as realizações materiais, e de todas as possibilidades alcançadas no progresso da sociedade humana, a iniciativa é fundamental até mesmo para abordar novas formas de espiritualidade enquanto experiência pessoal, mais directa, ousada e criativa, fruto da consciência e do espírito, associando o aperfeiçoamento espiritual com ênfase no conhecimento.
Francisco Marques Rodrigues assinalou ainda, sem margem para dúvidas, o facto de a base da espiritualidade moderna estar associada a um fenómeno complexo ligado à expansão científica e tecnológica, às mudanças das estruturas sociológicas e à mutação das mentes.Os velhos sistemas de pensamento, concebidos para garantir a coesão das colectividades, já transportavam há muito o germe da sua própria decadência.Tudo porque, tendo atingido o limiar dos seus objectivos, iam emergindo gradualmente novos paradigmas indispensáveis ao progresso da humanidade, associados a um novo grau de consciência e portadores de um modelo de espiritualidade em concordância, a prenunciar uma nova fase do progresso da humanidade.
Num plano mais prático, com o objectivo de esclarecer e corrigir tal estado de coisas, Francisco Marques Rodrigues tentou promover medidas correctivas enfatizando o aperfeiçoamento pessoal e espiritual regido por critérios do pragmático e do valorizador, em que a religiosidade deixasse de ser um acervo de palavras proféticas e de ritos salvíficos para se transmutar no despertar da intuição espiritual individual de acordo com a já evidente mudança das estruturas sociológicas e a mutação das mentes.
Do seu esforço resultou uma comunidade animicamente mais motivada e liberta de antigas influências intersubjectivas, algo só possível por via da racionalidade dos esclarecimentos adquiridos.
De alto significado e forte repercussão foi a reestruturação da Revista Rosacruz.Esta é, indiscutivelmente, um dos mais influentes veículos de difusão do rosacrucianismo e o órgão oficial da nossa instituição Filosófica, Filantrópica e Educativa.
(…)
Para além de tudo isto, à Revista Rosacruz coube ainda o papel, porventura o mais inesperado, mas talvez o mais interessante de todos, de acompanhar a diáspora nacional para locais longínquos, da França à Grã-Bretanha, dos Estados Unidos da América à Venezuela e ao Brasil, e também, naturalmente, a África, colhendo, onde quer que houvesse assinantes e membros da nossa Instituição, uma afirmação de apreço e reconhecimento.
Todavia, a esta pujança crescente correspondeu o gradual aumento de dificuldades e tropeços associados ao cada vez mais expedito controlo da Comissão de Censura sobre as formas de comunicação escrita.
F. M. C.
(1) Luís Machado Abreu, Portugal Anticlerical, Gradiva, Lxª, 2019, p. 39.
(2) Moisés Espírito Santo, A Religião da Mudança; Universidade Nova de Lisboa, 2000, pp 153-157.
(3) Luís Machado de Abreu, Incidências Anticlericais; Universidade de Aveiro, 2006, pp 9-11.
(4) História Concisa da Fraternidade Rosacruz de Portugal — Fotobiografia de Francisco Marques Rodrigues, LXª, 2009, p. 38-39; Cf. Revista Rosacruz, nº 251, Maio a Junho de 1974, pp 1-4.



