CEM ANOS!
IV — Pessoas com História
Uma outra grande dificuldade para a vida não só da Revista, mas da própria F.R.P., advinha da Censura Postal. A violação da correspondência, a que foi dado o nome eufemístico de “intercepção postal”, da nossa Instituição e de uma parte conhecida dos seus membros, tornou--se uma prática rotineira pela suspeita de haver entre eles “desafectos ao regime”. Esta actividade era exercida por serviços especiais junto dos centros de tratamento da correspondência e encomendas dos CTT e abrangia toda a correspondência do país e a proveniente do estrangeiro. A vigilância da correspondência de um expedidor permitia ampliar a rede de observação sinalizando os seus correspondentes, que ficavam referenciados na polícia política PIDE/DGS.
Obras destinadas à instrução e pesquisa, importadas do estrangeiro, eram devolvidas com uma declaração humilhante para o prestígio do nosso país: “Circulação Interdita por Conter Literatura Rosacruz”.

Foi o exemplo vivo de um homem corajoso e incansável, capaz de identificar, com lucidez, o princípio do dever para com os outros ou de outras causas, princípio esse que podemos entender como a vitória da paixão para servir os outros sobre os interesses próprios.
Tem passado despercebida a maneira como Francisco Marques Rodrigues demonstra que a coragem não é uma virtude estática, pois fundamenta-se em valores. A forma como dinamizou o apoio a Franz Philippe Preuss está assinalada nos documentos arquivados e é disso exemplo.
Franz Philippe Preuss nasceu em Viena de Áustria, em 18 de Agosto de 1898. Concluído o curso de Medicina, trabalhou no 3º Hospital Militar na sua cidade natal, e depois no Hospital de Guerra instalado na Dalmácia. Terminada a I Guerra Mundial, é admitido no rosacrucianismo, e em 1924 parte para o exílio numa viagem atribulada seguindo o rumo de muitos outros refugiados para o Brasil. Chegado a São Paulo, trabalha inicialmente no Hospital Alemão e depois na Santa Casa. Decorridos alguns anos, é nomeado chefe dos Serviços de Fisioterapia do Instituto Paulista.
Perante a indiferença e a inércia generalizadas das várias instituições Francisco Marques Rodrigues parte da sua posição humanista com um pressuposto extremamente actual: o rosacrucianismo tem de servir de estímulo às forças latentes enriquecedoras do espírito. E apoia Franz Philippe Preuss num esforço que se evidenciará marcante para o futuro crescimento do rosacrucianismo além-mar, com o auxílio que lhe presta sob a forma de apoio inicial, incentivo e orientação geral.
As cartas trocadas entre ambos e guardadas no arquivo da correspondência com particulares e entidades várias permitem avaliar o conjunto dos valores morais por que se regia Francisco Marques Rodrigues, assim como a coragem e a persistência de Franz Philippe Preuss. A colaboração que este deu, em contrapartida, à nossa revista, foi publicada com a revisão de Francisco Marques Rodrigues tendo em conta a barreira linguística, causa de uma certa discriminação/preconceito que teve de enfrentar devido a esta limitação.
Esta ajuda não foi isolada, como se verifica pelos documentos arquivados. Refira-se apenas mais um caso, o de Narciso Ornelas y Rodrigues, que havia sido proposto por Eugénio V. L. y Tufiño, então residente em Lisboa. No início do ano de 1953, em viagem pela Europa e surpreendido por um longo e complicado processo burocrático, agravado por relações conflituosas entre alguns países, se encontrou em Portugal com os documentos caducados e o regresso à pátria seriamente dificultado. Mais uma vez, a intervenção de Francisco Marques Rodrigues e dos membros da sua “oficina” permitiu a rápida solução do problema e o reencontro de Narciso Rodrigues com a família na cidade do México. Estas diligência foram registadas em acta com data de vinte de Abril de mil novecentos e cinquenta e dois.
Todas estas movimentações parecem ter contribuído para a falta de confiança no controlo impiedoso já em curso à volta de Francisco Marques Rodrigues e da instituição que dirigia, sendo então accionado o mecanismo de percussão do aparelho de coacção3.
No dia 17 de Junho de 1966, pelas 7 horas da manhã, 13 agentes da PIDE assaltam a residência de Francisco Marques Rodrigues e sede da F. R. P., assunto este já foi amplamente referido noutra ocasião4. Acrescente-se apenas que a referida diligência terminou a altas horas da noite, tendo sido apreendidos numerosos documentos, livros e até dinheiro.
A reacção de Francisco Marques Rodrigues foi corajosa, tendo em vista obter explicações e a imediata devolução dos documentos e valores subtraídos. O inspector que dirigiu o assalto aconselha-o a falar com o subdirector daquela polícia, José Barreto Sachetti, que dirigia os Serviços de Investigação. Após cerca de duas horas de diálogo, o polícia ameaça deter Francisco Marques Rodrigues e levá-lo a responder em Tribunal Plenário. Mas ele não só não se atemoriza como faz, solenemente, um aviso: o incidente teria repercussões no estrangeiro, desagradáveis para o país. Insensível, José Sachetti respondeu: “Sempre se disse mal de Portugal no estrangeiro. Por isso, não importa…”5. De facto, a reacção surgiu pouco depois, em particular no Brasil, com protestos circunstanciados dirigidos ao Presidente do Conselho de Ministros de Portugal e entregues presencialmente pelos dirigentes brasileiros ao Cônsul-Geral português em São Paulo. O Português José Augusto Pinto Coelho, no exercício da presidência da instituição da Fraternidade Rosacruz naquela cidade brasileira, subscreve o documento, logo seguido por António Muñoz e um apreciável número de confrades e assinantes desta Revista, portugueses e brasileiros.
O Sol, aquele Sol a que se referia Henrique Lopes de Mendonça no seu hino, teimava em manter-se obscurecido.
É neste período que sobressai a capacidade de Francisco Marques Rodrigues para lutar contra o já instalado “conforto mental de que não se pode escapar”, que representa sempre retrocesso, e exprimir o seu conhecimento do que é essencial para destacar os traços fundamentais da filosofia rosacruciana sem nunca sacrificar a sua complexidade. Destaca-se também a sua facilidade em fornecer instruções explícitas sobre a realidade transcendente sem ter de desmontar a sua multiplicidade de dados com relações intrincadas para, reduzindo-os a determinantes mais simples, transmitir nos seus ensinamentos, que tinham sempre em conta a cultura e a educação do candidato que ansiava receber a Luz.
Também não pode ser omitida a imensa capacidade de que deu mostras para transmitir o conteúdo do seu profundo conhecimento com empatia e de forma afectiva e didáctica, associando fácil e claramente os vários aspectos particulares da realidade em estudo e as respectivas conexões.
Francisco Marques Rodrigues foi semeando ideias ao longo de um magistério fértil e activo, no círculo íntimo dos amigos, nas conferências, nas viagens filosóficas, na televisão e nos jornais que o entrevistaram. Chega a assombrar a produção e a variedade das ideias e das sugestões que se encontram nos seus escritos ainda inéditos. Não espanta, por isso, reconhecer a sua irradiação através da peregrinação à sede da nossa instituição, ainda hoje, de velhos contemporâneos e discípulos, já octogenários, do tempo da “Rua de S. José”, mesmo com residência distante ou imigrados pelos diversos países da América Latina.
Todos estes factores explicam como é difícil que, mesmo volvidos tantos anos, a sensibilidade de quem alguma vez o ouviu, ou com ele se relacionou, não tenha sido fortemente atingido por esta particularidade e não guarde de Francisco Marques Rodrigues uma memória amiga e saudosa.
Quanto a nós, a satisfação de trabalhar com uma pessoa tão intelectualmente curiosa e sagazmente crítica perdura até hoje.
Fica assim explicado o porquê desta obrigação de falar repetidamente de Francisco Marques Rodrigues no ano do centenário da nossa revista: trata-se, nada menos, do pagamento de uma dívida intelectual-espiritual — que é, muito provavelmente, das dívidas mais sérias.
No processo de sucessão do cargo ocupado pelo Mestre, e de modo que a transição ocorresse proactivamente com os talentos de reserva na instituição, capaz de garantir soluções firmes para situações eventualmente críticas, com firmeza e eficácia idêntica e sem prolongar inutilmente a vacatura do lugar-chave, avaliadas as soluções ideais, foi eleita por amplo consenso Cecília Augusta Câmara Rosas Rodrigues (1900-1992), viúva do Mestre.
Proactiva e muito segura de si, com a consciência de que existe um plano além da matéria, foi atraída pelos seus interesses espirituais--ideológicos para a nossa augusta instituição, tendo prestado desde logo alguma colaboração administrativa. Dotada de excelentes qualidades, como empatia, inspiração, optimismo e resiliência, revelou-se uma peça fundamental na estrutura directiva da Instituição.

E também que sirva para lembrar o empenho comum em garantir a preservação do conjunto patrimonial, considerado por todos um instrumento cultural importante, que deve ser criteriosamente conservado e transmitido às gerações vindouras.
Sucedeu-lhe Perfeito de Matos Rodrigues (1914-1989). Os valores que defendia, o comportamento e o seu modo de trabalho, em harmonia e alinhados com os valores centrais e a cultura da nossa augusta Fraternidade, eram a garantia para assegurar o seu tradicional e influente dinamismo na sociedade.

Com a serenidade e a firmeza de quem não recua, Perfeito de Matos Rodrigues pôs tanto zelo nas instruções legadas por Francisco Marques Rodrigues quanta paixão pela família e pelos trabalhos literários. Foi, sem dúvida, um exemplo para os que com ele trabalharam e para todos os membros vindouros.
Perfeito de Matos Rodrigues colaborava assiduamente nesta revista. Como poeta, percebia claramente o que os outros não viam e o brilho daqueles gestos simples que não se harmonizam com os discursos e comportamentos de circunstância. Como dirigente, agiu sempre pelo exemplo, de maneira dinâmica, com o cuidado de observar o desenvolvimento e as transformações do ambiente externo para, assim, ajustar tarefas, normas e procedimentos.
O século XX, século em que nasceu a “Rosacruz”, foi um período de profundas mudanças, no país e no mundo, mudanças que causaram desafios às pessoas e às estruturas em que se organizavam e viviam.
Na capital do país alguns destemidos chamaram a si a responsabilidade de salvaguardar um ideal sem baixar os braços perante as “ameaças” que tal iniciativa despertava.
Esta revista é parte desse trabalho do qual procurámos dar nota. Pelo seu objectivo, não devia ser exaustiva e pormenorizada, ainda que se tenha procurado, contudo, fazer justiça ao esforço de valorização agindo como veículo congregador da manutenção do ideal rosacruciano e assumindo, ao mesmo tempo, o papel aglutinador da afirmação desse ideal.
F. M. C.



